Documentário tematiza a invisibilidade social dos presidiários no Brasil
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 09/12/2020
- Tempo de leitura 3 minutos
Documentarista experimentado em temas difíceis - como os que retratou em Menino 23 e Soldados do Araguaia -, Belisario Franca explora os caminhos que unem as vidas de presidiários no Pará, fé e esperança de redenção no documentário Nazinha, olhai por nós, na competição ibero-americana no Cine Ceará.
“Nazinha”, para quem não sabe, é Nossa Senhora de Nazaré, como é carinhosamente chamada pelos milhares de fieis que se aglomeram anualmente na grande festa do Círio de Nazaré, em Belém, em outubro. Inclusive, vários presos e presas pedem autorizações para saídas temporárias para participar desta que é uma das maiores festas populares católicas do Brasil.
O documentarista elege alguns personagens, detentas do Presídio Feminino de Ananindeua ou presos da Colônia Penal Santa Isabel, para traçar retratos destas vidas passadas, em parte, atrás das grades, investigando os rumos tortuosos que os trouxeram ali.
Duas mulheres estão na prisão a partir de suas ligações amorosas. Caso de Neuza, condenada como mandante do assassinato do amante, ou Raissa, moça que troca a família e o emprego por um perigoso namoro com um traficante. Os dois presos homens, Julio e Everaldo, passaram boa parte de sua vida na prisão, o primeiro por diversos assaltos a bancos e homicídio, o segundo, por envolvimento com o tráfico.
Exercendo a escuta
Belisario Franca ouve cada uma dessas pessoas com atenção, evitando reduzi-las aos crimes pelos quais foram sentenciadas, assim como exercendo qualquer julgamento. Aproxima-se dessa realidade precária dos presídios brasileiros, que abrigam a terceira população carcerária do mundo, 812.000 pessoas, com 40% desses detentos presos antes do julgamento e aguardando sentenças. Antes da redenção, que muitos procuram na religião e na catarse de cerimônias como as do Círio, o que estes presos parecem precisar é de uma escuta que coloque suas eventuais faltas ou crimes na sua devida proporção - e seu perfil social, cultural e racial fala por si sobre as desigualdades da sociedade brasileira.
William Ramos, advogado de Neuza, ressalta que, em julgamentos de pessoas como ela, pobres e negras, é muito comum uma inconsistência de provas semelhante ao caso dela. Até mesmo a diretora do presídio de Ananindeua, Carmem Botelho, acha que “a sociedade não quer justiça, quer vingança”. Sem que tenha sido esta sua intenção à partida, Nazinha, olhai por nós termina sendo um termômetro desta complexa situação carcerária do país, a partir de uma amostra singular, e um testemunho contra a invisibilidade social.
Drama anticolonialista
O premiado Blanco en Blanco (Branco no Branco), de Théo Court, faz nesta noite de quarta (9) sua estreia brasileira, na competição do Cine Ceará, às 20h, no Cineteatro São Luiz, e também online no streaming do Canal Brasil (Canais Globo). A coprodução Chile-Espanha-França-Alemanha foi premiada nos festivais de Veneza, Toulouse, Havana, de Minsk, na Bielorrússia, no Cine Latino Film Festival, na França, e no Festival de Lima.
Filmado em sua maior parte no inverno, na Terra do Fogo, com enredo ambientado em torno de 1900, o filme narra os dilemas de um fotógrafo, Pedro (Alfredo Castro). Encarregado de fotografar o casamento de um rico proprietário, Pedro acaba tornando-se testemunha de acontecimentos dramáticos, envolvendo a predatória e genocida ocupação colonialista da América do Sul.
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