O Leão de Ouro foi para a Suécia
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 06/09/2014
- Tempo de leitura 4 minutos

Do júri presidido pelo compositor francês Alexandre Desplat, esperavam-se algumas surpresas, mas afinal saiu-se bem pelo menos nos três prêmios principais. Foi muito justo o Leão de Ouro atribuído ao filme sueco
A Pigeon sat on a Branch Reflecting on Existence
(foto ao lado), em que o diretor Roy Andersson fechou com chave de ouro a trilogia iniciada com Histórias do Segundo Andar
(2000) e Vocês, os Vivos
(2007). Como nos outros dois filmes, ele alinhava histórias, fragmentos, personagens, extraindo da alma deles uma estranha poesia, um humor peculiar e um sentido muito particular e crítico da História, e não só da Suécia.
Muitos poderiam preferir o docudrama russo The Postman's White Nights, em que Andrei Konchalovsky apaga a fronteira entre a ficção e o documentário ao filmar a vida de um grupo de camponeses, moradores de um local isolado no norte da Rússia, bem ao lado de uma estação de lançamento de mísseis. O filme de Konchalovsky é um encanto de ver, temperado de realismo mágico, denso de riqueza humana, com atores não profissionais (exceto por uma atriz) revivendo cenas de sua vida. Sem interpretar nada, como garantiu o diretor, que ficou com um merecido Leão de Prata.
Mas uma das melhores atitudes deste júri foi mesmo dar o importante Grande Prêmio do Júri ao impactante documentário The Look of Silence(foto ao lado), em que o norte-americano Joshua Oppenheimer aproveita material anteriormente filmado na Indonésia - onde fez seu impressionante filme anterior, indicado ao Oscar de documentário, O Ato de Matar - e onde ele hoje já não pode entrar, por ser "persona non grata". Fácil de entender: Oppenheimer é o mais veemente denunciador dos massacres da ditadura militar indonésia nos anos 1970, que custaram a vida de 1 milhão de pessoas, crime nunca punido.
Neste novo filme, o diretor vale-se da eloquente
presença do irmão de uma dessas vítimas, que se coloca diante de vários desses algozes, sem ódio, mas com firmeza, buscando a verdade, uma possibilidade de resgate ou reconciliação, que se mostra impossível.
presença do irmão de uma dessas vítimas, que se coloca diante de vários desses algozes, sem ódio, mas com firmeza, buscando a verdade, uma possibilidade de resgate ou reconciliação, que se mostra impossível.

Patriotada
Não merecia prêmio algum e levou logo os dois de interpretação o concorrente italiano, filmado em Nova York, Hungry Hearts
(foto ao lado), de Saverio Costanzo. O mais estranho, descaradamente patrioteiro, foi para a atriz italiana Alba Rohrwacher, que já concorreu em Veneza várias vezes e merecia ter sido premiada antes, por trabalhos melhores. Esta mãe louca, que quase deixa seu filho bebê morrer de fome, certamente não é um de seus bons momentos.
(foto ao lado), de Saverio Costanzo. O mais estranho, descaradamente patrioteiro, foi para a atriz italiana Alba Rohrwacher, que já concorreu em Veneza várias vezes e merecia ter sido premiada antes, por trabalhos melhores. Esta mãe louca, que quase deixa seu filho bebê morrer de fome, certamente não é um de seus bons momentos.
Além do mais, foi uma injustiça absurda deixar de premiar a veterana protagonista do drama chinês Red Amnesia, a magnética e sutil Lu Zhong.
O norte-americano Adam Driver (Llewyn Davis) ofereceu uma atuação bem melhor em Hungry Hearts, num filme que não era nada bom, de um excesso e exibicionismo tremendos.
Andou melhor a premiação para o ator-revelação, o adolescente francês Romain Paul, que mereceu o Prêmio Marcello Mastroianni como o sensível protagonista do drama de passagem à vida adulta Le Dernier Coup de Marteau, da diretora Alix Delaporte, uma produção que merecia ser lembrada para algum troféu, como roteiro, que acabou ficando para o irregular iraniano Ghesseha, da diretora Rakhshan Banietemad, que enfileira histórias familiares e confrontos de cidadãos comuns com a burocracia estatal.
Outro filme muito irregular, o turco Sivas, do estreante Kaan Müjdeci, levou o Prêmio Especial do Júri. No entanto, ao compor um drama em torno de um menino e um cão, que é explorado num circuito clandestino de lutas - assunto que foi objeto de um curta documental do diretor -, o tema se perde num roteiro frouxo e numa exploração melodramática que, afinal, retira força do que pretende mostrar.
Horizontes
Fora da competição principal, uma das premiações mais precisas foi o Prêmio Especial do Júri da seção Horizontes para um dos melhores documentários da programação, Belluscone - Una Storia Siciliana, de Franco Maresco - este sim um filme italiano a premiar e que denuncia a bestialização da vida política e cultural do país a partir da Palermo natal do cineasta, além de relembrar as relações mafiosas do ex-primeiro ministro Silvio Berlusconi.
