Experimentação, repressão política e diversidade marcam quinta noite em Gramado
- Por Neusa Barbosa
- 23/09/2020
- Tempo de leitura 5 minutos
A quinta noite competitiva em Gramado primou pela diversidade, em todos os sentidos. De um lado, pela temática dos curtas Dominique, de Tatiana Issa e Guto Barra (RJ), com uma protagonista transgênero, e Joãosinho da Goméa - o Rei do Candomblé, de Janaina Oliveira Refem e Rodrigo Dutra (RJ), resgatando um personagem mítico, pioneiro na militância contra a intolerância religiosa e sexual na Baixada Fluminense. De outro, pelas bem-vindas diferenças estilísticas e de gênero dos dois longas concorrentes da noite, o experimental Aos Pedaços, em que o mestre Ruy Guerra, aos 89 anos, mostra estarem intactas sua audácia e curiosidade, e o drama político paraguaio Matar a un muerto, de Hugo Giménez, abordando o tema dos mortos e desaparecidos na ditadura de Augusto Stroessner, numa história ambientada em 1978.
Um homem, duas casas

Como de hábito, Ruy Guerra mostra-se sedutor ao relatar, na coletiva online desta manhã (23) - sempre acompanhado de seu inseparável charuto -, as origens da história que acabou se transformando no roteiro de Aos Pedaços, que acompanha a jornada infernal de Eurico (Emílio de Melo), atormentado por suas múltiplas identidades e pela ideia de que as duas mulheres de sua vida, as duas Anas (Simone Spoladore e Christiana Ubach) vão matá-lo.
Tudo começou quase 30 anos atrás, quando Ruy estava em Havana filmando a série Me alquilo para soñar (1992), projeto em parceria com Gabriel García Márquez, e se deparou com uma locação, uma biblioteca. O diretor de fotografia lhe contou que o lugar era uma das casas de um antigo comerciante de tabaco, que morava nas Canárias, mas, apaixonado por uma cubana, construiu na ilha uma outra casa, idêntica à que tinha nas Canárias.
Este rastilho inicial das duas casas alimentou a imaginação de Ruy, finalmente transformadando-se, ao longo dos anos, na ideia de um homem com duas mulheres, obcecado pelo temor de que uma delas o mataria. Apesar de ser, como define, “analfabeto em psicanálise”, ele se interessou depois por um transtorno psicológico recentemente descrito, o transtorno dissociativo de identidade, em que a pessoa chega a ter mentalmente 100 duplos - inclusive animais. Isto definiu a linha-mestra do protagonista e explica porque se verá, num determinado momento do filme, uma lagosta.
Fotografia
A fotografia fortemente contrastada, assinada por Pablo Baião, serve à perfeição para uma história que se passa, em boa parte, na psique do protagonista, e em que nunca fica claro, propositalmente, se é noite ou dia.
Participantes da coletiva online, Emílio de Melo e Simone Spoladore descreveram sua participação nesta história como uma investigação permanente. “Fomos descobrindo o filme e os personagens com o Ruy, que compartilhava suas ideias e nos estimulava a dar nossas visões”, descreveu Emílio.
Falando de seu protagonista, Eurico, o diretor descreveu: “Uma parte da história se passa na cabeça dele, a outra não. Qual delas, não sei. Me interessava mais o processo do que o resultado”.
Produtora do filme, Janaína Diniz Guerra, filha de Ruy e Leila Diniz, lamentou a paralisia de órgãos como a Ancine e o Fundo Setorial do Audiovisual no atual governo, lembrando que Aos Pedaços foi produzido a partir de um edital dedicado a filmes de experimentação. E que seria totalmente inviável neste momento.
Todos os mortos
O sólido e contundente drama paraguaio Matar a un Muerto, na descrição do diretor Hugo Giménez, “conecta com um tempo nefasto, de crimes contra a humanidade. Um trabalho sistemático de nossas ditaduras latinoamericanas”. No caso, o ano é 1978, durante o governo Stroessner, descrevendo-se a situação de dois camponeses, Pastor (Ever Enciso) e Dionísio (Aníbal Ortiz), únicos habitantes de uma ilha remota e cujo sinistro “trabalho” é enterrar corpos de opositores políticos da ditadura, de tempos em tempos despejados em sua praia pelas autoridades.
Isolados de tudo, a não ser pelo rádio, que os informa periodicamente da chegada desses “pacotes” - como são chamados -, Pastor e Dionísio vêem toda esta sua rotina macabra, que eles levam adiante com aparente apatia, ser quebrada quando descobrem que um dos homens jogados (Jorge Román) está vivo.
Todo o dilema ético deflagrado por esta descoberta e as escolhas feitas pelos personagens orientam um filme que reflete um contexto histórico particular, num ambiente claustrofóbico em todos os sentidos, por mais que se esteja ao ar livre.
Tanto o diretor quanto a produtora, Gabriela Sabaté, destacaram, na coletiva online, que o tema da repressão na ditadura Stroessner continua sendo tabu, tanto na sociedade quanto no cinema - já que poucos cineastas locais o abordaram, com exceção lembrada à cineasta Paz Encina (vencedora do prêmio Fipresci em Cannes 2006 com Hamaca Paraguaya). A produtora, aliás, acredita que o Brasil e a Argentina “tocaram estes temas com mais profundidade em seu cinema”.
Um outro tema importante que emerge da narrativa é a discriminação às populações indígenas, por muito tempo impedidas até de falar o idioma guarani - que é ouvido na maior parte do filme. Segundo o ator Ever Encino, “até hoje o idioma é estigmatizado, existe um preconceito. Apesar de o país se dizer bilíngue, um setor da população absolutamente não o fala”.
O festival prossegue hoje à noite com estes filmes na competição:
20H
MOSTRA COMPETITIVA
CMB Remoinho (PB), de Tiago A. Neves / 12’27”
CMB Você tem olhos tristes (SP), de Diogo Leite / 17’50″
LMB Me chama que eu vou (SP), de Joana Mariani / 70’10”
LME Los Fuertes (Chile), de
Omar Zúñiga / 98′
CMB Você tem olhos tristes (SP), de Diogo Leite / 17’50″
LMB Me chama que eu vou (SP), de Joana Mariani / 70’10”
LME Los Fuertes (Chile), de
Omar Zúñiga / 98′
LMB e LME | Longas-Metragens Brasileiros e Estrangeiros
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, a partir das 20h.
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, a partir das 20h.
CMB | Curtas-Metragens Brasileiros
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, de acordo com a programação;
Disponível 24h no Canal Brasil Play, o serviço de streaming.
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, de acordo com a programação;
Disponível 24h no Canal Brasil Play, o serviço de streaming.
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