Inspirado em caso real, suicídio de jornalista é destaque no Festival do Rio
- Por Neusa Barbosa, do Rio
- 09/10/2016
- Tempo de leitura 5 minutos
Confira duas boasatrações do primeiro final de semana do festival:
Christine
O filme de Antonio Campos explora o tempo e as circunstâncias da personagem, uma repórter de TV, inteligente e talentosa, mas atormentada por distúrbios íntimos que, finalmente, desembocaram no seu suicídio diante das câmeras, em 1974.
A suavidade da atriz Rebecca Hall serve sob medida para sustentar a ambiguidade do universo íntimo de Christine Chubbuck – e este é o papel mais desafiador de sua carreira, não só pela tentativa de recriação de uma pessoa real como por tudo que exige de contenção e implosão das emoções. Toda a rigidez da postura corporal e do rosto de Rebecca traduz essa montanha de palavras não-ditas, de sensações represadas dessa jovem mulher de 29 anos, debatendo-se entre uma desesperada busca de contato e a total incapacidade de mantê-lo, ainda que as pessoas à sua volta a procurem. Ela simplesmente não consegue erguer a ponte que a conectaria mais intimamente a amigos e eventuais amantes.
Então, ela joga tudo no trabalho. É uma repórter batalhadora, dedicada, firme, teimosa, que vive às turras com seu chefe – um duelo que evidencia também o machismo (na emissora de TV as promoções costumam passar longe das moças, ainda mais as determinadas e bocudas como Christine, sempre disposta a confrontar).
Pela riqueza de detalhes com que retrata o ambiente jornalístico, este vira um tema paralelo do filme e que é, até certo ponto, habilmente explorado. Especialmente quando traduz os bastidores das concessões da pauta à busca de audiência, sem contar a demolidora conversa entre Christine e o milionário dono da emissora, que retrata sem rodeios o abismo das intenções de um e outro.
Diretor do prestigiado After School (2008), o norte-americano Antonio Campos insere aqui o mesmo tom distanciado daquele trabalho. Essa opacidade diante de Christine, que não conseguimos decifrar, exceto por sinais esparsos – são sintomáticas suas expressões no teatrinho de marionetes que ela desempenha numa instituição infantil – nos coloca na mesma situação de desconforto vivida por sua mãe, seus colegas mais próximos, e o âncora George (Anthony C. Hall), que tentam ajudá-la sem enxergar realmente o tamanho da dor e incompreensão que têm diante de si.
Sabendo o final da história, o espectador terá tudo para ser acometido de um irresistível sentimento de impotência. Há como um desejo de tocar a personagem, sacudi-la desse mecanismo inexorável que parece devorar seus atos, comprometendo seus melhores esforços. Ela simplesmente não encontra um modo justo de lidar com tudo o que passa em sua cabeça e em seu coração.
Christine, o filme, não aspira a explicar a personagem nem a levar a termos piedade dela. É cirúrgico, quase frio, evitando sentimentalismo. Mas, de algum modo, parece ter levado essa disposição tão longe que deixa escapar a chance de atingir um pouco mais de profundidade e identificação em alguns momentos.
A inserção de trechos jornalísticos que remetem à época da história – o processo de impeachment de Richard Nixon – parece traduzir, mais do que apenas um contexto, uma indagação que é lícito fazer: afinal, o que tinha a ver aquele processo com a devastadora luta de audiência das emissoras em busca do escândalos?
Nesse sentido, a atitude extrema de Christine se aproxima de um hara-kiri de uma pessoa de bem incapaz de conviver com tempos em que toda ética parece ter-se comprometido.
Nesse sentido, a atitude extrema de Christine se aproxima de um hara-kiri de uma pessoa de bem incapaz de conviver com tempos em que toda ética parece ter-se comprometido.
Outras sessões:
Domingo (9), 16h, Cine Joia.
Quarta (12), 15h30, Instituto Moreira Salles.
Quinta (13), 15h10, Reserva Cultural Niteroi 4.
Os amantes e o déspota
Este curioso documentário inglês focaliza uma história mais do que inusitada, envolvendo o cineasta sul-coreano Shin Sang-ok e sua mulher, a atriz Choi Eun-hee. O casal era o mais prestigiado do cinema sul-coreano dos anos 1960, 1970, até seu divórcio, em 1978. Por sua popularidade, foram cobiçados pelo líder da Coreia do Norte, Kim Jong-Il, um cinéfilo que encheu sua mansão de telas de cinema em todos os aposentos e que desejava que seu país tivesse uma indústria cinematográfica comparável à das potências ocidentais.
Assim, o serviço secreto norte-coreano arma um plano de sequestro, trazendo primeiro Choi, depois Shin, aproveitando viagens dos dois, em separado, a Hong-Kong. Transformados em prisioneiros de luxo, eles decidem submeter-se ao plano de Kim, realizando filmes que projetam a indústria local em festivais estrangeiros – em que é igualmente grande a perplexidade causada pela adesão dos dois ao regime fechado do país.
Vigiados todo o tempo, inclusive nestas viagens internacionais, o casal – que se reaproximou neste episódio – planeja sua fuga, levando consigo raros materiais filmados ali e inéditas gravações da voz do ditador Kim, que eram desconhecidas no Ocidente.
As peripécias deste relato verdadeiramente novelesco e estes materiais feitos na Coreia do Norte são os grandes atrativos do documentário de Robert Cannan e Ross Adam, que têm a inteligência de alinhar vários relatos e inclusive destacar que, até hoje, há quem duvide da história dos dois. A vida, não raro, supera a arte, como parece ser o caso.
Outras sessões:
Segunda (10), 13h40, Reserva Cultural Niteroi 4.
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