Do retrato de um mestre cubano a reflexões sobre revoluções na Polônia e no Irã
- Por Neusa Barbosa e Alysson Oliveira
- 02/10/2020
- Tempo de leitura 10 minutos
Neste último dia da progamação nornal do É Tudo Verdade, uma exibição especial do documentário Santiago das Américas ou O Olho do Terceiro Mundo, destacando o mestre do documentário cubano Santiago Álvarez. Na Competição Brasileira, Segredos de Putumayo resgata a figura do irlandês Roger Casement e suas denúncias sobre exploração indígena na América do Sul no início do século XX. Na Competição Internacional, os dois últimos concorrentes, a produção canadense/sul-africana Influência, sobre o poder sinistro das empresas de consultoria de imagem, e a alemã-polonesa-suíça O Rei Nu, que compara a derrocada de processos revolucionários na Polônia e no Irã dos anos 1970.
A cerimônia de premiação do festival tem início às
18h deste domingo, dia 4 de outubro,
pela
plataforma do festival, com transmissão simultânea na
página do
YouTube do É Tudo Verdade. A seguir, acontece a
première no continente americano de
Wim Wenders, Desperado, documentário
de Eric Fiedler e Andreas “Campino” Frege .
18h deste domingo, dia 4 de outubro,
pela
plataforma do festival, com transmissão simultânea na
página do
YouTube do É Tudo Verdade. A seguir, acontece a
première no continente americano de
Wim Wenders, Desperado, documentário
de Eric Fiedler e Andreas “Campino” Frege .
Exibição especial 25 Anos
Santiago das Américas ou O Olho do Terceiro Mundo
Com este documentário que revisita a história de Cuba e seu cinema, o cineasta brasileiro Silvio Tendler traça a cinebiografia de Santiago Álvarez (1919-1998), mestre do documentário da ilha e um dos fundadores do ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos).
Munindo-se de seu extenso conhecimento do personagem, a quem encontrou pela primeira vez em 1973, recuperando um filme que rodara sobre ele em 1988 e tesouros dos arquivos do ICAIC, Tendler compartilha imagens icônicas do século passado e do trabalho de Álvarez, inclusive várias das que alimentaram o célebre Cinejornal do ICAIC - em que despontam Kim Phuc, a menina queimada pelo Napalm no Vietnã, que buscou tratamento médico em Cuba; o astronauta soviético Yuri Gagárin, numa visita à ilha em 1961; os cineastas europeus que ali foram dar cursos, como Jean-Luc Godard, Chris Marker, Agnès Varda, Michelangelo Antonioni e Joris Ivens; sem contar reportagens externas, como no Vietnã.
O documentário de Tendler, aliás, deixa bem claro desde o início que não pretende ser imparcial. É decididamente engajado e apaixonado pela realidade cubana, que o cineasta conheceu em suas viagens e trabalho ali.
Assim, de várias maneiras, o filme fornece um contraponto à imagem da própria Cuba, não raro opondo-se a uma outra, difundida na grande mídia e contaminada, não raro por clichês antiesquerdistas. Tendler também não teme usar imagens danificadas para dar conta do retrato que pretende montar de Álvarez, um gigante do cinema latino-americano cuja importância é fundamental reafirmar. (Neusa Barbosa)
Santiago das Américas ou O Olho do Terceiro Mundo
93 min, 2019
Sessão única: sábado (3), 11h
Para assistir ao filme, acesse: www.etudoverdade.com.br
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Segredos de Putumayo
Logo em sua abertura, o documentário Segredos do Putumayo se impõe em imagens e sons fortes, reconstituindo brevemente a trajetória do irlandês Roger Casement no Congo. Cônsul do Reino Unido por duas décadas antes de vir para o Brasil, em 1910,
instalou-se na região do Putumayo, na Amazônia peruana, onde escreveu um diário, conforme dito no letreiro do filme, “perturbador”. A partir desses escritos polêmicos, o documentário reconstitui sua estadia no continente e, mais do que isso, sua visão de mundo.
instalou-se na região do Putumayo, na Amazônia peruana, onde escreveu um diário, conforme dito no letreiro do filme, “perturbador”. A partir desses escritos polêmicos, o documentário reconstitui sua estadia no continente e, mais do que isso, sua visão de mundo.
O diretor do documentário, Aurélio Michiles, cria uma narrativa que intercala escritos de Casament, tirados de seu Blue Book, com depoimentos contemporâneos, organizando uma estrutura em que o presente reflete o passado e a montagem, assinada por André Finotti, estabelece uma relação dialética entre o que aconteceu e o que foi feito, especialmente com os povos indígenas da região.
O escritor manauense Milton Hatoum conta que a viagem de Casement escapou dos clichês, pois “ele via os africanos e índios como parte de uma humanidade à qual ele pertencia como irlandês; olhando o outro sem distanciamento, o que ele viu foi o horror em Putumayo”. Isso fica claro os comentários do irlandês – narrados pelo ator Stephen Rea – , nos quais mostra-se horrorizado com os maus-tratos contra os nativos e as nativas na produção da borracha.
Os episódios de exploração que ele mesmo presenciou em Putumayo despertaram-lhe reações extremas, chegando a dizer que o tratamento contra os indígenas era ainda pior do que o recebido pelos escravos da África. A certa altura, escreve em seu diário: “Cheguei à conclusão de que o único jeito desses indígenas do Putumayo saírem dessa condição miserável a que foram reduzidos é fazer uma insurreição armada contra esses senhores. Adoraria armá-los, treiná-los e instruí-los a se defenderem contra esses bandidos [os produtores de borracha].”
