Foco na periferia de São Paulo
- Por Neusa Barbosa
- 28/04/2010
- Tempo de leitura 4 minutos
Um documentário, Cinema de Guerrilha, de Evaldo Mocarzel (SP), e um filme de ficção, O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Moraes (DF), abriram nesta noite de terça (27) a competição do 14º Cine PE. Ambos dividindo opiniões e para uma plateia relativamente esvaziada, no espaçoso Cine-Teatro Guararapes, em Olinda.
Documentarista caudaloso, Mocarzel trouxe à cena de seu novo filme novamente uma oficina de cinema ministrada na periferia paulistana, desta vez em Sapopemba, na zona leste. Na primeira vez, no documentário inédito em circuito comercial, Jardim Ângela, exibido no Festival de Brasília de 2006, o cenário da oficina era este bairro da zona sul de São Paulo.
Cinema de Guerrilha traduz algumas das preocupações latentes de Mocarzel, da imagem, sua apropriação, sua manipulação – questão presente em outros de seus trabalhos, como À Margem da Imagem (2003). Mas, em seus 72 minutos, que parecem muito mais, o filme não consegue dar conta de seu tema, seguindo monitores de um curso de cinema, como Luciano e Eder, em seu percurso numa Kombi, falando das dificuldades de morar e fazer arte na periferia. Um grupo de alunos do curso também é acompanhado na realização de um filme, que é atrapalhado pelo roubo de uma câmera.
Colado como está na pele de seus personagens, Cinema de Guerrilha não respira. Muita falação, muito barulho, muitos obstáculos se interpõem entre aquilo que o cineasta quer mostrar e aquilo que realmente se faz ver pelos espectadores. Faltam aqueles momentos de reflexão e distanciamento que um documentarista, especialmente, precisa infiltrar em seu confronto com o real, ainda mais um real tão rico de nuances.
Também se devia dar oportunidade a que os personagens do filme se apresentassem mais, refletissem mais, revelando mais de sua humanidade. Faltou conceito ao filme, que parece uma versão provisória de algo que não se concretizou. O mesmo fenômeno, aliás, que afetava o inédito Jardim Ângela.
Cineasta sério, dedicado e generoso, Mocarzel precisa aprofundar mais o tipo de cinema que faz.
Mescla de gêneros
Já apresentado em competição no Festival de Brasília de 2009, O Homem Mau Dorme Bem, de Geraldo Moraes (No Coração dos Deuses) mescla gêneros, drama, comédia, policial, romance e até um pouco de documentário para contar a história de um trio de personagens em torno de um posto de gasolina no interior do Mato Grosso.
A dona do posto é Rita (Simone Iliescu), uma mulher solitária, que é observada por um vagabundo de passado misterioso, Caburé (Luiz Carlos Vasconcelos). A eles e a um pequeno grupo de funcionários locais junta-se o jovem Wesley (Bruno Torres, premiado como melhor coadjuvante em Brasília), vendedor de DVDs piratas que precisa mudar de ares e se instala por ali.
Há um passado de amores truncados, roubo e violência unindo o destino de alguns dos personagens e um dia isso irrompe, forçando Caburé a sair de seu aparente imobilismo. A história assume aí seu lado policial, sendo revelada aos poucos por flashbacks.
Em que pese a inegável sinceridade do diretor e a entrega de seus atores (preparados pelo sutil Sergio Penna), há um certo travo antigo, dramaturgicamente falando, no desenrolar desta história – sem contar que o “disfarce” de Caburé, cuja identidade devia ser um segredo para Rita e o público, não se sustenta em nenhum segundo.
Um detalhe bem cuidado está na trilha sonora, a cargo de André Moraes, que destaca pérolas do cancioneiro dito brega, como A Noite Mais Linda do Mundo, de Odair José, e Eu Preciso de Você, de Márcio Greyk, que foi cantada por parte da platéia do Cine-Teatro Guararapes, ao final da sessão.
Curtas
Na programação de curtas-metragens da noite, foram destaques duas animações, a digital Eu Queria ser um Monstro, de Marão (RJ) e a 35 mm O Divino, de Repente, de Fábio Yamaji (SP). No primeiro, o diretor conta uma história de um menino, de fundo assumidamente autobiográfico, usando bonecos de massinha e stop-motion. No segundo, juntam-se inúmeras técnica artesanais de animação (rotoscopia, pixilation e outras, sem uso de computação) para ilustrar a verve de Ubiraci Crispim de Freitas, cantador de repentes. No filme de Yamaji, só faltou uma coisa: legendas, para que o público pudesse entender todas as palavras dos repentes, cantados no habitual ritmo acelerado.
Corpo Urb, de Mariane Bigio (PE) envereda pelo filme poético experimental, num filme cifrado, hermético e para poucos. Senhoras, de Adriana Vasconcelos (DF), por sua vez, arma um drama denso, retratando a solidão de uma velha mãe (Berta Zemel) e sua filha também já madura (Mallu Moraes) em vista de um acidente.
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