Dia de lembrar Pasolini
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 04/09/2014
- Tempo de leitura 2 minutos
A presença luminosa do cineasta, poeta, roteirista e escritor italiano Pier Paolo Pasolini (1922 - 1975) foi evocada com bem mais sutileza e contenção do que se poderia esperar pelo diretor norte-americano Abel Ferrara em "Pasolini", uma coprodução concorrente ao Leão de Ouro.
Sem incorrer em seus habituais excessos, o frenético diretor de "Bem-vindo a Nova York" escolhe Willem Dafoe como intérprete daquele que foi um verdadeiro pensador, não só do cinema, como de seu tempo, dos quais enxergava os perigos. E, prudentemente, não se arrisca a tentar dar conta de todos os aspectos do artista, limitando-se a recuperar fragmentos das últimas horas de sua vida, encerrada brutalmente, com seu assassinato, em 2 de novembro de 1975, um momento em que a Itália vivia ondas de neofascismo e homofobia.
Mesmo casado com uma italiana (a atriz Giada Colagrande), Dafoe não se arrisca a enunciar mais do que umas frases em italiano. A maioria dos diálogos transcorre em inglês, o que prejudica a credibilidade e a conexão emocional, pelo menos com uma parte da plateia. Por outro lado, acredita-se que o detalhe linguístico ajude na circulação internacional do filme, já que na Itália, como sempre, o filme sairá nas salas dublado.
Deixando de lado este aspecto, há diversas qualidades na produção, como lembrar uma das últimas entrevistas de Pasolini, ao jornalista Furio Colombo, que acabou sendo profética, e, mais ainda, ao encenar um trecho de "Porno-Teo-Colossal", roteiro do que seria, provavelmente, o próximo filme do diretor assassinado.
Esta sequência, com um clima de humor e poesia fellinianos, coloca o ator-fetiche de Pasolini, Nino Davoli, ao lado de Riccardo Scamarcio, interpretando dois personagens em situações de toque surreal, envolvendo a passagem por uma sensual e orgiástica Festa da Fertilidade e também a busca do Paraíso. Originalmente, os dois personagens seriam, segundo o desejo de Pasolini, interpretados pelo dramaturgo Eduardo Di Filippo e pelo próprio Davoli. A não-ralização do filme foi apenas mais uma das imensas perdas decorrntes da morte precoce do cineasta.
Atriz oriental
Finalmente, apareceu um grande papel feminino, com potencial de vencer a Copa Volpi, o prêmio destinado aos atores. Trata-se de Lu Zhong, protagonista do drama chinês "Red Amnesia", de Wang Xiaoshuai, diretor duas vezes premiado em Berlim, em 2001 e 2008.
A atriz interpreta a sra. Deng, uma velha mãe, viúva, tentando ocupar-se de seus dois filhos adultos, já independentes. Sem encontrar muita função em sua vida, ela fica obcecada por telefonemas anônimos de que passa a ser vítima, o que abre um tom surreal na história - que, afinal, como sugere o título, tem um componente político, ligado a velhas culpas relacionadas com a Revolução Cultural.
Agora, falta pouco para encerrar a competição. Somente dois concorrentes ainda não foram exibidos: o russo "The Postman's White Nights", do veterano Andrei Konchalovsky, e o norte-americano "The Good Kill", de Andrw Niccol. A premiação sai no sábado à noite.
