Sentença de morte no Brasil e na Indonésia
- Por Neusa Barbosa, do Rio
- 14/10/2016
- Tempo de leitura 8 minutos
Rio – Confira algumas das atrações dos últimos dias do Festival do Rio. A programação regular termina no domingo (16), mas vai ter repescagem entre os dias 17 e 19, nos cines Roxy, Reserva Cultural Niteroi, Cine Joia e Ponto Cine. Detalhes no site do festival.

Holocausto Brasileiro
Esta produção para a TV, realizada pelo canal HBO Latin America, resgata a trágica história do hospital Colônia de Barbacena (MG), a partir do livro-reportagem homônimo da jornalista mineira Daniela Arbex – que é codiretora do documentário, ao lado de Armando Mendz. Fundada em 1903, a instituição para doentes mentais tornou-se um dos casos mais monstruosos de segregação e violência contra seus milhares de internados ao longo de décadas, particularmente entre os anos 1930 e 1980, o período mais sombrio. Estima-se que ali tenham morrido cerca de 60.000 pessoas, muitas delas vítimas de abandono, falta de cuidados médicos e pura e simplesmente de fome.
A impressionante história revelada no livro de 2013 vai sendo contada na tela por ex-funcionários e enfermeiras e também por sobreviventes – pessoas que, como ressalta a jornalista e codiretora do filme, “nunca haviam sido ouvidas”. A semelhança com os campos de extermínio nazistas sugerida pelo título do livro e do filme começa já a partir do modo de transporte dos futuros pacientes – eles chegavam por meio de trens, segregados em “vagões de loucos”, e nunca mais saíam do hospital. Na maioria, abandonados pelas próprias famílias (que em geral os colocavam lá), ignorados pela sociedade local, eles permaneciam ali, muitos sem sequer diagnóstico psiquiátrico, jogados em pátios insalubres, não dispondo de alimentação suficiente ou mesmo de água potável.
Esse quadro chocante começou a ser conhecido fora dos muros da instituição pelo trabalho de dois fotógrafos, um deles Luiz Alfredo, da revista Cruzeiro, que em 1961 produziu uma série das precaríssimas e desumanas condições de vida ali dentro. Estas incursões do mundo exterior, além de visitas, como do psiquiatra italiano Franco Basaglia, e outros filmes, como Em nome da razão, de Helvécio Ratton (79), vão levando ao questionamentos dos verdadeiros crimes ali cometidos, levando a uma reformulação da instituição.
Um dos capítulos mais impressionantes foi a existência de um grupo de crianças nesta situação – em sua maioria órfãos ou abandonados, que para lá foram transferidos depois do fechamento de um hospital exclusivo.
Classificação: 16 anos. Duração: 90 min.
Sessões:
Sexta (14), 13h30, CCBB1 – Cine Encontro (sessão seguida de debate com os realizadores)
Sábado (15), 16h, Cine Joia
Quarta (19), 14h, Ponto Cine
A partir de 20 de novembro, o documentário estreia exclusivamente no canal MAX.

Curumim
O documentário de Marcos Prado (Estamira), que teve première mundial no Festival de Berlim, em fevereiro, traça o perfil de Marco “Curumim” Archer, um dos brasileiros executados na Indonésia por tráfico de drogas em 2015. Contando com recursos como uma câmera clandestina – contrabandeada para dentro da prisão pelo próprio Archer -, acompanha-se vários meses de sua vida no cárcere, ao longo dos 11 anos que permaneceu no corredor da morte, permitindo uma rara visão por dentro dessas condições no limite.
O diretor situa seu filme de maneira a evitar julgar seu personagem – que ele conheceu ligeiramente na adolescência, quando Archer era um “menino do rio”, que surfava no píer de Ipanema. Foi, aliás, o próprio Archer quem lhe pediu que fizesse um filme sobre ele, de algum modo pressentindo que não teria saída. Prado o faz com distanciamento, procurando enfatizar quem realmente foi este homem, que nasceu bonito, em família rica e talentoso para esportes (foi professor de asa-delta), mas enveredou por um caminho autodestrutivo, terminando seus dias dividindo uma cela com terroristas islâmicos e assassinos perigosos (alguns dos quais foram poupados da pena capital por terem obtido os meios para corromper as autoridades locais, um fenômeno crônico que o filme explora a partir de diversos depoimentos, como de um italiano que dividiu também a cela com Marco, foi condenado à morte por tráfico mas conseguiu safar-se com a ajuda de sua família para “financiar” sua libertação).
O filme não suaviza aspectos mais polêmicos do personagem, ouvindo também amigos que o conheceram na juventude dourada em Ipanema. De um modo oblíquo, fornece material para uma discussão séria sobre drogas e pena de morte, sem querer ter um discurso pronto nem a palavra final sobre nenhum dos dois temas.
Não há mais sessões previstas no Festival (o filme será exibido na Mostra de SP)

