06/06/2026

MOSTRA 2012: A hora e a vez da língua portuguesa

Na programação desta quarta (24), uma boa ocasião para ouvir os diversos sotaques da língua portuguesa, com destaques lusitanos, do veteraníssimo Manoel de Oliveira ao novato Miguel Gomes, e o estreante brasileiro Kléber Mendonça Filho.

O Gebo e a Sombra
Adaptando peça de Raul Brandão, ambientada no século 19, o diretor português Manoel de Oliveira produziu um clima de Anton Tchecov,no minimalismo dramático e eficaz de O Gebo e a Sombra – que conta a história de um casal, formado por um velho contador, Gebo (Michael Lonsdale) e sua mulher, Doroteia (Claudia Cardinale), que vivem na penúria, na companhia da nora, Sofia (Leonor Silveira).
O filho deles, João (Ricardo Trêpa), desaparecido há oito anos, acaba voltando e provoca uma grande tragédia, já que se trata de um ladrão, um homem impiedoso, sem qualquer disposição para cuidar nem dos pais, nem da mulher. Participam deste fino elenco também o ator português Luís Miguel Cintra e a francesa Jeanne Moreau, tornando o filme mais uma daquelas pequenas jóias de dramaturgia e interpretação que o cineasta português consegue produzir como poucos.
Como atração adicional, a atriz italiana Claudia Cardinale, e os portugueses Leonor Silveira e Luís Urbano ainda prestigiarão algumas sessões do filme, confira abaixo. (N.B.)

CINESESC - 24/10/2012 - 21:30 (Quarta) presenças de Leonor Silveira e Luís Urbano
CINEMATECA - SALA BNDES - 29/10/2012 - 17:00 (Segunda)
CINE LIVRARIA CULTURA 1 - 30/10/2012 - 22:40 (Terça) – presença de Claudia Cardinale

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 31/10/2012 - 19:00(Quarta) – presença de Claudia Cardinale

Os filmes de Miguel Gomes
Se os três longas do cineasta português Miguel Gomes têm um ponto de intersecção, este se dá particularmente pela música. Em todos há ao menos um personagem cantando em cena. Mas nem por isso se pode dizer que são musicais no sentido estrito do termo. Seria possível até chamá-los de antimusicais, pois neles a música não é a razão de ser do filme, mas um intruso que destoa e introduz um colorido especial.
Seu primeiro longa, A cara que mereces
(foto), de 2004, apresenta logo no começo uma fada cantando para um caubói, debaixo de uma chuva torrencial. Ele é Francisco (José Airosa), que está completando 30 anos, idade a partir da qual, segundo um ditado luso, vai ter então a cara que merece. Ele é mal humorado, e sua namorada (Gracinda Nave) tenta, em vão, animá-lo. Esta preparada uma festa-surpresa para ele mas, depois que uma das crianças das escola onde trabalham se acidenta, ele manda cancelar.
Na segunda parte, Francisco está sozinho numa casa de campo, de cama com sarampo, e surgem sete amigos para cuidar dele. O sujeito cria uma série de regras e obrigações para os colegas, e nunca sai do quarto. Não é difícil relacionar esses personagens com a encenação de A Branca de Neve feita na primeira parte do filme pelos alunos de Francisco.
O segundo longa do diretor, Aquele querido mês de agosto – o único até agora lançado comercialmente no Brasil - ganha o seu título a partir de uma música cantada por uma personagem. No longa de 2008 – ganhador do prêmio da Crítica da Mostra daquele ano – há um experimento formal: um filme com seu making off embutido no meio da narrativa. Para apreciá-lo, é preciso mergulhar em sua história fraturada, na qual o canto de uma personagem é o guia.
Já em Tabu (foto), seu mais recente longa – premiado em Berlim, exibido na Mostra e com previsão de estreia para o próximo ano –, um dos personagens centrais é baterista e este trabalho é o que lhe possibilita sair da África, onde mora, e fugir de um amor complicado. Com um diálogo tanto com Almodóvar quanto Murnau, o longa escrito e dirigido por Gomes (e coproduzido pelos brasileiros Caio e Fabiano Gullane) transita entre Lisboa e o coração da África, remetendo igualmente à herança colonialista de Portugal.
Na primeira parte, Pilar (Teresa Madruga) ajuda a sua vizinha Aurora (Laura Soveral), mulher de idade e sem muito juízo, que está sob os cuidados da empregada, Santa (Isabel Cardoso). O trio de personagens tem um quê de Almodóvar, com suas excentricidades e cumplicidades femininas. Gomes se inspira no colega espanhol para fazer um retrato feminino engraçado e tocante.
A segunda parte distancia-se completamente da primeira, inclusive no cenário. Quando Aurora cai gravemente doente, deixa com Santa instruções para procurar Ventura (Henrique Espírito Santo), uma figura essencial de seu passado e que, agora velho, desvenda para Pilar e Santa sua conturbada paixão por Aurora. Por meio de um flashback, acompanhamos o desenrolar dessa história de amor – com os personagens jovens interpretados por Ana Moreira e Carloto Cotta.
Rodado num belíssimo preto e branco, Tabu ganha força com a paisagem da África e, ao mesmo tempo que desenvolve o drama pessoal de Aurora e Ventura, também faz um retrato da presença portuguesa na África. As contradições e tensões sociais do lugar vão aparecendo de forma sutil nas entrelinhas desse filme que no Festival de Berlim ganhou os prêmios Alfred Bauer (concedido a longas que abre novas perspectivas artísticas) e da crítica internacional.
Na Mostra, A cara que mereces tem sessões na segunda (29), às 16h20, e na quinta (1), às 16h10. Já Aquele querido mês de agosto será exibido nesta quinta (25), e na terça (30), ambas às 14 horas. As sessões dos dois filmes acontecem no Espaço Itaú de Cinema Frei Caneca. (A. O.)

