Drama premiado em Veneza, "Paraíso" evoca dilemas na II Guerra
- Por Neusa Barbosa, do Rio
- 12/10/2016
- Tempo de leitura 4 minutos
Rio – Dois documentários e o drama vencedor do prêmio de melhor direção em Veneza 2016 estiveram em evidência nesta terça (11):

E a mulher criou Hollywood
Dirigido por Clara e Julia Kuperberg, este documentário francês, que foi exibido em Cannes, resgata os nomes de diversas mulheres que estiveram por trás do nascimento e evolução do cinema norte-americano – que, nos anos 1920, registrou um número nunca igualado depois de mulheres diretoras, produtoras, roteiristas e montadoras.
Fuçando arquivos e entrevistando produtoras, diretoras e roteiristas contemporâneas – como Paula Wagner, descobridora e parceira do astro Tom Cruise –, as diretoras revelam histórias não contadas de pioneiras, não só em Hollywood, aliás.
Assim, descobre-se que a francesa Alice Guy, contemporânea de Georges Meliès, realizou o primeiro filme falado; e a norte-americana Lois Weber, o primeiro colorido. Houve época em que a diretora mais poderosa de Hollywood era Dorothy Arzner.Também brilharam as estrelas de roteiristas como Frances Marion (vencedora de dois Oscar) e produtoras e atrizes como Mary Pickford, uma das fundadoras do estúdio United Artists.
A lista é grande e o filme, bastante informativo, traçando o grande hiato que se deu entre os anos 1940 e 1970 – em que a indústria cinematográfica se estabeleceu como grande negócio, alijando as mulheres de seu protagonismo na fase inicial, em que se abriu como um campo de experimentação em que outsiders, como as mulheres e também os judeus, puderam expressar seu talento sem as restrições que os tolhiam em outras áreas.
Vale muito ver o filme pelas saborosas entrevistas que delineiam sua perspectiva histórica, chegando até os dias atuais, em que a representatividade feminina nos quadros profissionais do cinema segue minoritária, e ao Oscar conquistado tardiamente pela primeira mulher diretora, Katryn Bigelow.
Outras sessões:
Sexta (14), 15h30, Net Botafogo 1.
Domingo (16), 20h15, Cine Joia.

A luta do século
Alguma coisa acontece toda vez que sobem ao ringue os lutadores Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield. Por mais de 20 anos, estes dois gladiadores, o primeiro pernambucano, o outro baiano, mantiveram uma das mais ferozes rivalidades do boxe brasileiro, capazes de manter os dois estados em pé de guerra.
Depois de muitas provocações e acusações mútuas de golpes baixos, agora na faixa dos 50 anos, os dois lutadores conseguem, enfim, dividir o mesmo espaço – material de arquivo mostra que já na pesagem ou na apresentação dos dois na véspera de seus confrontos, não raro, os dois rolavam pelo chão diante das câmeras.
O experiente diretor baiano Sergio Machado compõe um retrato sensível destes lutadores, pontuando suas trajetórias cheias de altos e baixos, abrindo espaço para um perfil humano sutil destes homens e de seus contextos – que passam longe das glórias e dos altos cachês do boxe internacional.
Últimas sessões:
Quarta (12), 14h e 19h, Kinoplex São Luiz 1.

Paraíso
O veterano Andrei Konchalovsky venceu o prêmio de melhor direção em Veneza 2016 por este potente drama de guerra que revisita as memórias de três personagens – com ecos de Rashomon (50), de Akira Kurosawa, já que estrutura seu filme em torno de relatos além-túmulo em que os personagens falam diretamente à câmera, num cenário despojado, como diante de um juiz, um sacerdote ou do próprio Deus.
Eles são Olga (Yulyia Vyotskaya), uma imigrante russa militante da Resistência francesa; Jules (Philippe Duquesne), um chefe de polícia francês e colaboracionista; e Helmut (Christian Clauss), um jovem coronel nazista, encarregado pelo próprio Heinrich Himmler (Victor Sukhorukov) de fiscalizar a corrupção dos comandantes de campos de extermínio.
Presa por esconder crianças judias, Olga é entregue a Jules, mas o manipula para liberá-la em troca de favores sexuais. Um incidente tira Jules de seu caminho e ela é encaminhada a um campo de concentração, onde será descoberta por Helmut, que a conhecera brevemente no passado. Dotado de toda a autoridade, Helmut toma Olga como sua amante – o que não a poupa do horror de continuar ali.
Co-autor do roteiro original, em parceria com Elena Kiseleva, Konchalovsky mantém firme o foco no realismo das condições do campo, bem como das escolhas das pessoas em situações extremas. O “paraíso” de seu título não poderia ser mais grotescamente irônico: refere-se à utopia delirante dos nazistas da criação de um novo homem e um novo mundo, que se mostra embasada em sangue e violência. Ótimos atores, Visotskaya e Clauss encarnam as duas faces deste mundo em desagregação.
Última sessão:
Quinta (13), 16h45, Kinoplex São Luiz 2.
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