O íntimo e o social em filmes do Irã à Índia
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 24/10/2021
- Tempo de leitura 12 minutos
A semana na Mostra começa com atrações como o representante do Irã a uma indicação ao Oscar 2022 de filme em língua estrangeira, o drama Um Herói, do premiado Asghar Farhadi, que retrata o dilema de um presidiário (Amir Jadidi) para negociar o pagamento da dívida que o levou à cadeia. A diretora espanhola Ainhoa Rodríguez comenta em entrevista seu longa de estreia, Um Forte Clarão, uma narrativa fantástica premiada no Festival de Málaga. E Higiene Social, do canadense Denis Côté, também abandona o realismo para retratar o distanciamento entre as pessoas. Já o indiano Pedregulhos, de P.S. Vinothraj, opta por um tom enxuto para focalizar os conflitos de uma família dividida num país empobrecido.
Um Herói
Diretor iraniano de maior prestígio internacional hoje, Asghar Farhadi venceu o Grand Prix do Festival de Cannes e é o representante oficial de seu país na disputa de uma vaga nas indicações ao Oscar de filme em língua estrangeira 2022 com este novo drama moral, Um Herói.
Como é habitual em suas histórias, esta mais uma vez roteirizada por ele mesmo, uma série de conflitos e ambiguidades pontuam a jornada do protagonista, Rahmin (Amir Jadidi). Encarcerado por uma dívida, ele recebe uma licença especial de dois dias para tentar negociar uma solução com seu credor, Bahram (Mohsen Tanabandeh).
Hospedado na casa da irmã e do cunhado, que cuidam de seu filho (Saleh Karimai) após o seu divórcio, Rahmin tem um plano secreto. Sua namorada, Fahrkondeh (Sahar Goldust), encontrou uma bolsa com várias moedas de ouro e eles pensam que sua venda poderá render pelo menos parte da dívida.
É em torno desta venda ou da devolução da bolsa que passa a girar a engrenagem da história, que tem por eixo a discussão do que é a narrativa da verdade, como é construída a reputação pública das pessoas e o efeito devastador das redes sociais na vida cotidiana hoje.
Como sempre, Farhadi conta com
intérpretes muito empenhados para jogar com as contradições de seu conto moral, que expõem os interesses nem sempre edificantes de coadjuvantes da trama, como a administração da prisão onde está Rahmin, preocupada em abafar a má repercussão do recente suicídio de um detento. Entram em cena o ressentimento do credor e de sua filha (Sarina Farhadi), que perdeu seu dote, e até as múltiplas preocupações de uma entidade assistencial que tenta ajudar Rahmin.
intérpretes muito empenhados para jogar com as contradições de seu conto moral, que expõem os interesses nem sempre edificantes de coadjuvantes da trama, como a administração da prisão onde está Rahmin, preocupada em abafar a má repercussão do recente suicídio de um detento. Entram em cena o ressentimento do credor e de sua filha (Sarina Farhadi), que perdeu seu dote, e até as múltiplas preocupações de uma entidade assistencial que tenta ajudar Rahmin.
Embora seja certamente uma narrativa elaborada, a construção aqui não se mostra tão eficiente quanto em outros trabalhos do diretor, caso de A Separação (2011) e O Passado (2016). Uma razão é a sensação de que o diretor e roteirista tenta artificialmente conter o potencial político de sua história, que afinal trata do sistema judicial em seu país, injetando às vezes um pouco mais de melodrama do que seria necessário - como no caso da gagueira do filho de Rahmin. (Neusa Barbosa)
O filme só será exibido em sessões presenciais:
Cine Marquise- Sala Globoplay 1
26/10/21 - 16:30
26/10/21 - 16:30
Reserva Cultural - sala 1
30/10/21 - 18:30
30/10/21 - 18:30
Espaço Itaú de Cinema Augusta - sala 1
01/11/21 - 13:30
01/11/21 - 13:30
Um Forte Clarão
Há um conflito central neste que é o longa de estreia da espanhola Ainhoa Rodríguez, que venceu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Málaga e foi apresentado em Roterdã: as pulsões entre a vida e a morte. Assinando também o roteiro, a diretora situa sua narrativa em Estremadura, próxima à fronteira entra Espanha e Portugal, durante o período de Páscoa, uma celebração, simbolicamente, da vida. Porém, o pequeno povoado parece definhar a cada dia.
