24/09/2026

Retrato familiar argentino e distopia brasileira no Cine Ceará

Dois longas de diretores estreantes dividiram as atenções na segunda noite competitiva do Cine Ceará, o argentino Las Buenas Intenciones, de Ana García Blaya, premiado em Havana e San Sebastián, e o brasileiro Última Cidade, do diretor cearense Victor Furtado.

Ana García Blaya remexe no baú das memórias familiares para compor um filme que também as reinventa, mas é claramente autobiográfico. A protagonista de Las Buenas Intenciones é uma garota de 11 anos, Amanda (Amanda Minujin), a mais velha de três irmãos, Laura (Carmela Minujin) e Manu (Ezequiel Fontenla), filhos de pais separados que dividem a guarda e têm personalidades opostas.

A mãe, Cecilia (Jazmín Stuart), é controladora, o extremo oposto do pai, Gustavo (Javier Drolas), sonhador e alternativo. Quando estão com ele, Amanda toma a frente de várias situações, já que o pai não consegue organizar minimamente seu cotidiano. Ex-músico, ele tem uma loja de discos retrô, cuja administração, na verdade, é tocada por seu irmão, Nestor (Sebastián Arzeno).

Felizmente, não se pretende fazer um julgamento destes homens, ou de Cecília. Toma-se o ponto de vista das crianças, particularmente Amanda, o alter ego da diretora, mostrando o quanto estas diferentes visões de mundo, na verdade, nutriram sua personalidade. Porque o pai não é apenas irresponsável - ele é afetuoso, iconoclasta, rebelde, e tudo isto leva os filhos ao encontro de pessoas e assuntos que eles não teriam descoberto sem seu intermédio.
É notável que, até quase a metade do filme, fiquemos com as crianças e o pai, apenas. Só daí em diante aparece a oportunidade de confrontarmos a visão de Cecília e entender um pouco a sua parte - afinal, ficam para ela todas as responsabilidades que Gustavo não assume.

Vídeos caseiros e música
A música é um elemento essencial na história, já que o personagem inspirador do filme, o pai da diretora, Javier Blaya, que morreu em 2015, tinha realmente uma banda e uma loja de discos. Desfilam na trilha algumas pérolas do pop argentino dos anos 1990, época da história, resgatadas por Pablo García Blaya, irmão da diretora e responsável pela trilha, que também inclui canções originais.

Vídeos caseiros, em parte autênticos, filmados por Javier Blaya, em parte, reconstituídos com visual parecido hoje, são parte importante da narrativa, que acompanha a mistura um tanto caótica dessas lembranças que se carregam desde a infância - e que determinam o visual misturado e retrô.

Os anos 1990, no entanto, foram dramáticos na Argentina, especialmente em termos de derrocada econômica. Isto é fundamental na decisão de Cecília de partir, com o novo marido, Guile (Juan Minujín), e os filhos, para um novo trabalho em Assunção, Paraguai. Essa ameaça de ruptura da convivência familiar com o pai define a outra parte do filme, em que cresce a importância de Amanda - uma personagem que tem, claramente, que tomar por si mesma decisões difíceis demais para sua pouca idade e que é interpretada com um carisma e naturalidade especiais pela estreante Amanda Minujín, que foi descoberta pela diretora no
Instagram, num vídeo em que ela cantava com o pai.

Referências
Já o longa brasileiro Última Cidade, de Victor Furtado, bebe em várias referências, embaralha gêneros a partir de dois personagens, João (Julio Adrião) e Tahiel (Hector Briones). João, um sertanejo que deixou seu lugar, no interior nordestino, para atender a uma convocação, na cidade grande, para regularizar sua precária situação fundiária. Tahiel, um latino-americano desvalido, perdido nas estradas e, tanto quanto João, desprotegido diante dos grandes poderes.
Sertanejo arquetípico, que guarda referências de tantos outros personagens do cinema brasileiro, antes e depois do Cinema Novo, João é um homem de falas e comportamentos diretos, que se vê confrontado pela visão de Tahiel, impregnada das culturas ancestrais indígenas do continente, que desestabilizam, de saída, qualquer tom realista, que aliás o filme não pretende.

Ex-integrante do grupo Alumbramento, Victor Furtado traz em seu longa inicial a marca da inquietação diante de vários temas - o desenvolvimento urbano desenfreado, a desigualdade crônica, a violência urbana, a invisibilidade social de grupos minoritários ou socialmente desprezados, o trabalho precário, a desumanização e muitos outros. É o tipo do filme que chega para fazer provocações ao imaginário de seu público e não proposições fechadas, num tempo em que as certezas parecem mesmo fora do alcance da mão.

Longa venezuelano
A atração da competição de longas nesta noite de segunda (7) será o indicado da Venezuela para concorrer à vaga de Melhor Filme Internacional no Oscar 2021 Érase una vez en Venezuela (Era Uma Vez na Venezuela), documentário de Anabel Rodríguez. Coprodução Venezuela-Reino Unido-Áustria-Brasil, passou pelos festivais de Sundance, Miami, Venezuela, Toronto e pelo HotDocs (Canadá).