O locutor e o ambulante
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 28/09/2020
- Tempo de leitura 6 minutos
Uma das vozes mais conhecidas do Brasil, o locutor Cid Moreira é perfilado no documentário Boa Noite, de Clarice Saliby. Já no chinês Cidade dos Sonhos, de Weijun Chen, o foco está na luta obstinada de uma família de ambulantes para resistir à remoção de seu quiosque numa rua de Wuhan, em franco processo de gentrificação.
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Boa Noite
É uma voz inconfundível. Mesmo com a tela escura, mesmo se não se conhecesse o tema de Boa noite. Sabemos muito bem quem é, até quando ele apenas faz aquecimento vocal sem vermos seu rosto. Cid Moreira, 93 anos, completados nessa terça (29/09), é uma marca registrada da televisão brasileira, uma voz marcada no imaginário do país e que noticiou praticamente todos os fatos históricos importantes entre 1969 até 1996, estando à frente do Jornal Nacional desde sua estreia.
Sua carreira começou quando, amigo do filho do dono de uma rádio, em 1944 pediu a ele um estágio de contabilidade. Por conta da boa voz, foi levado ao microfone e nunca mais o abandonou. Boa Noite é um filme de nostalgia, no qual o apresentador olha para trás e repassa sua carreira. Sua voz, ao longo do documentário, transita entre o empostamento de locutor (“tem que ser didático”) e uma guarda baixa, quando ele está se abrindo, baixando o tom. Mas logo se lembra que está na frente da câmera, a vaidade vem à tona e até pede para refazer algumas falas.
As notícias, diz ele, nem sempre eram agradáveis, por isso, tentava amenizar, dizendo um “Boa Noite”. Por outro lado, ele também assinala que não podia tomar partido político, por contrato com a Globo. “Eu era apresentador, não era editor”, explica, sua função era apenas ler notícias. A partir daí, o filme relembra episódios como o famoso direito de resposta do então governador do Rio Leonel Brizola, em 1994, por notícias sem fundamento e manipulação de estatísticas eleitorais. “Li sem nenhuma entonação, monocórdia”, confessa, e o filme mostra esse momento na íntegra. Com o fim de sua participação no Jornal Nacional (o último “Boa Noite” está no filme), Cid Moreira conta que foi convidado a gravar a leitura da
Bíblia, o que levou seis anos para fazer na íntegra.
Bíblia, o que levou seis anos para fazer na íntegra.
Vaidoso e saudável, o apresentador conta que não deixa de cuidar do seu corpo – há várias cenas gravadas num spa -, e também cuida de sua imagem no filme. Ele vê algumas cenas prontas, faz sugestões, reclamações. A proposta da diretora, Clarice Saliby, é de um filme que está interessado na história profissional de seu protagonista. Pouco, ou quase nada, se fala de sua vida pessoal – ele menciona, quase de passagem, que teve uma filha que já morreu. Mas, curiosamente, o nome de Sérgio Chapelin, com quem dividiu a bancada por tantos anos, nem é mencionado.
Boa Noite é um relato nostálgico, em certa medida, pela história que conta – dos tempos gloriosos da televisão, que, como diz Cid Moreira, o Jornal Nacional chegava a dar 80% de audiência, quando não havia TV a cabo, internet – e pelo tom que o próprio biografado assume em sua narração. É um documentário carinhoso com o que está contando, mas que corre poucos riscos. (Alysson Oliveira)
Boa Noite
73 min, 2019
Sessões:
Terça (29), 21h
Quarta (30), 15h
Debate com a equipe, com mediação de Sergio Rizzo: quarta (30), 17h
Para assistir ao filme e ao debate, acesse o site:
www.etuverdade.com.br
www.etuverdade.com.br
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Cidade dos Sonhos
Bem antes de tornar-se o foco inicial da Covid-19, entre 2014 e 2015, Wuhan, na China,
esteve empenhada em tornar-se uma cidade-modelo. A proposta governamental colide, no entanto, com uma pequena família de ambulantes. Liderado pelo indomável Wang Tiancheng, 70 anos, o clã transforma-se na pedra no sapato do Departamento de Administração Urbana, revelando uma resistência que coloca um sério obstáculo ao plano de gentrificação numa das ruas do centro.
esteve empenhada em tornar-se uma cidade-modelo. A proposta governamental colide, no entanto, com uma pequena família de ambulantes. Liderado pelo indomável Wang Tiancheng, 70 anos, o clã transforma-se na pedra no sapato do Departamento de Administração Urbana, revelando uma resistência que coloca um sério obstáculo ao plano de gentrificação numa das ruas do centro.
O conflito de interesses entre a burocracia e a família, dona de um quiosque irregular na rua, torna-se o epicentro deste documentário, assinado por Weijun Chen. A própria história da China, a transição do comunismo ao capitalismo de estado, a migração do campo à cidade, a modernização que não contempla todos os afetados, atravessam os capítulos deste episódio, aparentemente corriqueiro, mas que em alguns momentos se revela exasperante, quase heroico, em outros farsesco, devido à obstinação do velho Wang contra os fiscais que procuram convencê-lo a sair - e não escapa à observação que Wang, que chega a atingir mesmo a câmera do filme, tem algo de performático em seu comportamento, incluindo estapear os fiscais, jogar suas frutas no chão e encenar tentativas de suicídio.
Nada disso impede que o filme desvele outras camadas, investigando as razões e emoções de ambos os lados. O cineasta compartilha das reuniões da administração local, em que se busca uma solução para o impasse que já dura algum tempo - sem que em momento algum se recorra à violência, seja ou não por conta da presença da câmera. Da mesma forma que retrata a tensão dos funcionários municipais diante do conflito, o filme mostra a intimidade da família de ambulantes, com cenas que denotam sua fragilidade econômica e o objetivo maior de sua resistência - permitir que a garota, neta de Tiancheng, excelente aluna, conclua seus estudos e possa sonhar com uma universidade.
O diretor mostra inteligência e ambição também ao retratar uma outra barraca, em que jovens falam dos ideais do comunismo e distribuem folhetos a respeito. Não deixa de ser um momento de reflexão sobre o tipo de sociedade que se está construindo, confrontando a uniformidade dos manuais com a realidade complexa, em que pequenos, fracos e despossuídos resistem a uma engrenagem esmagadora, obstinada por uma determinada ideia de progresso. (Neusa Barbosa)
Cidade dos Sonhos
102 min, 2019
Sessão:
Terça (29), 18h
Para assistir ao filme, acesse: www.etudoverdade.com.br
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