05/06/2026

Radiografias da sociedade numa escola brasileira e num incêndio romeno

Prossegue nesta sexta (25) a programação do É Tudo Verdade, apresentando Atravessa a Vida, de João Jardim, um documentário brasileiro que radiografa dilemas da desigualdade social brasileira a partir do microcosmo de uma escola em Sergipe, e o romeno Colectiv, denúncia de uma tragédia de corrupção e descaso em torno do incêndio de uma boate em 2015. Confira os detalhes das sessões abaixo:

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Atravessa a vida
Com Atravessa a vida, o documentarista João Jardim talvez tenha feito uma espécie de continuação de Pro do dia nascer feliz, seu premiado longa de 2005, no qual entrevistou jovens de diversas escolas espalhadas pelo país, explorando assim a realidade sociocultural e o sistema educacional que distancia as classes sociais. Agora, ele se concentra nma única escola em Simão Dias, no interior de Sergipe, onde acompanha por alguns meses o cotidiano de grupos de alunos do 3o ano do ensino médio, preparando-se para o Enem.

O longa começa com a aula de filosofia, de um professor e ex-padre, em que os alunos e alunas discutem as profissões que querem seguir diante das possibilidades de suas condições socioeconômicas. A partir disso, Jardim mergulha no dia-a-dia da escola – alunos e professores muitas vezes desestimulados, uma diretora sobrecarregada – que oferece aulas nos períodos diurno e noturno.

A montagem de Fernanda Rondon transita entre momentos coletivos e individuais, e como cada um deles se relaciona, até culminar no tão aguardado e temido dia do Enem. O documentário faz um retrato de uma parcela da população brasileira num momento de mudança iminente – as eleições presidenciais de 2018 acontecem mais ou menos na metade do filme – e das alarmantes consequências que viriam disso. Como diz uma estudante, ela não poderá fazer faculdade se não passar numa pública ou com o apoio de algum programa de financiamento governamental para pagar uma particular.

Como é comum na obra de Jardim, Atravessa a vida é um filme de observação em que a câmera é pouco intrusiva, mas pontuado por entrevistas de jovens falando sobre suas realidades e como isso influencia na possibilidade de cursar o ensino superior. As histórias que emergem são duras – famílias desfeitas, ausência de diálogo, depressão, tentativas de suicídio, ditadura militar –, revelando um poderoso conteúdo humano. Nesse sentido, destaca-se também o papel das professoras e professores que vai muito além da transmissão de conteúdo didático. Como ouvir em aula de uma aluna que a mãe bate nela quando diz que tem depressão e ficar indiferente a isso?
(Alysson Oliveira).


Atravessa a vida
82 min, 2020

Sessões:

Sexta (25), 21h
Sábado (26), 15h
Debate com equipe do filme: sábado (26), 17h
Para assistir ao filme e ao debate, acesse o site: www.etuverdade.com.br

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Colectiv
O incêndio de uma boate em Bucareste, em 2015, matando 27 jovens e ferindo outros 108, retratado em Colectiv, imediatamente remete os espectadores brasileiros a outra tragédia, ainda de maiores proporções, ocorrida em 2013, em Santa Maria - a da boate Kiss, onde um acontecimento similar custou a vida de 242 pessoas, ferindo outras 680. Nos dois casos, não havia saídas de emergência.

Ao discorrer sobre as inacreditáveis circunstâncias por trás do traumático acontecimento, contando com a colaboração de intrépidos repórteres de um jornal esportivo - o Sports Gazette -, o diretor romeno Alexander Nanau cria um retrato sem retoques de um país cronicamente corrupto, em que estruturas viciadas em hospitais e no Ministério da Saúde produzem negligências, desvios milionários de verbas e uma indiferença chocante com o bem-estar e a vida dos cidadãos. Como diz uma médica no filme: “Nós, médicos, não somos mais humanos”.

O desabafo da médica tem um contexto chocante: ela acaba de denunciar, com imagens difíceis de suportar, mas indispensáveis, que sobreviventes do incêndio têm sua higiene a tal ponto descurada, no único hospital especializado no atendimento de queimados, que estão sendo devorados, literalmente, por vermes. Um deles morre no dia seguinte às denúncias, acrescentando mais uma baixa às vítimas da boate.

Um detalhe chocante, no caso romeno, é que, quatro meses após o incêndio, outras 37 pessoas morreram - o que é a ponta de um escândalo monumental, o da contaminação por bactérias hospitalares, no país que tem os piores índices da Europa neste particular, e que está estreitamente ligado a uma criminosa diluição dos desinfetantes usados nos hospitais.

Utilizando como um de seus personagens um dos poucos herois de uma história cheia de bandidos - o repórter Catalin Tolontan e sua equipe do Sports Gazette -, o filme traça uma reflexão admiravelmente consistente sobre o apodrecimento das instituições locais. Soma-se a Tolontan um novo ministro da saúde, Vlad Voiculescu, parte de um governo-tampão, que sucedeu o governo social-democrata no poder por ocasião do incêndio, que renunciou após a imensa repercussão do caso. Vindo de fora do sistema político, ex-ativista dos direitos dos pacientes com formação na Áustria, o jovem ministro esforça-se, por seis meses, por procurar desarmar as sólidas estruturas corrompidas que mantêm o atual estado de coisas. Não dá para esperar milagres, ainda mais porque, na eleição que se aproxima para eleger o novo governo, o ceticismo afasta a imensa maioria dos eleitores das urnas.

Colectiv resta, assim, como um doloroso grito de impotência perante a indiferença das instituições diante da dor alheia. Que ele possa, como disse a médica, ao menos contribuir para que nos tornemos de novo humanos e a indignação possa produzir mudanças. (Neusa Barbosa)

Colectiv
Romênia, 109 min, 2019
Sessão:
Sexta (25), 18h
Para assistir ao filme, acesse o site: www.etuverdade.com.br