Cine BH destaca documentário sobre rappers senegaleses que desafiaram o governo
- Por Neusa Barbosa, de Belo Horizonte
- 26/08/2017
- Tempo de leitura 4 minutos

Belo Horizonte –
Dentro da temática do festival, Cinema de Urgência, uma atração de primeira grandeza foi o documentário senegalês A Revolução não Será Televisionada, de Rama Thiaw, vencedor do prêmio da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos) na seção Forum no Festival de Berlim 2016. Um vibrante retrato do ativismo dos rappers do grupo Keur Gui, Kilifeu, Khiat e seu DJ, Ghat, conta como eles, com suas músicas, conseguiram mobilizar milhares de jovens senegaleses contra os abusos do poder desde sua adolescência, culminando em sua perseguição e prisão. Mas o ponto alto de sua militância foi em 2011, quando lideraram, ao lado de jornalistas e intelectuais, o movimento Y’en Marre (Estamos Fartos), contra a mudança constitucional arranjada que permitiu a terceira candidatura do presidente Abdoulaye Wade.

Dirigido pelo estreante Rama Thiaw – que mostra muita proximidade de seus personagens -, o filme acompanha os últimos dias da campanha eleitoral em 2012, quando Kilifeu é mais uma vez preso numa das imensas manifestações de rua que tomaram o país contra a permanência de Wade (que, finalmente, não foi reeleito). Em tempos como os atuais, é muito oportuno conhecer de perto ativistas como estes, tão desapegados de vantagens pessoais – às quais, como fica claro, teriam facilmente acesso – e que igualmente, apesar de céticos com os políticos, não desistiram da política como arma. Prova disso é que, mesmo diante da decepção com o sucessor de Wade, Macky Sall, continuam a pedir que seus fãs se registrem como eleitores e votem. Ou seja, que tornem a política melhor e não a abandonem.
Nada mais simbólico desta continuidade de adesão à política do que a ponte, feita no filme, entre estes novos ativistas e a velha geração militante que lutou pela libertação da África, primeiro do colonialismo europeu, depois de seus tiranos locais, retratando-se um comovido encontro entre o “Leão”, veterano líder de Burkina Faso, companheiro do assassinado Thomas Sankara, e os rappers senegaleses.
Imagens de sonho
Um lado mais radical do cineasta Pierre Léon, homenageado nesta edição do Cine BH, foi mostrado nesta sexta (25), com a exibição de filmes mais exigentes, de sua autoria ou de sua escolha.
Foi o caso de sua obra experimental Phantom Power, uma vertiginosa colagem de imagens e sons disparada por trechos do poema Vendémiaire, de Guillaume Apollinaire. Com participações do próprio Léon e de alunos seus de cursos de cinema, alinham-se trechos com pequenos esquetes dramáticos, alguns documentais (o ensaio de uma cantora, a apresentação de outra), pontuando uma vertigem que encontra paralelo em nossos tempos de informações e sensações fragmentadas, intermediados pela internet.
Um dos segmentos mais interessantes da obra, realizada em 2014, é dedicado a cenas com mãos, colhidas de filmes antigos, como de Fritz Lang em sua série sobre o personagem Mabuse. Mas também há chaves, fechaduras, cartas, joias, fósforos e todo tipo de objetos, compondo uma espécie de antologia visual capaz de fornecer pistas para a magia sensorial a que o cinema consegue dar um sentido, tantas vezes onírico.
Arte por trás da arte
Também não é de tão simples acesso o semidocumentário A Bigger Splash (Um grande mergulho), realizado pelo britânico Jack Hazan em 1974, escolhido como atração para a segunda sessão comentada por Pierre Léon.
O filme retrata processos criativos do pintor inglês David Hockney – o título remete a uma de suas mais conhecidas obras da pop art. Ao mesmo tempo, explora um processo depressivo vivido pelo artista a partir de sua separação de um parceiro, que precipitou uma crise pessoal e artística, afetando não só a dupla mas também seu círculo mais íntimo de amigos.
Esta situação é recriada pelos personagens, evidenciando uma ativa interação deles com o próprio cineasta, que insere a sua marca justamente na forma como atua nesta fusão entre “fatos reais” e “encenação”. Para Pierre Léon, que destacou não saber detalhes dos bastidores desta filmagem, não é importante saber ou não o quanto foi permitido, ou encenado, nesta recriação biográfica de eventos da vida de Hockney. Para Léon, fica claro que, em alguns momentos, há uma quase confrontação entre Hockney, que parece querer expor mais o fim de sua relação com o parceiro do que o cineasta Hazan está disposto a mostrar. Esse é, justamente, um dos aspectos instigantes da obra.
Outra singularidade, a seu ver, é como A Bigger Splash explora a ideia da arte em várias direções, como pintura, fotografia, moda, além das próprias imagens em movimento.
