"O Bem Amado" atualiza e apimenta história de Dias Gomes
- Por Neusa Barbosa
- 27/04/2010
- Tempo de leitura 5 minutos
Filme de abertura e hors concours do 14º Cine PE, em Recife, na noite de segunda (26), O Bem Amado, de Guel Arraes, atualiza e também amplia os significados da peça de Dias Gomes, chamada Odorico, O Bem Amado ou Os Mistérios do Amor e da Morte, escrita em 1962, que deu origem à famosa novela (exibida em 1973) e série (exibida entre 1980 e 1984).
Como é verdadeira tradição do festival pernambucano, a plateia acolheu calorosamente a versão de Guel, um filho da terra que foi também homenageado antes da exibição – com direito à presença do sobrinho e governador de Pernambuco, Eduardo Campos - logo depois de uma seleção de curtas particularmente ambiciosos e bem-realizados, particularmente o trio de curtas 35 mm, o paulista Bailão, de Marcelo Caetano, um retrato vívido do surgimento do movimento gay diante da AIDS na capital paulista, nos anos 80; a sátira aos gêneros cinematográficos contida no mineiro O Filme Mais Violento do Mundo, de Gilberto Scarpa (autor do cult e premiado Os Filmes que não Fiz); e o pernambucano Recife Frio, de Kleber Mendonça Filho, alvo de uma verdadeira ovação, e que fantasia uma transformação da capital pernambucana numa cidade gelada, além de investir numa ácida crítica aos rumos arquitetônicos e sociais não só de Recife, mas da maioria das metrópoles latino-americanas.
Nada contra a política
Filho do lendário ex-governador Miguel Arraes, perseguido e exilado pela ditadura militar, o cineasta Guel comentou no debate do filme, no início desta tarde de terça, que vê a história de Dias Gomes como uma “sátira à elite brasileira”. Ele lembrou que, na peça original, o político populista Odorico Paraguaçu era um personagem secundário. “Os personagens principais eram os militares, mas na época em que novela e série foram feitas, na ditadura, eles não poderiam ser retratados como Dias Gomes imaginou”. Na TV celebrizado pela interpretação magnética do ator Paulo Gracindo (morto em 1995), o personagem secundário aderiu, no entanto, à memória popular e será certamente parâmetro de várias comparações que o filme sofrerá em sua estréia, marcada para 23 de julho.
Por conta de ter crescido no exílio, Guel não havia visto a novela. Sua preocupação maior foi atualizar a peça, que retratava um “período efervescente, que está na origem de tudo o que se vive hoje, muito mais do que na ditadura”, assinala.
Para o cineasta, “a esquerda chegou ao poder no Brasil, está na roda para ser criticada também. Mudou aquela perspectiva de ‘coitadinha’ que havia na ditadura”. Nem por isso ele gostaria que seu filme fosse mal interpretado politicamente: “Criticando tanto a direita como a esquerda, tive uma preocupação de não fazer um filme que fosse contra a política. Não concordo com a idéia de algumas pessoas de que a política é uma coisa que não serve para nada, como vocês devem imaginar”.
A preocupação com este aspecto levou Guel a mudar o final do filme, quando já estava pronto – indo contra o que ele mesmo define como sua “agonia com improviso”, já que o diretor é conhecido pelo rigor como planeja milimetricamente suas produções, em que se alinham sucessos como Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro.
O final anterior, que é o mesmo da peça, colocava o político da oposição, Vladimir (Tonico Pereira), que a vida toda combateu ferozmente Odorico Paraguaçu (Marco Nanini), lendo um elogio fúnebre à beira de seu túmulo, que finalmente inaugurava o cemitério superfaturado e até então inútil da cidadezinha de Sucupira.
No novo final, o jovem jornalista Neco Pedreira (Caio Blat) é visto numa reportagem de televisão que inclui imagens reais da campanha pela volta das eleições diretas, em 1984. Para o diretor, esta é sua forma de “responder a esse descrédito com a política, mostrando uma terceira via que a peça não tem”.
Gosto pela farsa
Novo intérprete de Odorico Paraguaçu nesta versão, foi o ator Marco Nanini quem deu o pontapé inicial no projeto ao comprar os direitos da peça, há cerca de quatro anos, chamando depois Guel para a adaptação (este divide os créditos do roteiro com Cláudio Paiva).
Para o ator, seu interesse no papel e na peça são apenas artísticos, já que ele admite que não tem atração pela política em si. “Para mim, isto é uma diversão, é o jogo que me atrai. Talvez eu tenha me sentido dentro do panorama político atual através da ficção”.
Destacando que a peça é uma farsa, Nanini disse não ter procurado inspirar-se na novela ou na série, que conhecia bem. “As referências era importantes como história”, frisou.
Além das trocas de atores, como José Wilker no lugar de Lima Duarte no papel de Zeca Diabo, houve também radicais mudanças de tom nas caracterizações de personagens-chave. Um caso típico é o das irmãs Cajazeiras (que eram Ida Gomes, Dorinha Duval e Dirce Migliaccio), no filme rejuvenescidas e encarnadas de maneira bem mais atrevida pelas atrizes Andréa Beltrão, Zezeh Polessa e Drica Moraes.
Copatrocinado pela TV Globo, o filme terá brevemente uma versão em microssérie de quatro capítulos, que será ainda gravada, celebrando o que a produtora Paula Lavigne descreveu como um novo tipo de acordo nesse tipo de parceria.
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