24/09/2026

Últimos concorrentes são apresentados na Berlinale

A organização da Berlinale preparou uma excelente surpresa ao reservar para a reta final o excelente filme Harmony Lessons, impressionante longa-metragem de estréia
do diretor e roteirista Emir Baigazin, originário do Cazaquistão. O enredo retrata a rotina do adolescente Aslan, que vive com sua avó num vilarejo onde a delinquência juvenil é uma realidade capaz de tornar ainda mais conturbada a adolescência.

Assim sendo, às aulas incluídas dentro do currículo escolar, juntam-se aquelas outras ocorridas na imediações da escola, como por exemplo as reuniões em que Bolat (Aslan Anarbayev) extorque dinheiro de seus camaradas de maneira direta e violenta.

O silêncio que caracteriza Aslan (Timur Aidarbekov ) é acompanhado de uma intensidade na maneira como ele busca entender melhor o mundo ao seu redor, bem como a si mesmo. Seu isolamento social é compensado pelo seu grande interesse pela natureza e seus mecanismos, bem como pela ciência. Dotado de uma grande inteligência, ele vai transformar seu quarto num verdadeiro laboratório de pequenas experiências, chegando mesmo a criar uma cadeira elétrica para baratas. Seu único amigo na escola é o novato Mirsayin (Mukhtar Andassov), cuja única redenção possível diante da hostilidade que os rodeia encontra-se no mundo virtual Happylon.

Para o espectador, a fotografia de Aziz Zhambakiyev é uma oportunidade para o deslumbramento. Este país praticamente desconhecido é retratado em planos muito depurados, onde o enquadramento da imagem visa criar uma integração entre os personagens, seus sentimentos e a equivalência de tudo isto no ambiente que os rodeia.

O engajamento do diretor não existe apenas na maneira como trabalhou o roteiro de forma a expor de maneira tão universal e sensível aspectos tão específicos da sociedade do seu país, mas também em outros setores, como a escolha do elenco. Todos os atores principais não são profissionais e Timur Aidarbekov, intérprete de Aslan, e verdadeira alma do filme, foi encontrado em um orfanato. Ao longo das filmagens, passou por mudanças que incluíram sua saída do orfanato. Quem sabe ele não volta para casa com um Urso de Prata em sua mochila
?
Mais uma vez, o Festival de Berlim mostra que extrapolar as fronteiras ficcionais e trazer às telas projetos que vão além de um projeto cinematográfico faz parte de sua vocação.

A seguir, foi apresentado o mais recente filme do sul-coreano Hong Sang-Soo, Nobody’s Daughter Haewon. Uma vez mais o diretor de Hahaha traz às telas um filme onde a aparente banalidade do cotidiano de seu personagem principal revela outros aspectos ligados à condição humana. Haewon (Eunchae Jung) é uma aspirante a atriz que, para lidar com a partida da mãe para o Canadá, resolve retomar contato com Seongjun (Sunkyun Lee), um professor de cinema da sua faculdade, com quem ela viveu uma aventura amorosa.
O filme é uma espécie de deambulação evocatória, onde as locações escolhidas evocam momentos compartilhados pelos personagens. Hong Sang-Soo revelou na coletiva que normalmente escolhe locações que fazem parte de sua rotina, fazendo com que seu olhar transmita esta familiaridade. Como acontece em seu filme The Day He Arrives (2011), uma série de encontros inesperados entre os personagens, bem como reencontros, pontuam a evolução da trama.

Assim como os sonhos de Haewon, que acabam intercalados às situações reais. Num ano onde o nível dos filmes selecionados tornará não muito fácil a escolha daquele que levará o Urso de Ouro, Nobody’s Daughter Haewon apresenta-se como mediano.


O último filme apresentado em competição foi Elle s’en va, filme da diretora francesa Emmanuele Bercot (Backstage, da seleção de Veneza em 2005), que trouxe às telas Catherine Deneuve, completando o pódio, juntamente com Isabelle Huppert (La religieuse) et Juliette Binoche (Camille Claudel 1915) das divas francesas presentes na competição em Berlim.

Catherine interpreta Bettie, sexagenária viúva, que vive na casa da mãe e que ainda trabalha duro no restaurante que possui. Até que um dia, num momento de estresse, resolve largar tudo, pegar o carro e sair pelo mundo. Na verdade, a intenção inicial de Bettie era apenas criar um parênteses momentâneo mas situações inesperadas, bem como encontros insólitos, vão transformando o filme num verdadeiro road-movie França afora.

De certa forma, pode-se dizer que se trata do equivalente francês do filme chileno Gloria, visto que ambos retratam a questão da condição feminina sob o ponto de vista das mulheres ditas mais «
maduras
» com um despudor que dificilmente é associado a esta faixa etária.

Superando seu grande desafio, o de dissociar a imagem de grande diva do cinema francês de Catherine Deneuve, neste papel criado sob medida, Emmanuelle Bercot permite à atriz ultrapassar esta imagem de «
mito
» ao retratar Catherine em cenas insólitas mas verossímeis.

Principalmente quando Charly, seu neto vivido pelo ator Nemo Schiffman, torna-se seu co-piloto e verdadeiro confidente. Eles, que até então eram estranhos um para o outro, transformam a estrada e os imprevistos que atravessam o caminho em matéria-prima para que este encontro seja transformador para ambos.

O papel foi criado especialmente para Catherine Deneuve e a naturalidade com a qual Bettie evolui durante o filme deve-se muito aos diálogos escritos por Emmanuele em cooperação com Jérôme Tonnerre.

A partir de agora, todos os dados foram lançados. Resta aguardar a cerimônia de encerramento do Festival para descobrir quais serão os premiados deste 63° Festival de Berlim.