27/09/2026

Documentário italiano "La Trattativa" renova denúncia sobre ligação entre Máfia e política


Mais uma vez no festival, foi um documentário fora de competição, o italiano La Trattativa, da inquieta e engajada Sabina Guzzanti, que trouxe o material mais polêmico e bem construído para discutir os impasses da Itália de hoje, abordando a visceral ligação entre mafiosos e políticos

Mesmo fora de competição, teve direito a horário e sala nobres, a saber, a sessão das 9 da manhã na sala Darsena, o documentário italiano La Trattativa, de Sabina Guzzanti. O seu conteúdo não poderia ser mais explosivo. A diretora, conhecida no Brasil por Viva Zapatero (2005), faz um amplo levantamento das ligações viscerais envolvendo mafiosos e políticos diversos, vivos e mortos, ainda no poder ou já fora dele, incluindo o atual presidente, Giorgio Napolitano, e o ex-ministro Silvio Berlusconi.

Valendo-se de material de arquivo, entrevistas com juízes, procuradores e "pentitos" (mafiosos que colaboraram com a justiça e vivem escondidos), e também hábeis reencenações usando atores, inclusive ela mesma, que costuma interpretar Berlusconi, o documentário se torna mais vivo e envolvente. Em outubro, será lançado nos cinemas talianos e poderá, quem sabe, acelerar processos que se arrastam há longos anos na justiça e já custaram a vida de pelo menos dois juízes, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino.

Não deixa de ser curioso que dois dos melhores filmes italianos da seleção veneziana, La Trattativa e outro documentário, Belluscone, una storia siciliana, de Franco Maresco, estejam fora de competição. Repercutem bem mais do que quase todos os concorrentes nacionais ao Leão de Ouro, exceto a ficção Anime Nere, de Francesco Munzi, que também trata de uma família mafiosa calabresa.

Retrato adolescente
Na competição, andou muito bem o concorrente francês Le Dernier Coup du Marteau, da diretora Alix Delaporte, em que ela delineia com sensibilidade o processo de crescimento de um garoto de 14 anos, Victor (Romain Paul). Ele tem muito com que lidar: uma mãe muito doente (Clotilde Hesme, de Amantes Constantes), um pai que acabou de conhecer, a chance de seguir carreira no futebol. A narrativa flui com seus atores e desenha uma história com a naturalidade da própria vida, como uma espécie de atualização da Nouvelle Vague.

Bem pior foi outro concorrente turco, o drama Sivas, do estreante Kaan Mudjeci, que não sabe o que fazer de seu bom protagonista infantil (Dogan Izci), numa história mal construída, em torno da amizade do menino por um cão de briga, que dá nome ao filme. Faltou dramaturgia e linguagem, tornando o filme uma soma de oportunidades perdidas para abordar violência, inclusive contra animais, ignorância e machismo no interior da Turquia.