É Tudo Verdade abre sua edição com o premiado filme chileno "A Cordilheira dos Sonhos"
- Por Neusa Barbosa
- 23/09/2020
- Tempo de leitura 3 minutos
Com a exibição hors concours do premiado documentário chileno A Cordilheira dos Sonhos, de Patricio Guzmán, abre-se nesta noite de quarta (23) a 25a edição do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários. A sessão será realizada para convidados, no Belas Artes Drive-In, em São Paulo, com duas opções de visionamento on-line (confira informações no final do texto). A programação do festival desenrola-se entre 24 de setembro a 4 de outubro.
Um dos vencedores do Prêmio Olho de Ouro, no Festival de Cannes 2019, A Cordilheira dos Sonhos fecha a inspirada trilogia do cineasta chileno, iniciada pelos sublimes Nostalgia da Luz (2010) e O Botão de Pérola (2015). Tal como os dois exemplares anteriores, o novo documentário expressa uma emocionada e profunda reflexão sobre a destruição da utopia de um país livre e igualitário,imposta pelo golpe militar de 1973. Basicamente, Guzmán realiza um inventário das ruínas deste sonho, do qual participou ativamente, e cuja luta está registrada em sua famosa série documental A Batalha do Chile (1973-1979).
Talvez ainda mais do que nos dois documentários anteriores, Guzmán se coloca pessoalmente, começando com a confissão de seus sentimentos, quando retorna a Santiago, a cidade onde nasceu e onde deixou de viver há mais de quatro décadas (mora na França) - ele não a reconhece mais. Para lidar com a sensação de estranheza que experimenta quando volta a essa pátria, cujas raízes nunca deixou - como está nítido em toda a sua filmografia - usa, então, do recurso à Cordilheira dos Andes, a imagem mais emblemática do país.
Esse longa parede montanhosa que, como diz um entrevistado, ao mesmo tempo protege e separa o país do resto do mundo cria a metáfora ideal para descrever a singularidade do país, a solidão e a aridez que impregnam sua identidade. Além de suas próprias observações, que assimilam com propriedade história, geografia e biografia pessoal, Guzmán recorre a uma série de alentadas entrevistas, como as dos escultores Francisco Grazítua e Vicente Gajardo, a cantora Javiera Parra (neta de Violeta), o vulcanólogo Álvaro Amigo, o escritor Jorge Baradit - este, autor das mais lúcidas reflexões sobre os efeitos devastadores do fascismo pinochetista, como a desumanização de seus opositores que servia como pretexto para toda sorte de abusos, torturas e desaparecimentos, seguidos de uma reinterpretação mítica desses atos pelos militares, que ele descreve como “banais e asquerosos”.
Um personagem especial dentro do filme é Pablo Salas, que há 37 anos filma obsessivamente a resistência chilena, formando um arquivo pessoal precioso da história deste período e não só - ainda hoje, ele percorre as ruas de Santiago, acompanhando toda sorte de protestos.
Repleto de camadas, o filme é uma lúcida reflexão, encharcada de belas imagens, de momentos intimistas e poéticos, sendo um digno exemplar do estilo único deste realizador, agora com 79 anos.
Serviço
Abertura do 25o É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários
Quarta (23), 20h30
Sessão especial para convidados
Belas Artes Drive-In
Rua Tagipuru, s/no., portão 2
Memorial da América Latina, São Paulo
Sessões on-line
O filme de abertura será exibido on-line às 20h30 desta quarta (23/9) e às 15h desta quinta (24/9). Limite de 1000 visionamentos, em www.etudoverdade.com.br.
Confira outros detalhes e a programação do festival no site: www.etudoverdade.com.br
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