Na reta final, "Il Traditore", de Bellocchio, mostra força
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 24/05/2019
- Tempo de leitura 6 minutos
Na reta final de Cannes - os últimos candidatos à Palma, It Must Be Heaven, de Elia Suleiman, e Sybill, de Justine Triet, serão exibidos hoje (24) -, saiu forte a carta do veterano italiano Marco Bellocchio, com o drama de máfia Il Traditore, ou O Traidor - já que se trata de uma coprodução Itália/Brasil, filmada em parte no Rio e com Maria Fernanda Cândido no principal papel feminino.
Aos 79 anos, Bellocchio é um dos últimos, senão o último representante de uma destacadíssima geração do cinema italiano, em que brilharam as estrelas de Federico Fellini, Ettore Scola, Dino Risi, Pier Paolo Pasolini e tantos outros. A obra de Bellocchio, que começa com De Punhos Cerrados (1965), é de marcado cunho político sempre. Ninguém duvide de que O Traidor, que examina a trajetória do ex-mafioso Tommaso Buscetta (Pierfrancesco Favino), é mais um exemplar da série, ao traçar não só um perfil alentado, qualificado, do delator que entregou diversos chefões da Cosa Nostra siciliana nos anos 1980 - o que foi o pilar da operação Mãos Limpas, liderada pelo juiz Giovanni Falcone (Fausto Russo Alesi).
O período carioca de Buscetta, ao lado da terceira mulher, a brasileira Cristina (Maria Fernanda), precede esta delação. Sua viagem ao nosso país já prenuncia o sentimento de que as coisas estão mudando dentro da máfia, em sua complexa estrutura de alianças e traições, que culminam em vingança e assassinatos sangrentos. Tommaso é um sobrevivente porque sabe detetar as mudanças dos ventos a tempo e também por ser hábil em adaptar-se a circunstâncias inóspitas.
Tortura no Brasil
A própria temporada brasileira termina com grande risco pessoal para o mafioso, já que ele é preso pela violenta polícia brasileira e barbaramente torturado - episódio que o filme retrata com total clareza, assim como uma impressionante cena em que a própria Cristina é colocada em perigo mortal, pendurada num helicóptero, para pressionar o marido a confessar suas ligações mafiosas. É depois de sua extradição à Itália que começa sua colaboração com Falcone, que não é imediata. O duelo entre os dois, aliás, é um dos pontos altos do filme.
Cenas de tribunal como estas dos chefões mafiosos delatados são difíceis de ver. Bellocchio capta o seu sentido de espetáculo, com estes capi cada um numa verdadeira jaula, gritando e xingando Buscetta quando este acusa um a um. É engraçado, patético e muito veraz. Uma das roteiristas, Ludovica Rampaldi, destacou que foram gastos dois anos em pesquisas, não só das atas do tribunal como ouvindo-se diversos sobreviventes que conheceram Buscetta.
O produtor brasileiro do filme, Fabiano Gullane, destacou que o filme estreou na Itália ontem (23) - que era aniversário da morte do juiz Falcone - e já havia arrecadado cerca de 110.000 euros. No Brasil, a estreia está prevista para novembro.
Apostas para os atores
Na véspera do anúncio da Palma de Ouro, Il Traditore, portanto, leva chance de alguma premiação, especialmente para Pierfrancesco Favino - que tem como concorrentes mais diretos a um troféu de interpretação o espanhol Antonio Banderas, brilhando em Dor e Glória, e o francês Roschdy Zem, a melhor coisa de um filme insatisfatório, Roubaix, une Lumière, ou o alemão August Diehl, sublime como o resistente camponês anti-Hitler no drama A Hidden Life, de Terrence Malick. E dá para descartar a dupla Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, de Era uma vez em Hollywood, de Quentin Tarantino? Não mesmo. Se houvesse prêmio de elenco, provavelmente deveria ir para o sul-coreano Parasite, a obra-prima de Bong Joon Ho.
Entre as mulheres, Isabelle Huppert é sempre uma aposta forte e ela mostra personalidade em Frankie, o filme-coral de Ira Sachs (EUA). Não
são de modo algum cartas fora do baralho a espanhola Penélope Cruz, também em Dor e Glória, ou a dupla francesa Noémie Merlant e Adèle Haenel do drama de época Portrait d’une Jeune Fille en Feu, de Céline Sciamma.
Voyeurismo explícito
O tunisiano Adbdellatif Kechiche, que já venceu uma Palma de Ouro por Azul é a Cor mais Quente (2013), mais uma vez causou polêmica pelo voyeurismo na filmagem dos corpos femininos e por conta de uma explícita cena de felação em Mektoub My Love: Intermezzo.
e retomando os mesmo personagens, com a adição de uma nova (Marie Bernard), jovens envolvidos entre si numa rede de relações afetivas, de amizade ou sexo.
Quinzena e protestoNa Quinzena dos Realizadores, o filme da estreante Alice Furtado, Sem seu Sangue, na tarde de quinta (23), foi antecedido de um protesto com cartazes em defesa da universidade pública, que está sofrendo cortes e arbitrariedades por parte do governo brasileiro. A equipe do filme, que levou os cartazes, é ligada à Universidade Federal Fluminense.
Trata-se de mais um filme misturando gêneros, começando como um romance adolescente entre Silvia (Luiza Kosovski) e Artur (Juan Paiva) e gradativamente incorporando referências e mudanças de tom que levam ao realismo fantástico e ao terror. Há uma bonita cena de sexo e pelo menos duas de masturbação feminina, todas filmadas com grande delicadeza. A diretora, respondendo a algumas perguntas no final da sessão, como é praxe na Quinzena, destacou: “Não há suficientes histórias do desejo feminino no cinema”.
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