O som ao redor
Em O som ao redor, Recife é uma cidade de constantes contradições sociais que se materializam nos sons. Há uma diferença clara, e o filme bem mostra, entre os sons que cada camada social é capaz de produzir, e aqueles que são obrigados a escutar. É nesse último que a tensão de classes de torna mais evidente no filme de Kleber Mendonça Filho, premiado curta-metragista pernambucano e diretor do documentário Críticos, estreando num longa de ficção.
O longa tem colecionado prêmios por onde passa – Roterdã, Rio, Gramado, entre outros – além de críticas positivas. O jornal The New York Times, por exemplo, definiu o filme como “revelador”. Não é para menos. Kleber capta as contradições sociais e os indícios de uma surda luta de classes com sua câmera, que tem trânsito livre entre vários ambientes perseguindo os personagens.
Aos poucos, as contradições se materializam num bairro de classe média metido a fino, com prédios de nomes pomposos, como Camille Claudel e Westminster. Nesse mosaico, os fios condutores são João (Gustavo Jahn) e Bia (Maeve Jinkings). Ele, corretor de imóveis, vindo da família que é proprietária de todas as casas da rua. Embora rico, o filme sempre o mostra como gente boa: não reclama com a empregada que traz os netos para o serviço, nem quando encontra um filho dela dormindo em seu sofá. Mais remediada, Biatambém não é má pessoa. Atualmente, o único problema de sua vida é o cachorro do vizinho que não para de latir – o que a leva a adotar algumas medidas.
Se em sua forma, O som ao redor é até simples – seguindo uma narrativa bem direta, inclusive –, é no conteúdo que Kleber traz à tona a complexidade. O ponto de mutação dessa narrativa – que para os mais incautos pode parecer banal – começa com a chegada de um trio de seguranças que bate de porta em porta se oferecendo para fazer ronda das 7 da noite às 7 da manhã na rua.
O chefe deles é Clodoaldo (Irandhir Santos, como sempre perfeito), sujeito bom de papo que tenta convencer os moradores um a um. Encontra dificuldades apenas com João, seu tio Anco (Lula Terra) e o poderoso avô, Francisco (W.J. Solha).
A chegada dos seguranças, estranhamente, passa para o público a sensação de maior vulnerabilidade dos personagens. Quem são essas pessoas que os observam? Entram em suas casas e usam seus imóveis quando não têm ninguém por perto? Os seguranças são a evidência de que o ponto de equilíbrio entre as classes é mera utopia. Junto com o som que cerca os personagens, eles são a prova de que a tensão social, mais cedo ou mais tarde, vai explodir.

Na 36ª Mostra, o longa tem sua última sessão nessa quarta (24), às 15h, na Cinemateca. (A.O.)