Gramado vai do intimismo ao showbiz popular em noite com filme sobre Sidney Magal
- Por Neusa Barbosa
- 24/09/2020
- Tempo de leitura 6 minutos
A quinta noite competitiva do Festival de Gramado girou do intimismo dos dois curtas Você tem os olhos Tristes (SP ) e Remoinho (PB) e do longa chileno Los Fuertes até a explosão de popularidade e showbiz exposta no documentário brasileiro Me chama que eu vou (foto ao lado e abaixo), que traça o perfil do cantor e ator Sidney Magal.
Não que falte intimismo a várias partes do documentário, assinado por Joana Mariani, até por ter como fio condutor várias conversas com o Magal de cabelos brancos, gorducho aos 70 anos, revendo, com carinho e bom humor, seus 55 anos de carreira. Mas, evidentemente, há generosa exibição de materiais de arquivo retratando os tempos, nos anos 1970, em que ele, com um corpinho de toureiro espanhol e um figurino digno de Elvis Presley, rebolava freneticamente nos palcos, entoando sucessos como Sandra, Rosa Madalena e Meu sangue ferve por você.
Sem medo de ser brega
O documentário aproxima o espectador não só do artista, como de Sidney Magalhães, seu verdadeiro nome, filho único de Sonia, uma cantora que não seguiu carreira a não ser quando o filho se tornou famoso e que era prima de Vinicius de Moraes. E é bastante honesto para explicitar, usando basicamente depoimentos de seu protagonista, a formulação de uma carreira
de sucesso, que dependeu da intervenção de dois empresários de visão, Robert Livi e Max Pierre, e se multiplicou em várias direções ao longo do caminho: de cantor de churrascaria a ídolo das matinês e programas mais populares da televisão, de cantor de tema de novela (Me chama que eu vou, abertura de Rainha da Sucata) a animador de festas de formatura, hoje no ambiente universitário que, no auge de sua fama, torcia o nariz para Magal, chamando-o de “brega” - um adjetivo que ele garante que nunca o incomodou.
de sucesso, que dependeu da intervenção de dois empresários de visão, Robert Livi e Max Pierre, e se multiplicou em várias direções ao longo do caminho: de cantor de churrascaria a ídolo das matinês e programas mais populares da televisão, de cantor de tema de novela (Me chama que eu vou, abertura de Rainha da Sucata) a animador de festas de formatura, hoje no ambiente universitário que, no auge de sua fama, torcia o nariz para Magal, chamando-o de “brega” - um adjetivo que ele garante que nunca o incomodou.
A proximidade com o cantor veio, para a cineasta Joana Mariani, quando ela fez um clipe com ele. O documentário começou a tomar forma cinco anos atrás, quando se completaram 50 anos de carreira e ela filmou depoimentos com diversos artistas que participaram do show de comemoração, como Ney Matogrosso, Alexandre Pires e Rincon Sapiência, entre outros - e que figuram no trailer em circulação, embora tenham sido cortados da edição final.
Como explicou a diretora na coletiva online desta manhã (24), Me chama que eu vou foi muito ampliado em sua proposta depois do show dos 50 anos, até porque ela convenceu Magal de que o documentário não deveria limitar-se a essa celebração. Ela contou com total colaboração do artista e sua família e também com as preciosidades pinçadas do imenso arquivo pessoal de Magal, que ela passou um mês digitalizando.
Essa aproximação com o cantor, de todo modo, renderá também um outro filme, este de ficção, sobre ele e a mulher, Magali, casados há 38 anos. Intitulado Meu sangue ferve por você, o projeto estava em pré-produção quando a pandemia começou. Há alguns atores confirmados, como José Loreto e Luis Miranda, enquanto outros estão sendo escolhidos. A intenção, segundo a diretora e a produtora, Diane Maia, é que as filmagens sejam retomadas assim que as condições de segurança sanitária permitirem.
Dignidade LGBT
Vencedor de um prêmio Teddy no Festival de Berlim 2015 pelo curta San Cristóbal, o diretor chileno Omar Zúñiga retomou os mesmos atores - Antonio Altamirano e Samuel González - para estender este romance entre dois jovens, um pescador, outro arquiteto, no longa Los Fuertes.
Ambientado na cidade de Valdivia, numa paisagem marcada por mar, montanha e fortes do período colonial, o filme se desdobra no despertar desta paixão, durante uma visita do arquiteto Lucas (Samuel González) à irmã, pouco antes de viajar para cursar um mestrado no Canadá. Antonio (Antonio Altamirano) é um pescador que procura estabelecer-se, seguindo os passos do pai que morreu, e tem um caráter mais impulsivo.
Do contraste entre estas personalidades e experiências distintas, o filme extrai uma história de amor em que o diretor e roteirista conta ter procurado “celebrar este romance de uma maneira que não vimos ainda o suficiente no nosso cinema, de duas pessoas que se enamoram, sem que isso esteja marcado pela culpa, o trauma ou a dor, sem pedir desculpas”.
Indagado sobre a homofobia no Chile, Zúñiga destaca que “tem havido passos à frente e atrás. Houve avanços legais mas resiste uma forte homofobia em várias partes do país, com diversos ataques. Há pouco, houve o assassinato de um casal gay dentro de sua própria casa”.
O filme tinha chegado a estrear nos cinemas chilenos, mas isto foi interrompido pela pandemia, levando-o a lançá-lo também em plataformas digitais. De modo geral, segundo o diretor, com boa recepção.
Recuperar perdas
A pandemia impactou também a pós-produção do curta paulista Você tem os olhos tristes, de Diogo Leite, que retrata as agruras e também a reação de um entregador negro de aplicativos, Luan (Daniel Veiga), aos conflitos causados pelo trabalho precário e o racismo - cujos disfarces sociais são revelados de maneira exemplar num jantar com a tia da namorada branca, vivida por Gilda Nomacce.
Remoinho, de Tiago A. Neves (PB) (foto ao lado), que retrata a volta para casa de Maria (Cely Faria), refazendo o caminho de volta de tantos nordestinos, é resultado do projeto Cinema Instantâneo, uma forma de produção barata e guerrilheira, que visa colocar a produção em vários espaços, inclusive escolas. O curta foi filmado em apenas uma diária, segundo o diretor.
Interpretando a mãe da protagonista, a veterana atriz paraibana Zezita Matos (que esteve em Gramado 2019 com Pacarrete) elogiou o projeto Cinema Instantâneo, que ela considera “muito importante neste momento trágico que estamos vivendo no Brasil”. Do alto de seus bem-vividos 79 anos, em seguida, a atriz lançou um veemente brado pela resistência: “São momentos angustiantes, ainda mais para mim, uma atriz de teatro, com os teatros parados. Mas nós vamos recuperar tudo o que perdemos, da Ancine, de tudo”.
Programação desta quinta (24)
20H
MOSTRA COMPETITIVA
CMB Trincheira (AL), de Paulo Silver / 14’40”
CMB O Barco e o rio (AM), de Bernardo Ale Abinader / 17’12”
LMB King Kong en Asunción (PE), de Camilo Cavalcante / 90′
LMB | Longas-Metragens Brasileiros
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, a partir das 20h.
CMB | Curtas-Metragens Brasileiros
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, de acordo com a programação;
Disponível 24h no Canal Brasil Play, o serviço de streaming.
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