Ser exposto a esses horrores da exploração e violência colonial mudou Casement drasticamente, levando-o a sofrer aquilo que o historiador irlandês Angus Mitchell define como uma “longa e profunda metamorfose em um revolucionário”. Quando sai da Amazônia, produz um relatório sobre o que viu lá, provocando uma grande mudança na forma de exploração da borracha na região. Ele, por usa vez, usou-o para expor “a violência, as injustiças e a desumanidade cometidos pelo capitalismo britânico”. E isso, ainda de acordo com Mitchell, “foi um golpe de mestre para minar a reputação do Império Britânico.”
Brasil, como lembrou Casement em uma palestra em Belém, é uma palavra de origem irlandesa e refere-se a uma ilha mítica chamada Hy-Brazil, uma lenda que servia para encorajar marinheiros a irem para o oeste. A experiência do irlandês na Amazônia foi tão transformadora que ele levou esse novo ímpeto revolucionário para seu país quando voltou, resultando em sua prisão e condenação por traição.
A vida de Casament, morto por enforcamento em 1916, poderia ser mais um exemplo de aventura colonial, não fosse o despertar de sua conscientização social e histórica – um movimento que o filme captura muito bem. O diálogo entre o passado, a trajetória do irlandês, e o presente, a situação dos povos indígenas de Putumayo (não apenas a deles, obviamente, mas de todos povos nativos da América do Sul), faz deste um filme uma denúncia, que joga uma luz sobre uma situação que parece se perpetuar. (Alysson Oliveira)
Segredos de Putumayo
83 min, 2020
Sessões:
Sábado (30, 21h
Domingo (4), 15h
Debate do filme: domingo (4), 17h, com participação do diretor Aurélio Michiles e mediação do jornalista e professor Sergio Rizzo
Para assistir ao filme e ao debate, acesse: www.etudoverdade.com.br
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
O Rei Nu
O cineasta Andreas Hoessli compõe um complexo paralelo entre um trecho da própria biografia, que se entrelaça com a eclosão de duas revoluções simultâneas, na Polônia e no Irã, no final da década de 1970. Através da própria vivência e do contato com o escritor e jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que foi ao Irã cobrir a Revolução de 1979, o cineasta traça comparações entre o que ocorria naquele momento no país asiático, com a queda do xá Reza Pahlevi e a volta do aiatolá Khomeini, e também a revolta dos trabalhadores do sindicato Solidariedade, que em 1980 sacudiram o controle monolítico do Partido Comunista Polonês.
Recorrendo a entrevistas e farto material de arquivo, Hoessli elabora uma reflexão um tanto cética sobre as deformações que dominaram o processo de mudanças deflagrado nos dois países, por motivos bem distintos, mas com resultados igualmente desastrosos – no Irã, com a instalação de um regime fundamentalista e igualmente repressivo das liberdades tanto quanto o do xá, e na Polônia, suprimindo o Solidariedade e o acordo de 1980 que trouxera reformas democráticas, destroçadas com a decretação da lei marcial, de dezembro de 1981.
Com uma composição sólida, sempre intercalada com a curiosa história pessoal de Hoessli – que vem fazer seu doutorado na Polônia em 1978 e vira alvo do serviço secreto local -, o filme desdobra muitas camadas de reflexão política, sem dúvida, tremendamente relevantes em tempos em que é preciso estudar o refluxo do autoritarismo. (Neusa Barbosa)
O Rei Nu
108 min, 2019
Sessão:
Sábado (3), 13h
Para assistir ao filme, acesse: www.etudoverdade.com.br
Influência
O documentário, assinado por Richard Poplak e Diana Neille, debruça-se sobre um dos temas cruciais de nossa época, a fabricação da imagem e das fake news, resgatando suas origens na ascensão e queda da Bell Pottinger, uma das empresas de relações públicas mais poderosas do mundo, cujo fundador, lorde Tim Bell, esteve por trás da criação do fenômeno Margaret Thatcher.
Aplicando à campanha de Thatcher técnicas que aprendera na propaganda – trabalhando na prestigiosa firma Saatchi & Saatchi -, Bell rapidamente tornou-se não só um consultor político como membro de uma elite do poder, já que entre seus clientes figuraram partidos e políticos, de Augusto Pinochet ao Congresso Nacional Africano.
Contando como espinha dorsal com uma densa entrevista com o próprio Bell, depois da queda da empresa, num escândalo envolvendo o governo sul-africano, em 2018, o filme faz bom uso de materiais de arquivo e entrevistas com concorrentes de Bell e outros personagens essenciais, analisando o fenômeno. Forma, assim, um amplo mosaico que permite avançar um pouco mais na compreensão dos mecanismos usados por essas empresas para manipular a opinião pública em várias direções. Steve Bannon não nasceu do nada, a prova está neste documentário inquietante e necessário. (Neusa Barbosa)
Influência
105 min, 2020
Sessão:
Sábado (3), 18h
Para assistir ao filme, acesse: wwwetudoverdade.com.br
Relacionadas
O locutor e o ambulante
- 28/09/2020
Um olho na música, outro na política
- 25/09/2020
