06/06/2026

Documentários em Berlim confirmam a relevância do gênero em grandes festivais

"Devemos permanecer juntos e, caso morramos, devemos fazê-lo em uníssono"
Tough Bond

Em paralelo ao engajamento político que faz parte de todas as seções nas quais se desdobra o Festival de Berlim, a cada ano o evento reafirma sua vocação como celeiro de excelentes documentários, enriquecidos por debates após a exibição que contam com a presença dos diretores, bem como dos personagens retratados. A edição 2013 não foi exceção.

Se no ano passado Call me Kuchu nos fez mergulhar na opressão vivida pela comunidade homossexual em Uganda (ler texto na cobertura 2012 da Berlinale), em 2013 Born This Way, apresentado na mostra Panorama Dokumente, apresenta as agruras da comunidade LGBT em Camarões, país que detém o triste recorde de ser o que mais prende homossexuais.

Vestir uma roupa considerada inapropriada, por exemplo, pode ser razão suficiente para uma condenação. A intolerância reinante constitui um verdadeiro fardo para os gays e lésbicas, como vemos neste filme dirigido por Shaun Kadlec e Deb Tullmann. A situação só não é mais dramática em função das atividades e do suporte fornecidos pela associação Alternatives-Cameroun, bem como da atuação de Alice Nkom, advogada especializada na luta pela descriminilização da homossexualidade, que não hesita em atravessar o país para intervir em processos e prestar assistência. Esta solidariedade permite aos gays e lésbicas pontuar o dia-a-dia com momentos de descontração e esperança num futuro menos opressor.

Outro documentário sobre a realidade africana, desta vez no Quênia, é certamente um dos melhores apresentados neste festival, Trata-se de Tough Bond, dirigido pelos norte-americanos Anneliese Vandenberg e Austin Peck. Eles percorram o país de norte a sul, acompanhando o abandono e descaso aos quais estão sujeitas as crianças do país, cujo único consolo encontra-se na cola de sapateiro, que elas aspiram para esquecer a fome, a revolta e a falta de perspectivas. Anneliese e Austin mergulharam nesta realidade durante três anos, integrando-se à vida dos quatro personagens abordados durante o filme, resultando num trabalho extremamente competente e sensível.

No debate após a projeção do filme, que faz parte da programação da seção Generation 14plus (que traz filmes com temáticas acerca dos adolescentes), os diretores enfatizaram a importância da longa imersão nesta realidade, tanto para evitar uma abordagem simplista da questão, quanto para criar uma proximidade intimista. É um projeto que vai além do filme em si, através da associação que eles criaram (Village Beat), sem falar no contato ainda mantido com os personagens.

O filme traz uma mensagem que em muito ultrapassa as fronteiras do Quênia e a vida destes quatro jovens ao estabelecer paralelos entre o abandono de valores coletivos no modo de concepção e organização das sociedades modernas e o abandono ao qual os próprios indivíduos se sujeitam.

O conflito entre valores tradicionais e a modernidade é também o mote principal de A Eterna Noite das Doze Luas, documentário colombiano dirigido por Priscila Padilla Farfan. Ela nos leva a Karequishimana, que fica nas montanhas em meio à península caribenha de Guajira. É uma região distante dos centros urbanos, onde vive a comunidade dos Wayuu, para quem o tempo é contabilizado de maneira distinta (um ano é constituído de 12 luas, 365 sóis e 1 chuva) e a vida permeada por costumes ancestrais, como o de isolar as meninas logo após a menarca. Completamente isoladas do convívio social durante um ano (elas somente podem receber as visitas de mulheres próximas da família), é nesse período que elas vão passar da infância à vida madura.

Priscila acompanhou a carismática Pili durante este processo. Apreendemos a construção do casebre em barro que vai ser seu lar ao longo dos meses da reclusão, bem como dos mecanismos sociais que sustentam este costume. Ele representa um segundo nascimento para elas, uma espécie de legitimação social, afinal somente as mulheres submetidas a ele são valorizadas. O grande acerto da diretora foi não enveradar por uma crítica simplista do machismo por detrás desta tradição. A crítica encontra-se lá, mas permeada por uma compreensão mais ampla da questão, bem como da evolução das mentalidades. Pili, por exemplo, vai prosseguir seus estudos durante o isolamento, assim como sua avó vai recusar uma proposta de casamento feita por um homem de um outro vilarejo. É um filme que, mais do que decretar verdades, vai abrir o caminho para o questionamento.

Durante o debate após o filme, a plateia pôde, além de ter o privilégio de apreciar o carisma de Pili, presente em Berlim, saber mais dos interesses econômicos na região que condena os povos indígenas a uma situação de marginalidade (grupos mineradores, por exemplo, compram grandes extensões de territórios por um preço irrisório, aproveitando-se de ilusões que estes povos nutrem acerca do que é a modernidade).

Para finalizar, um filme português que se encontra na fronteira entre ficção e documentário: trata-se do excelente Um Fim do Mundo, primeiro longa-metragem de Pedro Pinho (cujo última curta-metragem, codirigido com Frederico Lobo, foi premiado no Forum Doc de Belo Horizonte em 2009, bem como no DocLisboa 2008). Partindo de um esqueleto ficcional mínimo, Pedro Pinho imergiu durante 3 meses na realidade dos jovens do bairro de Bela Vista, situado no distrito de Setúbal (32 km a sudeste de Lisboa). Ele considera o filme como um projeto coletivo, cujo roteiro é o resultado da interação com os jovens através de um diálogo interessado também em discutir a maneira como isto seria feito e mostrado.

Em cada um dos doze dias que duraram as gravações, Pedro dava indicações básicas ao que seria filmado, pois queria evitar que eles interpretassem. No debate após a segunda projeção do filme, ele disse que disse que houve vários momentos difíceis pois, apesar da relação de cumplicidade estabelecida entre ele e os jovens, estes muitas vezes estavam lidando com áreas à flor da pele da própria existência.

Essas dificuldades, no entanto, não transparecem. O que se vê é uma naturalidade retratada de maneira fluida e sincera, ressaltada pela escolha de Pedro em filmar em preto e branco, assim como pelo enquadramento (muitos planos fechados) que favorece um tom intimista. É um insider’s view sensível e pertinente. Imperdível.

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