Rodríguez conta que o filme nasceu da necessidade que tem de trabalhar em uma cidade pequena com atrizes e atores naturais. “Tudo vivido, seus rostos, suas emoções, seu passado, seu presente, seus sonhos e tudo mais, é uma forma fascinante de tecer uma história de mãos dadas e, aos poucos, em uma pequena cidade onde eu morava e onde queria virar quase minha Cinecittá particular. Ao mesmo tempo, há aquela coisa misteriosa dos autores de sentirem-se ancorados à terra, neste caso a Tierra de Barros, de onde vem a minha família paterna e de onde venho.”
A paisagem parece devastada, digna de um filme apocalíptico, não havendo qualquer sensação de renascimento. A impressão é de um sentido de luto eterno. O longa passeia, por assim dizer, pela vida e casas de moradores e moradoras que, em momentos que transitam entre o onírico e o surreal, descortinam suas vidas. Interessa a Rodríguez, em especial, a vida das mulheres.
A diretora explica que seu longa “reflete um pedaço da vida durante um período anterior e durante a Semana Santa numa pequena localidade de Tierra de Barros, e verdadeiramente bebe da vida cotidiana, do documentário, da sua vida, do seu dia a dia. Mas também na vida numa pequena localidade estão os elementos da fé, elementos da fabulação para encontrar um sentido nos grandes mistérios da vida, explicar o que nos rodeia, a morte, Deus, o mundo. Não só as crenças católicas mas esotéricas e também fantásticas da infância, tudo também faz parte do cotidiano destes povos e, digamos, também o absurdo e o humor negro.”
Ao lado do diretor de fotografia Willy Jáuregui, a cineasta conta que teve de filmar com meios limitados e trazer muito da realidade para Um forte clarão. “Depois foi finalizada a construção junto com José Panadero, colorista e operador de vfx. A ideia era deixar aquela fotografia um tanto dessaturada, empoeirada, como aquela cidade que se ancorou no tempo em uma época que passou. E também passou um pouco de poeira e permaneceu ali, ancorados nas suas tradições como uma bela e dura resistência, ao mesmo tempo que se encerram em tomadas de sequência fixa, que os encerram no lugar onde pertencem a uma das origens, uma alma que devem preservar mas, ao mesmo tempo, que os faz de alguma forma não saírem de lá.”
A diretora se define como uma kamikaze, pois começou a rodar seu primeiro longa, no qual também é creditada como produtora, sem o orçamento completo. “O principal desafio era fazer um filme o mais livre possível, porque é livre em sua totalidade. Uma produção independente faz com que você também tenha que se estruturar. Era difícil para um produtor, desde o início, confiar em um determinado método, que é construir um filme ao mesmo tempo que já estava trabalhando nele com o resto da equipe, sem um roteiro finalizado antes de
começar a filmar.”
começar a filmar.”
O “forte clarão” do título é uma profecia enunciada por uma personagem, ainda no começo do filme, que diz que o local irá desaparecer depois desse fenômeno e perder a memória. Assim, a narrativa toda se dá no compasso dessa espera da vinda do fim. Se ele virá é uma questão – mas também se sabe que um fim não é necessariamente o encerramento de tudo, mas a transformação, um novo ciclo, tal como a Páscoa que tanto marca esse longa. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play até 4/11
Pedregulhos
Escrito e dirigido por P.S. Vinothraj, o filme indiano está na contramão do cinema mais conhecido de seu país, marcado por extravagâncias longas e repletas de cantorias e danças. Com pouco mais de uma hora e uma estética minimalista, esse drama se dá na contenção, com uma narrativa potente e uma estética marcante. Ao centro, uma criança dividida depois da separação dos pais.
Ganapathy (Karuththadaiyan) é um alcóolatra abusivo que batia na mulher e maltratava o filho. Ela o abandonou e se mudou para outro vilarejo com sua família. Isso não o impede de usar o menino, Velu (Chella Pandi), para tentar trazer a mulher de volta. O filme já começa com ele alcoolizado indo buscar o garoto na escola e gritando com ele.
