28/09/2026

Documentário "The Look of Silence" ganha força entre os concorrentes


Num dia em que a competição pelo Leão de Ouro teve um concorrente com potencial de atrair atenções, pelo tema inusitado - o francês La Rançon de la Gloire, que ficcionaliza o incrível mas verdadeiro roubo do caixão de Charles Chaplin, em 1977 - foi o documentário The Look of Silence, de Joshua Oppenheimer (The Act of Killing) que ganhou maior visibilidade. Motivos e qualidades não lhe faltam.

Não só Oppenheimer complementa seu potente filme anterior, que foi indicado ao Oscar, como faz novas revelações, usando como guia Adi Rukun, irmão de uma das vítimas do genocídio de 1975, na Indonésia, que custou a vida de 1 milhão de pessoas, numa feroz caçada promovida pelo regime militar contra os supostos ou reais "comunistas".

Adi confronta vários dos implicados neste massacre, inclusive os matadores de seu próprio irmão, assassinado com requintes de crueldade. Nestas conversas, fica claro o quanto estes matadores, que nunca foram punidos, sentem-se muitas vezes até orgulhosos do que fizeram, não hesitando em fornecer detalhes escabrosos - como o de que beberam sangue das vítimas.

Na coletiva do filme, o cineasta informou que realizou este segundo filme em 2012, antes mesmo do lançamento de The Act of Kiling, porque sabia que, depois, "não teria condições seguras de voltar ao país". Após os filmes, o cineasta, que mora na Dinamarca, foi declarado "persona non grata" na Indonésia, que ainda é uma ditadura militar, com grande maioria de população islâmica.

Muitas das pessoas que o ajudaram a realizar o filme, inclusive, são identificadas nos letreiros apenas como "anônimos", dado o risco real de retaliações. Ainda hoje, algozes e vítimas andam lado a lado, nas mesmas comunidades que foram palco das mortes. O próprio Adi, que veio a Veneza, admite que só tem esperança de que o trauma seja superado nas próximas gerações, já que nenhuma reparação se mostra possível.

Caixão de Chaplin
Partindo do sequestro real do caixão de Charles Chaplin, em 1977, na Suíça, a comédia dramática La Rançon de la Gloire, de Xavier Beauvois, inventa um filme que procura homenagear também o próprio Chaplin em mais de um sentido. Por mais que seja abjeta a simples ideia de roubar seu caixão para pedir um resgate, os dois imigrantes que o realizam, o argelino Osman (Roschdy Zem) e o belga Eddy (Benoît Poelvoorde), são tão humanos e, até certo ponto, coitados, que despertam compaixão. O próprio Chaplin certamente os entenderia, como o fez sua viúva, Oona, que nem
quis prestar queixas contra os criminosos, deixando que a polícia suíça o fizesse.

No final, o filme tem sua graça, sua ternura e também ambiciona uma certa poesia chapliniana, especialmente num segmento totalmente ficcional, ambientado num circo, com a participação da atriz Chiara Mastroianni.
Opressão no Irã

Se revela um retrato um tanto sombrio da
condição feminina no Irã e também da impotência dos cidadãos comuns diante da burocracia estatal no drama Ghesseh", sua diretora, Rakhshan Banietemad, não perdeu a oportunidade de comentar, tanto no filme, quanto na coletiva, o alto preço pago pelo povo iraniano diante do embargo sofrido pelo país. No filme, mostram-se situações de desabastecimento de produtos como remédios, o que a diretora assegura ser realidade. "A situação econômica é crítica, devido ao embargo que penaliza o povo iraniano. Sinto dizer isso, mas nao deveríamos pagar este preço com a falta de tantos medicamentos, inclusive para as crianças. Faltam remédios para doenças graves, como o câncer. Quando tomarão consciência, a nível internacional, que as consequências destes embargos caem realmente sobre o povo?", desabafou.

Quanto ao seu filme, apesar de conter críticas ao Estado, ela disse que já tem previsão de estreia no próximo outono. E afirmou que "não teria feito o filme" se não tivesse uma razoável dose de segurança de que seria visto internamente.