21/07/2026

Cine BH exibe documentários sobre a emergência atual no Brasil


Belo Horizonte – No primeiro dia da programação normal, dois filmes marcaram, de modo particular, o tema desta 11ª edição do Cine BH, cinema de urgência – dois documentários nacionais. Pela potência de suas imagens, o longa Operações de Garantia da Lei e da Ordem, de Julia Murat e Miguel Antunes Ramos (RJ), e o curta Na Missão, com Kadu, de Aiano Bemfica, Kadu Freitas e Pedro Maia de Brito (MG/PE), na Mostra Contemporânea, transmitiram a impressão de que, mais do que urgência, o país está mergulhado numa emergência.
Apresentado como work in
progress
, Operações de Garantia da Lei e da Ordem mergulha num vendaval de imagens, recolhidas de canais do Youtube e também de noticiários televisivos, tendo como ponto de partida as manifestações de rua de 2013. Seria impossível, evidentemente, que um único filme desse conta de uma realidade tão complexa quanto essa contemporânea no Brasil e sua rápida deterioração nestes últimos quatro anos, levando ao impasse político e econômico de hoje. Entretanto, o filme explora algumas pistas importantes, como a manipulação da violência nas ruas, comprovando a infiltração de provocadores e P2 (policiais à paisana) entre os manifestantes, o que, em última análise, fortaleceu um discurso, apoiado nos meios de comunicação dominantes – especialmente a televisão – que conduziu a um endurecimento na legislação e na repressão policial que colocou em xeque o próprio Estado de Direito.
Ainda carecendo de maior organização, já que se trata de um trabalho ainda não finalizado, essas sequências mostradas no documentário formam um eficiente contraponto
à mídia dominante
- a TV Globo à frente, evidentemente -, explorando os buracos de uma narrativa mobilizadora dos sentimentos da opinião pública que, em última análise, elegeu como alvos para criminalização, entre outros, Sininho, uma das musas das manifestações de 2013 – uma das pessoas chamadas, numa primeira página do jornal O Globo, de “vândalos” -, e políticos como o deputado do PSOL, Marcelo Freixo – a quem se tentou implicar com os responsáveis por detonar o rojão que matou o cinegrafista da TV Bandeirantes, Santiago Andrade – e, em última análise, o governo petista, com Dilma Roussef, colhida por um impeachment para lá de duvidoso.


O poder da mídia
Fazendo uma ponte histórica entre as emergências do passado e do presente, caiu muito bem a exibição, ontem, de um já verdadeiro clássico do documentário, Videogramas de uma Revolução, de Harun Farocki e Andrei Ujica. Realizado em 1992, o filme decupa imagens históricas do desmoronamento do regime de Nicolau Ceausescu, na Romênia, em 1989, quando um movimento de jovens nas ruas derrubou o regime, vigente há quatro décadas, num processo acompanhado por diversas câmeras, demolindo instantaneamente a unilateralidade do que era, até ali, o discurso oficial da televisão do partido único.
Com os manifestantes ocupando a emissora estatal de televisão, a revolução foi, por assim dizer, transmitida em tempo real. Lideranças do movimento popular, militares, líderes dissidentes, intelectuais formaram o comando dos acontecimentos, aparecendo para comunicados na TV que mantinham a população informada das etapas daquele instável momento de transição. É impressionante a atualidade deste documentário não só para a análise de movimentos populares e de regimes decrépitos, que perdem a sintonia com o povo que dizem representar, como a sua análise da relação umbilical entre controle da mídia e exercício de poder.

Ocupação em BH
Apresentado antes de Operações de Garantia da Lei e da Ordem, o curta Na Missão, com Kadu dialogou muito com ele na medida em que retrata uma outra situação de violência policial crônica no Brasil, contra os pobres e os ativistas sem-teto. O curta retrata os últimos meses de vida do ativista e cineasta Ricardo Freitas, o Kadu, uma liderança da ocupação Vitória, em Izidora, Belo Horizonte. Suas imagens mais chocantes são as da repressão, com gás lacrimogêneo, a uma passeata destes moradores da Vitória numa rodovia, sem que os policiais tenham o menor pudor de lançar bombas de gás contra manifestantes desarmados e crianças pequenas – uma delas, no colo de Kadu, mostra sinais de sufocamento e de pânico, manifestando medo de morrer, diante daquela situação.
Esta marcha ocorreu em novembro de 2015. Quatro meses depois, Kadu foi morto numa emboscada.

Sempre Tchecov
Dentro da retrospectiva que homenageia o cineasta e crítico francês Pierre Léon, foi exibido, pela primeira vez no Brasil, seu filme Tio Vânia, uma adaptação da famosa peça do russo Anton Tchecov. Realizado em 1997 e restaurado em 2015, o filme resgata toda a firme delicadeza do dramaturgo em seu retrato da impotência existencial de um grupo de personagens, um professor intelectual e pomposo, sua mulher mais jovem, um médico, a filha de seu primeiro casamento e seu ex-cunhado, o tio Vânia – interpretado por Jean-Claude Biette, ator e diretor que é um intérprete-fetiche da peculiar obra de Léon.
Mantendo um tom despojado, especialmente nas interpretações, o filme mantém o essencial na obra de Tchecov, sintonizando a melancolia exasperante destas pessoas que não conseguem viver a fundo seus afetos nem romper com as relações familiares e sociais que os prendem à terra, à moral e a convenções em que, no fundo, nenhum deles acredita. A obra de Léon foi um belo fecho para um dia de urgências, perfumada pelo humanismo cético de Tchecov, este sim um artista imortal.