05/06/2026

Resistência e crises de identidade embalam filmes em Gramado

A crise da reinvenção de identidades deu o tom dos longas da terceira noite competitiva em Gramado, que reuniu o brasileiro Um
Animal Amarelo
(foto ao lado e abaixo), de Felipe Bragança (RJ), e o mexicano Días de Invierno, de Jaiziel Hernández.

Já exibido previamente em festivais internacionais - teve première mundial em Roterdã e passou no Indie Lisboa e San Sebastián - , e coproduzido em parceria com Portugal e Moçambique, Um animal amarelo embarca na inquietação de um aspirante a cineasta, Fernando (Higor Campagnaro) que enfrenta uma herança familiar questionável, a partir de um avô, Sebastião (Herson Capri), desmatador e obcecado pela ideia de enriquecer com a mineração - o típico “empreendedor” da era do neoliberalismo.

Como de hábito na obra de Bragança - que assinou A Alegria (2010 e Não Devore meu Coração (2017), entre outros -, a narrativa é anárquica e povoada de alegorias e metáforas mais ou menos debochadas. E assim o protagonista embarca numa série de aventuras em Moçambique, onde se envolve com um trio de habitantes locais que, literalmente, produzem pedras preciosas a partir de seus corpos - liderados por Catarina (Isabel Zuaa), que empresta sua voz à narração ao longo do filme, ironizando Fernando numa voz em off.

Esta narração onipresente cria um estranhamento, constituindo uma das inúmeras referências a Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, a quem o filme é dedicado nos créditos finais. Sem dúvida, Fernando também é, como Macunaíma, um heroi - ou anti-heroi - sem nenhum caráter, embora lhe falte ter por trás a densidade da obra de Mário de Andrade, que inspirou o filme de 1969.

Ruínas coloniais

Fora a citação a Joaquim Pedro, é evidente que Um animal amarelo tem altas ambições. Na coletiva online desta segunda (21), o diretor e corroteirista Felipe Bragança descreve seu filme desta forma: “É uma falsa genealogia de um autor, de um criador se colocando num lugar de neutralidade, que se mostra impossível. Ele só pode ser atravessado pelas ruínas coloniais do passado, tanto no Brasil, quanto na África, tudo isso embalado por uma rapsódia com muitas camadas e acumulação de vários tempos”.

Bragança acredita que os dilemas de seu protagonista representam, de algum modo, o momento que o País enfrenta hoje. “Vivemos uma crise de processo histórico que abre uma brecha no tempo. A gente se ilude achando que vive num tempo só. Vários tempos convivem em nós, a gente os carrega. Inclusive os futuros possíveis”.

Resultado de um concurso do PRODECINE para filmes culturais, que não mais existe, Um Animal Amarelo contou com uma verba de R$ 2,2 milhões. A ela, foram acrescidos mais US$ 150.000, vindos de um Protocolo Luso-Brasileiro que, igualmente, está inativo. Fatos esses lamentados pelo diretor: “A gente hoje está assistindo ao desmonte de tudo o que funciona”.

Pés no México, olhos nos EUA

O longa mexicano Días de Invierno, por sua vez, lida com outras espécies de mal-estar dentro de um país latino-americano, focalizando o jovem Nestor (Miguel Narro), que sonha em emigrar para os EUA, onde já vivem seus irmãos mais velhos. Um obstáculo é que ele é o único filho vivendo com sua mãe, Lilia (Leticia Huijara), uma viúva de mais de 50 anos, que acaba de perder seu emprego.

Longa de estreia do diretor Jaiziel Hernández, que também é diretor de fotografia, o filme sintoniza de maneira sensível estas expectativas não cumpridas na vida de Nestor, que foi um menino com desempenho escolar excepcional, mas perdeu energia ao amadurecer. Não cursou universidade e hoje sobrevive de um emprego noturno na recepção de um condomínio com serviços hoteleiros. Sua mãe, por sua vez, ao perder o emprego, vê-se confrontada com a própria solidão, mas também irmanada ao sentimento de busca do filho.

Na coletiva online desta segunda, a atriz Leticia Huijara comentou ter ficado muito feliz com este papel por entender que o cinema latino-americano “não dedica atenção suficiente às mulheres maduras”.

Há também algo de pessoal nesta história, tanto para o diretor, quanto para o ator Miguel Narro. Originário do norte do México, Hernández comenta ter sido confrontado sempre com este desejo permanente de emigrar para os EUA, cuja fronteira fica próxima. Miguel Narro, que é da cidade de Santillo, contou que teve que mudar-se para a capital mexicana a fim de poder ter uma carreira, impossível no interior.

Resistência em duas chaves

Nos dois curtas da noite, a temática da resistência emergiu forte. O primeiro deles, o documental Atordoado eu permaneço atento (foto ao lado), dos diretores Henrique Amud e Lucas Rossi dos Santos (RJ), registrou um longo depoimento do jornalista Dermi Azevedo, que colocou em primeiro plano sua militância política e seus enfrentamentos com a ditadura militar - que não só o prendeu e torturou mais de uma vez, numa delas, agredindo com um soco seu filho, Carlos Alexandre, que na época tinha apenas 1 ano e 8 meses. Gravemente traumatizado pelo episódio, Carlos teve inúmeros problemas psicológicos ao longo da vida e suicidou-se, após uma forte depressão, em 2013.

Na coletiva online, o diretor Henrique Amud contou que a entrevista com Azevedo, hoje sofrendo os efeitos do mal de Parkinson, ocorreu no final de 2018, duas semanas após o segundo turno das eleições presidenciais. Sobre o momento atual, Amud comenta: “As coisas estão ficando cada vez piores. O governo propaga mentiras, preconceitos. Infelizmente, tudo o que Dermi diz no filme está cada vez mais presente”.

Entre os próximos projetos, Amud e Rossi anunciam pretender concluir um documentário sobre o ator Grande Otelo, que estão produzindo há sete anos - o que dá bem a medida das dificuldades provocadas pelo desmonte das políticas para a produção cinematográfica..

Numa chave de ficção científica, o outro curta, Blackout, de Rossandra Leone (RJ), retrata a saga de Luana da Silva (Adrielle Vieira), ativista que hackeia os onipresentes sistemas digitais com que o governo, em futuro próximo, controla a vida de todos os cidadãos. Na coletiva, a diretora assumiu uma referência ao curta gaúcho
O dia em que Dorival encarou o guarda, de Jorge Furtado e Jorge Goulart (1986), com uma peculiar diferença no destino desta sua aguerrida protagonista.


A seguir, a programação desta noite (21-9):

20H

MOSTRA COMPETITIVA
CMB Wander VI (DF), de Augusto Borges e Nathalya Brum / 19’56”
CMB Extratos (SP), de Sinai Sganzerla / 08′
LMB O Samba é primo do Jazz (RJ), de Angela Zoé / 70’06″
LME El gran viaje al país pequeño (Uruguai), de Mariana Viñoles / 105’47”
LMB e LME | Longas-Metragens Brasileiros e Estrangeiros
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, a partir das 20h.

CMB | Curtas-Metragens Brasileiros
Única exibição em televisão pelo Canal Brasil, de acordo com a programação;
Disponível 24h no Canal Brasil Play, o serviço de streaming.