24/09/2026

Filme da seleção oficial consagra-se grande vencedor do Teddy Award


"O futuro não está à nossa frente, ele está dentro de nós. E podemos construir um futuro melhor"

Boris Dittrich, membro do programa LGBT junto à Human Rights Watch

Como nos anos anteriores, a cerimônia do 27° Teddy Award, premiação concedida aos filmes com temática LGBT, na sexta-feira, dia 15 de fevereiro, foi marcada por discursos engajados que abordaram também a noção dos direitos humanos num terreno mais amplo.

Diferentemente dos dois anos anteriores, a celebração não aconteceu no aeroporto desativado de Tempelhof e sim num antigo armazém de frete postal, hoje reservado apenas para eventos privados. Curioso, aliás, pensar no paralelo que pode ser feito entre o Teddy Award e a noção de movimento intrínseca aos locais onde ele têm acontecido. Com o correr dos anos, é preciso que a mentalidade das pessoas caminhe também, evolua, o que, infelizmente, não ocorre da mesma maneira em todos os lugares. Mundo afora festivais de filmes gays, lésbicos e transgêneros são uma realidade, mas em nenhum lugar atinge a dimensão representada pelo Teddy, tanto em função da seleção de filmes quanto na participação de políticos e outras autoridades durante o evento, sem falar nos artistas.

Este ano, os artistas convidados deram um toque internacional à premiação. O destaque foi, sem dúvida, Rufus Wainright que iniciou sua participação cantando (e tocando) a música The maker makes, parte da trilha sonora de O Segredo de Brokeback Mountain (enquanto imagens do filme eram projetadas no telão), para finalizá-la com uma homenagem ao marido, alemão, cantando Für mich soll’s rote Rosen regnen (composta por Hildegard Knet, uma das mais marcantes estrelas do cinema alemão).

Falando em ícones, o tema desta edição do Teddy era «
Celebrando ícones queer
!
», uma homenagem a todos aqueles que, de alguma forma, estenderam as fronteiras da arte. Jean Cocteau, Marcel Proust, Virginia Woolf e James Dean foram alguns dos nomes lembrados. Edith Piaf foi celebrada na voz da cantora Katharine Mehrling, que cantou Le droit d’aimer.

Quanto à premiação, a escolha do cineasta brasileiro Karim Aïnouz para anunciar o vencedor de melhor curta-metragem podia antecipar que o vencedor seria o curta brasileiro O Pacote, dirigido pelo brasileiro por Rafael Naidar, mas quem levou a estatueta foi Undress Me, curta sueco dirigido por Victor Lindgren. Vale lembrar que em Karim lançará em 2013 seu mais novo filme, Praia do Futuro, protagonizado por Wagner Moura e Clemens Schick (ator alemão muito presente em projetos da fotógrafa Nan Goldin, de quem é amigo).

Concedeu-se este ano um Teddy Special ao projeto sul-africano Steps to the Future, que luta contra a discriminação e a estigmatização de pessoas soropositivas, através de programas educativos que visam criar o debate em todas as esferas da sociedade. E o prêmio do Júri (presidido por Benoît Arnulf, fundador do Festival LGBT de Nice) foi atribuído ao filme Concussion, dirigido pela norte-americana Stacie Passon e produzido por Rose Troche, responsável pela série The L World.

No ano em que se comemora os 50 anos da amizade franco-alemã e que o debate suscitado pelo projeto de lei proposto pelo governo de François Hollande que estende direito do casamento civil às pessoas do mesmo sexo, o Teddy de melhor documentário foi dado ao cineasta francês Sébastien Lifshitz pelo filme Bambi, que narra a vida de Marie-Pierre Pruvot, transexual nascida na década de 30 na Argélia, de onde saiu para instalar-se definitivamente em Paris. Sébastien, vencedor em 2004 do Teddy na categoria ficção com Wild Side, apresentou no último festival de Cannes Les invisibles, documentário construído através do relato de gays e lésbicas franceses nascidos entre as duas guerras e que está em cartaz nos cinemas franceses desde novembro de 2012.

O grande vencedor da noite, que ganhou o Teddy na categoria melhor longa-metragem de ficção, foi In the Name Of, filme polonês dirigido por Malgoska Szumowska. Participante da seleção principal de filmes em competição da Berlinale, o filme aborda o conflito entre homossexualidade e vida religiosa através de Adam, padre católico que atua num pequeno vilarejo polonês, onde coordena igualmente um projeto junto a jovens deliquentes. Eis que, em meio a este contexto, surge Lukasz, um morador da região que coloca em xeque a convicção de Adam acerca de sua vocação. Em seu discurso de agradecimento, a diretora ressaltou seu desejo de que seu filme possa participar na abertura da sociedade polonesa no que diz respeito à homossexualidade. Como cantou Rufus em sua apresentação: Hallelujah!