O ornitólogo
Vencedor do prêmio de melhor direção em Locarno, o novo longa do realizador português João Pedro Rodrigues (Morrer como um homem) é um convite a deixar de lado todas as tentativas de classificação e embarcar numa aventura cinematográfica singular – e que, por sua iconoclastia, pode não agradar a muitos.
Um dos motivos é que Rodrigues, em seu roteiro original, incorpora fragmentos da biografia de ninguém menos do que Santo Antônio (nascido em Lisboa e patrono de Portugal), para compor a trajetória de seu protagonista, Fernando (Paul Hamy), o ornitólogo do título, pontuando essa jornada de homoerotismo, um tema recorrente em sua filmografia. E o faz, como de hábito, com grande apuro visual, mais uma vez associado ao diretor de fotografia Rui Poças.
Na primeira parte do filme, contemplativa e semidocumental, assiste-se a Fernando em sua tarefa de observação de pássaros numa floresta, cortada por um rio, que ele percorre também com seu caiaque. Nesta natureza idílica, ele tenta contato, por celular, com um certo Sergio – que o recorda, em mensagens insistentes, que tome sua medicação (cuja função permanece misteriosa até o final do relato).
Um acidente com o caiaque priva Fernando de boa parte de seus equipamentos e quase lhe custa a vida. Aí seu caminho se cruza com o de duas jovens chinesas (Han Wen e Chan Suan), que salvam sua vida. Aparentemente, as duas eram peregrinas do caminho de São Tiago de Compostela que se perderam. Mas sua aparente gentileza se traduz numa emboscada e Fernando acaba acordando totalmente amarrado com cordas e correndo risco de castração.
Ele consegue fugir e recuperar sua roupa e parte de seus equipamentos e erra sozinho pela floresta, já que seu mapa ficou com as duas chinesas. Seu próximo e estranho encontro – que remete um pouco a Luis Buñuel – é com um jovem pastor de ovelhas mudo, que se chama Jesus (Xelo Cagiao), e com quem Fernando viverá outro incidente crucial em seu novo destino.
Num clima fortemente marcado pela corporalidade – especialmente a masculina -, desenha-se um processo de transformação deste personagem, numa gradual passagem da ciência a experiências surreais e místicas, que acarretam inclusive a mudança de nome e ator – sintomaticamente, ele será Antônio, agora interpretado pelo próprio João Pedro Rodrigues (que fez a voz do personagem Fernando, vivido pelo ator francês Hamy), e será visto a caminho de Pádua, como o santo. Mas qualquer referência a religião, no entanto, é profundamente impregnada da vivência física, sensual e transgressora, que é a marca do trabalho de Rodrigues.
Próximas sessões:
Sábado (15), 23h30, Estação Net Botafogo 1.
Segunda (17), 17h, Roxy 3.

O filho eterno
O famoso best-seller de Cristóvão Tezza ganha uma adaptação cinematográfica nas mãos de Paulo Machline, diretor de Natimorto e Trinta. O roteiro, de autoria de Leonardo Levis, simplifica enormemente os dilemas do protagonista, aqui chamado Roberto (Marcos Veras), como o escritor e professor, casado com a jornalista Cláudia (Débora Falabella), que vê a chegada do primeiro filho transformar-se de sonho em pesadelo, quando se detecta que o menino tem síndrome de Down.
A ambiguidade dos sentimentos deste pai, marca da força do livro, não é bem traduzida na tela. A história transforma-se mais num exame de uma crise masculina, centrado um personagem bastante incômodo, desagradável mesmo – e escamoteando bastante a figura da mãe, um tanto linear nesta composição, uma espécie de vítima resignada, conceito que não permite aproveitar o indiscutível talento de Débora Falabella.
O garoto Pedro Vinícius, que interpreta o filho aos 12 anos, certamente, é um encanto e seu carisma e fragilidade são fundamentais para ganhar a empatia da plateia – o que parece ser a aposta do filme, além de tentar dialogar com o grande público investindo no drama e nas lágrimas. Parece pouco para a grandeza do livro.
O filme não tem mais sessões no Festival, mas estreia comercialmente dia 1º de dezembro.
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