25/09/2026

Confins da Rússia e uma Bucareste eletrizante na rota do ouro

"Agora que eu estou num novo país, ninguém pode me dizer o que é certo e o que é errado"

Emily Meyer (personagem principal do filme Gold)

No segundo dia da competição, em que foram apresentados outros três concorrentes ao Urso de Ouro, a disputa começou com o filme russo A Long and Happy Life
(foto ao lado), dirigido por Boris Khlebnikov (Until the Night Separates Us), que dialoga de maneira muito interessante com outro filme da competição já apresentado, Promised Land (de Gus Van Sant).

Filmado no vilarejo de Umba, situado na região de Murmansk (norte da Rússia), o concorrente russo retrata a vida de Sasha (vivido pelo ator Alexander Aliabiev), fazendeiro às voltas com a pressão das autoridades locais para vender sua propriedade. Sua namorada, Anna (Anna Kotova), cujo grande sonho é comprar um apartamento na parte urbana da cidade, é o grande incentivo para que o acordo seja concretizado. Mas, uma vez que ele é assinado, Sasha vê-se envolvido com a revolta dos que trabalham para ele, colhendo batatas em sua propriedade. Associando-se a eles, e correndo o risco de perder sua namorada, mas também entrando em conflito direto com os poderosos da região, Sasha inicia um projeto de modernização das atividades da fazenda, a fim de provar a todos a possibilidade de lucros com a atividade agrária.

Mas o tempo corre contra ele, já que há muito o que fazer, a começar por colher as batatas antes que o inverno chegue. Aliás, a chegada do inverno é pontuada ao longo do filme, reforçando seu caráter metafórico: algo está por chegar ao fim, um ciclo encerra-se e chegam as incertezas acerca daquilo que vai surgir na sequência. É preciso agir. E é isto que Sasha vai fazer. Aliás, é na evolução do personagem que o filme encontra o seu equilíbrio e sua força.

Este desejo de reinventar-se, de desbravar novas possibilidades, isto tudo faz parte também do filme Gold
(foto ao lado). Dirigido pelo alemão Thomas Arslan (Im Schatten, apresentado na mostra Forum, durante a Berlinale de 2009), o filme narra a expedição liderada por Emily Meyer (Nina Hoss, presente na
edição anterior da Berlinale, no papel principal de Barbara, vencedor do prêmio de direção) durante o verão de 1898 em busca de ouro, recém-descoberto na cidade canadense de Dawson (trata-se da corrida ao ouro nas margens do rio Klondike, que ocorreu entre 1897 e 1899).

Mas ao longo da busca desta tão sonhada «
nova vida
», Emily e sua trupe tem que se confrontar com todas os obstáculos que surgem ao longo do caminho, que podem ser resumidos num grande mergulho no desconhecido.
O que requer uma constante capacidade de adaptação. Ao longo das oito semanas que duraram as filmagens, os atores estiveram totalmente imersos na realidade selvagem, entre montanhas e rios. Para que houvesse uma veracidade física impregnada em cada um deles, houve um intenso trabalho de preparação. Nina Hoss, por exemplo, nunca havia montado a cavalo, informação que parece inverossímil ao vê-la comandando sua trupe.

O movimento, aliás, é o mote inicial do terceiro filme do dia, já que
The Necessary Death of Charlie Countryman tem início quando o personagem-título, interpretado por Shia LaBeouf (visto em Os Infratores, de John Hillcoat, apresentado em Cannes
no ano passado) viaja para Bucareste após a morte da mãe, vítima de câncer. Ainda no avião, um outro incidente leva-o a encontrar Gabi (Evan Rachel Wood), às voltas com os surtos do seu ex, Nigel (Mads Mikkelsen, ator dinamarquês vencedor do prêmio de melhor ator no último festival de Cannes pelo filme
A caça, ainda inédito no Brasil).

O título do filme refere-se à obstinação da qual Charlie vai fazer prova para conseguir conquistar o amor de Gabi. Encontrando-se num momento da vida em que sente que não há mais nada a perder, ele mergulha de cabeça em situações onde sua morte parece a evidência mais palpável. Se é no dinamismo injetado pela interpretação de Shia LaBeouf que o filme ganha toques de humor em meio a todos os problemas em que ele se envolve, por algumas vezes ele parece um tanto quanto gratuito.