29/09/2026

Veneza espana a tradição e mantém vigor de uma seleção variada


A 71ª edição do festival mais antigo do mundo consagra veteranos, como Peter Bogdanovich e Al Pacino, mas não descuida de revelar novidades dentro e fora da Europa. O Brasil tem presença discreta, com um curta de animação na seção Horizontes, Castillo y Armado, de Pedro Harres, e um dos segmentos do filme coletivo Words of Gods, dirigido por Hector Babenco.
Resistindo bravamente à concorrência do Festival de Toronto, que vem logo na sua cola, em setembro, o mais antigo festival do mundo, o Festival de Veneza, abre-se na próxima quarta (28-8) com um filme, Birdman, do mexicano Alejandro González Iñárritu, cujo protagonista, Michael Keaton, vive um esforço radical de transformação de sua imagem.
Keaton, 63 anos, que já foi até Batman, nos filmes de Tim Burton, em 1989 e 1992, vive na tela um papel que tem correspondência total com sua biografia – o personagem também já viveu um super-heroi e luta por um novo tipo de reconhecimento, agora no circuito teatral.


Birdman (foto ao lado), na fila pelo Leão de Ouro, abre alas para uma competição bastante variada e instigante. Terá pela frente concorrentes como Pasolini, uma coprodução entre França, Bélgica e Itália que reconstituio último dia na vida do famoso diretor italiano Pier Paolo Pasolini, assassinado em 1975, num enfoque filtrado pela visão sem dúvida frenética do norte-americano Abel Ferrara, tendo Willem Dafoe no papel principal.
Outro concorrente aguardado é The Cut, novo trabalho do turco-alemão Fatih Akin, que encerra uma trilogia política formada por Contra a Parede (Urso de Ouro em Berlim 04) e Do outro lado (07). Filmado em seis países, reúne histórias de sobreviventes do genocídio turco na Armênia, em 1915, tendo como protagonista o francês Tahar Rahim (O profeta), na pele de um homem mudo que procura duas filhas gêmeas que se perderam dele.
Uma outra trilogia se encerra no candidato A Pidgeon Sat on a Branch Reflecting on Existence, do sueco Roy Andersson, fechando a chave iniciada por Canções do 2º. Andar (2000)e Vocês, os Vivos (2007). O novo filme retrata uma viagem de dois inusitados personagens, um vendedor e um deficiente mental, e incorpora no roteiro traços de romances clássicos, como Don Quixote, de Miguel Cervantes, e Crime e Castigo, de Fiodor Dostoiévsky.


A squadra italiana é de respeito, a começar por Hungry Hearts (foto ao lado), de Saverio Costanzo (Violação de domicílio). Filmado em Nova York, retrata o romance complicado entre Jude (Adam Driver, de Llewyn Davis.., atualmente no elenco de Star Trek: Episode VII) e Mina (a italiana Alba Rohrwacher), num contexto em torno de uma rara desordem alimentar.
Outros dois italianos estão no páreo: a cinebiografia do poeta Giacomo Leopardi Il Giovane Favoloso, de Mario Martone, estrelada pelo ator Elio Germano (Meu irmão é filho único); e um drama sobre a máfia calabresa, Anime Nere, de Francesco Munzi.
O time francês tem entre os quatro concorrentes ao Leão o drama romântico 3 Coeurs, do experiente Benoît Jacquot, escudado num dos melhores trios de atrizes disponíveis: Catherine Deneuve, Chiara Mastroianni e Charlotte Gainbourg.
Outro francês é La rançon de la gloire, de Xavier Beauvois (Homens e deuses), que aborda o mirabolante plano de um “sequestro” do caixão de Charles Chaplin, com a intenção de extorquir sua viúva, Oona. Chiara Mastroianni igualmente integra o elenco, ao lado de Peter Coyote e Nadine Labaki.


Atores em destaque
Há tempos longe de um grande papel digno de seu enorme talento, o astro Al Pacino (O Poderoso Chefão) comparece duplamente na programação veneziana. Na competição, no candidato norte-americano Manglehorn (foto ao lado), de David Gordon Green, em que Pacino interpreta um ex-presidiário recomeçando a vida como um humilde chaveiro numa cidadezinha texana. Fora da competição, o ator também está em The Humbling, do renomado Barry Levinson, adaptando livro de Philip Roth, que retrata a história de um velho que se apaixona por uma jovem mulher (Greta Gerwig, do cult Frances Ha).
Outro que chega em dose dupla a Veneza é Ethan Hawke, estrelando na competição Good Kill, na pele de um piloto de drones no Afeganistão e, na seção paralela Horizontes, Cymbeline, de Michael Almereyda, esta uma potencialmente polêmica adaptação de Hamlet, num cenário de século 21, com motoqueiros e policiais.
Astro da nova geração, o atual Homem-aranha, Andrew Garfield, investe em mostrar uma nova faceta como pai solteiro que luta contra o próprio despejo na produção em competição 99 Homes, do norte-americano de origem iraniana Ramin Bahrani (premiado em Veneza 2008 por Goodbye Solo). O filme de Baharani, aliás, é a primeira investida de Garfield como produtor.