Chegando na casa onde ela estava, descobre que a mulher voltou para Tamil Nadu, onde moravam. Sem dinheiro para o ônibus, pai e filho precisam voltar para casa, caminhando por cerca de 13 Km, depois que Velu, revoltado com o comportamento do pai, rasga as passagens.
Falando pouquíssimas palavras ao longo do filme, o menino é seu centro. Os olhos grandes e expressivos de Pandi dizem muito sobre o que ele aprende a respeito do mundo, de sua sociedade e do patriarcado, embora, obviamente, ele nem fosse capaz de elaborar isso. Em sua jornada, a dupla encontra outras personagens, o que permite ao longa ampliar seu escopo. A entrada e saída de novas figuras ao longo de Pedregulhos é feita de maneira bastante orgânica na narrativa escrita por Vinothraj, que traça um retrato bastante honesto e impressionante de pessoas vivendo em situações de degradação pela pobreza.
Aos brasileiros, a viagem de Ganapathy e Velu trará algo de Vidas Secas, com sua história de miséria e resiliência diante das circunstâncias. Assim como no filme brasileiro, em Pedregulhos não há nenhum espetacularização da miséria, pelo contrário, é uma denúncia e um retrato de um país que pouco olha para suas classes mais pobres. O minimalismo adotado por Vinothraj é bastante condizente com a história que conta, na qual não há espaço para nada supérfluo. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e nos cinemas:
Cinesesc - 26/10/21 - 20:45
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1
31/10/21 - 18:15
31/10/21 - 18:15
Higiene Social
Pretensão é uma palavra-chave no filme do canadense Denis Côté, pois o longa pode parecer pretensioso para alguns, quando, na verdade, a questão central é satirizar filmes pretensiosos. É uma linha tênue, nem sempre muito clara, por isso também não há de se culpar quem não compra a história nestes termos. Conhecido por longas como Antologia da Cidade Fantasma e Vic + Flor viram um urso, o cineasta pode parecer também estar se aproveitando da pandemia – distanciamento entre personagens é outro ponto aqui –, mas, a bem da verdade, o filme foi concebido bem antes da Covid-19.
O rigor formal se apresenta logo no primeiro segmento, no qual uma câmera estática estabelece uma geografia na tela, com dois terços desta coberta pelo céu e o restante, por um gramado. Em cada um dos extremos, um personagem, e outro, ao centro, mas mais afastado, bem ao fundo. Antonin (Maxim Gaudette) discute com sua irmã Solveig (Larissa Corriveau). O figurino causa um estranhamento, combinando roupas de época com outras mais modernas.
Ao longo de outras sete vinhetas, Antonin estará ao lado (embora distante) de outras personagens, em ambientes rurais, discutindo sobre sua vida e as decepções que causa aos demais. Entre elas, estão sua mulher Eglantine (Evelyne Rompré), numa roupa do século XVIII; Cassiopée (Eve Duranceau), sua amante; uma burocrata (Kathleen Fortin); e Aurore (Eleonore Loiselle), esta num figurino completamente contemporâneo usando jeans.
Aos poucos, as conversas revelam suas questões reais. Eglantine, por exemplo, abandonou o marido, teve um amante, mas está disposta a voltar, se ele mudar. Já a burocrata cobra impostos atrasados, enquanto Aurore quer reaver seu carro, que o protagonista roubou. Ela é a personagem mais misteriosa aqui, pois, antes da cena com Antonin, ela aparece em alguns momentos do filme vagando pela floresta.
Higiene Social brinca com a questão da distância física entre os personagens para materializar a distância emocional, psíquica e até intelectual entre eles. Mas uma obra de arte e suas interpretações são sempre fruto de um momento histórico, por isso é impossível não ver o longa como também um comentário sobre a pandemia e seus efeitos, quando os distanciamentos apertaram ou afrouxaram laços de amizade e amor. (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play e nos cinemas:
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 4 -
28/10/21 - 16:00
28/10/21 - 16:00
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 5 - 31/10/21 - 20:45
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