"Era uma vez na Venezuela" retrata um povoado no limite do realismo mágico
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 08/12/2020
- Tempo de leitura 4 minutos
Representante da Venezuela na disputa de uma vaga na competição pelo Oscar 2021 em língua estrangeira, o documentário Era uma vez na Venezuela, de Anabel Rodríguez Ríos (foto ao lado), retrata um mundo disfuncional a partir do povoado de Congo Mirador - que, desde esse nome singular, parece saído diretamente do realismo mágico latino-americano.
Nesse lugar, na fronteira entre Venezuela e Colômbia, embicado sobre as águas do lago Maracaibo, maior reserva petrolífera venezuelana, tudo é precário: as moradias equilibradas em pilares, as casas despojadas, a falta de água e saneamento básico. Os moradores valem-se das águas poluídas do lago para sua higiene e a cozinha. Adultos e crianças nadam no lago como se se tratasse de um paraíso intocado, limpando dos pés os restos de petróleo com gasolina.
Seu abandono, no entanto, não lhes escapa, tanto que o filme radiografa uma forte crise política, bastante polarizada, nas proximidades das eleições legislativas de 2015. Os moradores lutam para que o governo mande dragas para recolher os sedimentos da exploração petrolífera que se acumulam cada vez mais.
Duas mulheres encarnam as posições em choque: a líder chavista local, Tamara Villasmil, e a professora primária Natalie Sánchez, oposicionista. Acompanhando por cinco anos as agruras, carências e disputas deste povoado esquecido pelas autoridades, a diretora coloca em foco o desmantelamento do regime de Nicolás Maduro, a ocorrência de práticas criminosas, como a compra de votos, e o gradativo abandono do lugar pelos moradores, transformando Congo Mirador numa cidadezinha-fantasma. O filme se torna, então, o microcosmo pelo qual se enxerga um país extremamente vital, mas em crise, cujos habitantes estão partindo para o exílio.
País em diáspora
Presente em Fortaleza, no debate do filme no Cine Ceará, nesta terça (8), a diretora contou que este projeto lhe consumiu sete anos. Ela descobriu a cidade quando realizava um documentário sobre um fenômeno atmosférico típico da região, os trovões luminosos sem relâmpagos - que, aliás, são vistos também no início de Era uma vez na Venezuela.
As peculiaridades do local foram atraindo a atenção da documentarista que, como tantos outros cineastas, vive fora do país, na Áustria - que foi também um dos co-produtores deste longa, ao lado do Brasil e da Inglaterra. De início, ela pensava em fazer um filme sobre as crianças locais, que se dividiam em gangues. Mas elas foram partindo com suas famílias, desviando o foco, que culminou na composição atual do documentário.
Anabel Rodríguez e sua equipe passaram tanto tempo em Congo Mirador que se tornaram parte da comunidade, sendo aceitos pelos dois lados da polarização política. Assim, a diretora transita tanto junto à professora Natalie quanto à dirigente chavista Tamara - que não se acanha em ser filmada doando alimentos e outras mercadorias para convencer moradores resistentes a votar no partido do governo, ou ser ouvida pedindo doação de telefones com o mesmo intuito. No debate, a diretora comentou que Tamara não só não se importou, considerando estas doações como uma espécie de “marca de seu prestígio e poder”. Ela disse não saber, no entanto, como a líder vai encarar isto numa eventual exibição do filme num circuito maior.
O filme já começou a circular na Venezuela, sendo escolhido pela comissão independente de cineastas como representante do país na disputa de uma vaga no Oscar. Também está previsto que tenha exibições gratuitas, na rua, compromisso vinculado à obtenção de um fundo junto ao IDFA, o festival internacional de documentários de Amsterdã.
A diretora disse também que hoje as condições de produção cinematográfica na Venezuela são extremamente precárias. O país produziu 15 longas no ano passado, todos vinculados a co-produções com outros países. Ela destacou que a Venezuela foi excluída de fundos internacionais como o Ibermedia, pelo fato de o governo não ter pago sua cota, e que o mesmo está acontecendo em relação ao Brasil.
Foto de Anabel Rodríguez Ríos: Neusa Barbosa
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