06/06/2026

Laís Bodanzky aquece a competição no Cine PE

Recife - Foi nítida a subida da temperatura na competição do Cine PE com a passagem do concorrente paulista As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky – que já estreou em circuito em 16 de abril em outros estados, mas ainda é inédito em Pernambuco. O filme estreia aqui e em outros estados nordestinos no próximo dia 7 de maio.

A sessão deste sincero retrato da adolescência, num contexto urbano e de classe média, nesta quinta, foi muito concorrida e acompanhada com gritos, risos e suspiros – muitos pelo galã Fiuk, que na verdade atuou pela primeira vez neste filme, depois na novela Malhação, que o tornou famoso. No final, seguiram-se aplausos entusiasmados.

Justiça seja feita – a plateia de Recife é habitualmente calorosa e é difícil diferenciar a recepção de um filme do outro só pelas palmas, que não costumam faltar. Em todo caso, é claríssimo que o filme de Laís Bodanzky dialoga com o público de várias idades e acumula qualidades dignas de premiação em todos os quesitos, especialmente em comparação com os competidores apresentados até aqui.

Números no cinema

Falando sobre o público alcançado por As Melhores Coisas do Mundo até aqui – cerca de 154.000 espectadores –, a diretora paulista defendeu que “o cinema brasileiro não pode ficar circunscrito à formulinha do primeiro fim de semana em cartaz”. Invocando o desempenho de seus filmes anteriores, Bicho de Sete Cabeças (visto por 440.000 pessoas) e Chega de Saudade (200.000), Laís comentou que, em geral, seus filmes vão crescendo à medida que permanecem em cartaz.

Ao seu lado, o produtor Fabiano Gullane deu-lhe razão, mencionando números deste novo filme. Destacou que foi visto no primeiro final de semana por quase 60.000 pessoas, número ligeiramente abaixo do esperado – que era 100.000 -, mas, em compensação, devido ao boca a boca positivo, acumulou outros 35.000 num único dia, o feriado de Tiradentes. O boca a boca, segundo ele, foi avaliado pela distribuidora Warner, que colheu 93% de ótimo e bom – mais de 70% de ótimo – numa pesquisa entre espectadores.

Gullane afirmou que pretende esforçar-se para manter o filme em cartaz nos cinemas até julho, acreditando que tem potencial para chegar aos 350.000 ou 400.000 espectadores no Brasil. Também revelou que pretende investir futuramente em seu lançamento em outros países.

Último concorrente

A exibição do último candidato da competição nesta sexta, a ficção carioca Não se Pode Viver sem Amor, de Jorge Durán (Proibido Proibir) vai finalmente completar o quadro. Há uma boa expectativa cercando o novo filme de Durán, um roteirista refinado e premiado e que encara aqui sua terceira experiência como diretor (a partir de uma história coescrita com Dani Patarra).

Cauã Reymond, Simone Spoladore, Ângelo Antônio, Babu Santana e outros estrelam este drama com toque de road movie, em que um menino de 9 anos, Gabriel, viaja com a mãe em busca do pai, no Rio de Janeiro. Eles só têm como referência um velho endereço desatualizado, o que abre a porta para o acaso e encontros com diversas pessoas.

Entre o brega e a poesia

Da seleção dos seis curtas que precederam As Melhores Coisas do Mundo, pelo menos dois circularam no universo brega pernambucano – caso dos documentais Do Morro?, de Mykaela Plotkin e Rafael Figueiredo e Faço de Mim o que Quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena. Por coincidência, um mesmo personagem percorre os dois, como figura principal no primeiro: o fenômeno brega João do Morro, cantor que saiu do circuito da periferia, conquistando seu lugar nos bairros chiques de Recife com suas músicas de letras maliciosas, como Papa Frango e Frentinha, e colecionando polêmicas, a maior delas com o movimento gay.

Numa pegada mais poética e intimista, o curta A Montanha Mágica evocou reminiscências da infância do diretor cearense Petrus Cariry em torno de um parque de diversões de sua infância, com direito a trecho de um raro super-8 gravado por seu pai, o cineasta Rosemberg Cariry. Neste, Petrus é visto com 3 anos, de mãos dadas com o padrinho, o poeta e cantador Patativa do Assaré.

Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro (RJ), mescla o cotidiano de um par de parceiros na vida e na arte, o diretor Gatto Larsen e o bailarino Rubens Barbot, recriando na tela uma performance dos dois, evocando diversas cenas de filmes. Outro tipo de sonho está na base do belo curta Azul, do premiado pernambucano Eric Laurence (Entre Paredes), em que um visual sofisticado contextualiza o imaginário na relação entre uma mãe (Zezita Matos) e seu filho (Irandhir Santos).

Outra ficção, esta paulista, Circuito Interno, de Júlio Martí, desenvolve dramas da vida de imigrantes bolivianos na capital paulista, trabalhadores clandestinos e explorados na indústria têxtil – um fenômeno real de São Paulo e ainda não devidamente retratado no cinema nacional. Na coletiva dos curtas, o diretor Martí contou ter-se baseado em dados de uma CPI de 2005, que fez revelações dramáticas sobre as condições de trabalho, consideradas análogas à escravidão, destes imigrantes sul-americanos.