Veteranos em alta
Veneza costuma ter apreço pela história de seus convidados. Coerentemente, a seleção 2014 destaca a volta de vários veteranos. Quatro diretores, em particular, chamam a atenção. Peter Bogdanovich (A última sessão de cinema), que ultimamente tem feito mais TV, retorna com um novo filme, Squirrels to the nuts/She’s Funny that way, contando a história de um diretor da Broadway casado (Owen Wilson) que ajuda uma ex-prostituta que virou atriz (Imogen Poots). No elenco, também Jennifer Aniston, como mulher do protagonista.
No caso do Bogdanovich, há mais uma atração, One Day Since Yesterday: Peter Bogdanovich & The Lost American Film, de Bill Teck, documentário que reconstitui a história de Muito Riso e
Muita Alegria
(81) – comédia romântica de Bogdanovich cuja trajetória tornou-se maldita quando, antes do lançamento, o ex-marido da atriz Dorothy Stratten matou-a, quando ainda ocorria o processo da montagem (a atriz naquele momento era namorada do diretor). Ambos os filmes, de e sobre Bogdanovich, serão exibidos fora de competição.
Outro norte-americano, o diretor Joe Dante, retorna com uma comédia de humor negro, Burying the ex, estrelada por Anton Yelchin, como um jovem que se arrepende de ter ido morar com a namorada (Ashley Greene), especialmente quando ela morre e retorna como zumbi.
E o eterno Manoel de Oliveira, a 4 meses dos 106 anos, manda a Veneza um novo curta O velho do restelo (19 min), mostrando uma “reunião” entre Dom Quixote, o poeta Camões e o escritor Camilo Castelo Branco. Os trabalhos de Oliveira e Dante também serão vistos em seções paralelas.
Em chave completamente diferente, volta à ativa o norte-americano Larry Clark (do polêmico Kids), com mais um drama em torno de jovens: The Smell of Us, ambientado em Paris, com Michael Pitt (Os Sonhadores) e Alex Martin no elenco, fará sua première mundial na Jornada dos Autores.

Especialmente para receber uma merecida homenagem, o troféu Persol Tribute to Visionary Talent, vem a atriz norte-americana Frances McDormand (Fargo) – de quem o festival exibirá, no dia 1º de setembro, a integralidade da série Olive Kitteridge, que estreia na HBO nos EUA em novembro próximo.
Em tempo – dois Leões especiais de carreira serão concedidos a mestres norte-americanos, o documentarista Frederick Wiseman (Domestic Violence, Crazy Horse) e a montadora Thelma Schoonmaker (que editou todos os filmes de Martin Scorsese, desde Touro Indomável, 1980). Uma curiosidade: Thelma nasceu na Argélia e foi criada em Aruba, só se radicando nos EUA a partir da adolescência.

Brasil e outras seções
Mais uma vez, o Brasil tem presença discreta. Hector Babenco dirige um dos segmentos do filme coletivo Words with Gods, fora de competição, e que retrata as ligações das pessoas com as mais diversas religiões. O segmento de Babenco trata da umbanda. Outros diretores deste filme são o mexicano Guillermo Arriaga, o israelense Amos Gitai, o bósnio Emir Kusturica, a indiana Mira Nair, o iraniano Bohman Gohbadi, o japonês Hideo Nakata e o espanhol Álex de la Iglesia, entre outros.
Além disso, um curta, Castillo y Armado, do gaúcho Pedro Harres, representa o Brasil, como integrante da seção Horizontes, o refúgio dos filmes de maior empenho estético e artístico. Trata-se de uma animação, falada num dialeto da fronteira entre Brasil e Uruguai, que retrata o contato de um homem com sua própria violência, a partir de uma linha de anzol.
Também neste programa, o longa italiano Belluscone, uma storia italiana, do diretor siciliano Franco Maresco, revê a figura ridícula e ainda presente na política italiana, Silvio Berlusconi.

Outra seção, a Jornada dos Autores, é inaugurada pelo sul-coreano Kim ki-Duk – que já venceu o Leão de Ouro em 2012 com seu Pietà -, com seu novo trabalho One on one, história de um grupo terrorista e sua ligação com o sequestro e morte de uma menina (o filme está fora da competição desta seção). O mesmo segmento abriga Retour à Ithaque, do francês Laurent Cantet (Palma de Ouro por Entre os muros da escola), em que ele adapta romance do autor cubano Leonardo Padura e tem Jorge Perugorría (Morango e Chocolate) como protagonista deste retrato de uma geração cubana marcada pelo exílio.
O futebol está presente em pelo menos dois títulos da Jornada: o documentário espanhol Messi, dirigido por Álex de la Iglesia (que teve uma première bem restrita no Rio durante a Copa) e biografa o famoso jogador argentino; e também a ficção argentina Os 5 de oficinas, de Adrián Biniez (diretor de Gigante, que ganhou três prêmios em Berlim 2009), sobre um jogador em fim de carreira que sente que precisa assumir novas responsabilidades.
Também na Jornada está Somebody, o novo trabalho da inovadora norte-americana Miranda July (Eu, você e todos nós), parte do projeto Women’s Tales em que mais uma vez a diretora atua, ao lado de Hope Shapiro e Sophie Mann.

Guerra e famílias
As guerras, em vários locais e épocas, são um tema recorrente em vários filmes, dentro e fora da competição. Na competição, Good Kill, do neozelandês Andrew Niccol, trata da guerra moderna, no Afeganistão; também na competição, o drama francês Loin des hommes, de David Oelhoffen, tem Viggo Mortensen como protagonista, na pele de um professor francês que cria uma ligação de amizade com um rebelde argelino (Reda Kateb) em plena guerra da Argélia; e, na Semana da Crítica, o filme palestino Villa Touma, de Suha Arraf (roteirista dos cults A noiva síria e Lemon Tree, dirigidos pelo israelense Eran Riflis), retrata o clima em Ramallah nos primeiros dias da ocupação israelense.
Ainda na Semana da Crítica, uma novidade que entra no radar é a produção francesa Terre Battue, do estreante Stéphane Demoustier, que enfoca uma relação entre pai e filho, estrelado por Olivier Gourmet (o ator-fetiche dos irmãos Dardenne, de O Filho) e Valeria Bruni-Tedeschi. O cenário é o mundo do tênis.