Documentários e dramas de todo o mundo
- Por Alysson Oliveira, Neusa Barbosa e Luiz Vita
- 01/11/2021
- Tempo de leitura 13 minutos
Três documentários inspiradores na programação destes últimos dias da Mostra: As Bruxas do Oriente, do francês Julien Faraut, resgata a história de uma excepcional seleção feminina de vôlei dos anos 1960; Truman & Tennessee: Uma Conversa Pessoal, de Lisa Immordino Vreeland, tece um diálogo entre vida e obra de dois escritores fundamentais, Truman Capote e Tennessee Williams; Marx Pode Esperar, de Marco Bellocchio, recupera a dolorosa história do suicídio de seu irmão gêmeo, Camillo. Duas ficções retratam dramas da Rússia e da Ucrânia, A febre de Petrov, de Kirill Serebrennikov, e Reflexão, de Valentyn Vasyanovych.
As bruxas do Oriente
Eram meados dos anos de 1960, quando o time feminino de vôlei do Japão ficou conhecido como “As Bruxas do Oriente”, tamanha as destreza das jogadoras nas quadras. A equipe era formada, em boa parte, por jovens que trabalhavam numa fábrica têxtil, onde formaram um time e ganharam diversos torneios até se tornarem a seleção nacional. É uma história de glórias e conquistas que parece esquecida no tempo – especialmente fora do país – que o francês Julien Faraut resgata com riqueza de imagens e entrevistas neste documentário.
Faraut não é estranho ao mundo dos esportes. Seu documentário anterior é o John McEnroe — No Império da Perfeição, sobre o famoso e polêmico tenista norte-americano. O cineasta conta que, quando foi diretor do a Cinemateca do Instituto de Esportes da França, lá encontrou a oportunidade de fazer filmes a partir de imagens de arquivo. “Não vejo os filmes de ‘tema esportivo’ como uma limitação. Não me sinto frustrado com isso. O tema de um filme não faz o filme todo,
cinema é importante,
a forma e a narração de um filme. Temas esportivos deram-me boas oportunidades até agora e eu me diverti muito. É também um território totalmente desconhecido, o que é uma chance para qualquer cineasta que queira criar sua própria obra. Sou fascinado pelo esporte, pelas conquistas, pela excelência de esportistas que são capazes de fazer coisas extraordinárias. Em vez de esportes, acho que sou fascinado por excelência na humanidade”, diz em entrevista ao Cineweb.
cinema é importante,
a forma e a narração de um filme. Temas esportivos deram-me boas oportunidades até agora e eu me diverti muito. É também um território totalmente desconhecido, o que é uma chance para qualquer cineasta que queira criar sua própria obra. Sou fascinado pelo esporte, pelas conquistas, pela excelência de esportistas que são capazes de fazer coisas extraordinárias. Em vez de esportes, acho que sou fascinado por excelência na humanidade”, diz em entrevista ao Cineweb.
O documentário As Bruxas do Oriente começou quando uma treinadora de vôlei francesa levou a Faraut um material filmado em 16mm das jogadoras japonesas. “Esta filmagem do treinamento explodiu minha mente e de repente me lembrou de um anime japonês que eu costumava assistir quando era criança! Comecei a fazer pesquisas e então minha vontade de fazer um filme sobre essa história se confirmou. É difícil dizer quanto tempo levei, eu diria dois anos para fazer isso. Mais alguns anos para a concepção disso.”
Faraut conta que incluiu no longa absolutamente tudo o que encontrou sobre as “bruxas”. “Um filme colorido, rodado na fábrica e dirigido por Nobuko Shibuya foi a descoberta mais importante. Provavelmente, não seria capaz de fazer o documentário sem ele.”
As Bruxas do Oriente traz, além das imagens de arquivo de treinamentos e jogos, entrevistas atuais com diversas jogadoras e cenas em anime. “Demoramos quase um ano para encontrá-las. Comecei do zero, pois não tinha vínculo com elas. Então eu e meu produtor mandamos ‘garrafas para o mar’. Uma pessoa da UniFrance finalmente nos deu um contato de alguém envolvido com as Olimpíadas de Tóquio 2020 que estava em contato com elas. Minha tradutora, Catherine Cadou, foi muito útil e convincente. Também fomos muito cautelosos para sermos o mais educados e respeitosos possível. As jogadoras aceitaram assim que entenderam e ficaram honradas com nosso pedido”.
O cineasta também espera que o filme ilumine um pouco a história dessas jogadoras, nem sempre muito bem compreendidas. “Eu queria mostrar um grupo de mulheres competidoras, para não dizer guerreiras! As bruxas do Oriente foram pioneiras nos esportes de alto nível. Elas estavam treinando ‘como homens’ e aguentaram. Elas não foram maltratadas como os ocidentais sugeriram. Ainda são mulheres bonitas entre 75-82 anos, estão em boas condições físicas, ainda estão praticando. Acho que é importante saber mais sobre heróis esportistas que conquistam coisas extraordinárias.” (Alysson Oliveira)
Disponível na plataforma Mostra Play, até 04/11, e no cinema:
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 3
02/11/21 - 13:30
02/11/21 - 13:30
Marx pode esperar
A mesa tem um papel fundamental na vida dos italianos. Não é apenas onde se sentam para compartilhar refeições prazerosamente intermináveis, mas é também onde se encontram para tomar decisões importantes e, no caso dos Bellocchio, para reviver antigos traumas do passado. No caso, o suicídio de Camillo, irmão gêmeo do cineasta Marco Bellocchio, que sempre foi um
mistério para a família, tema deste documentário comovente.
mistério para a família, tema deste documentário comovente.
Marx Pode Esperar reúne em torno da mesa de jantar e nos sofás da sala, os familiares ainda vivos e um padre que conhecia bem a família para tentar jogar alguma luz na tragédia. Os irmãos procuram reconstruir a trajetória de Camillo, relembrando histórias do jovem, desde o parto difícil, que levou mais de três horas, sua reserva à militância política nos efervescentes anos 1960 - que está referida no título - e a profunda depressão, que não foi percebida de imediato.
Bellocchio deixa seus familiares falarem o que sabem e o que desconfiam e o que vemos é uma longa e catártica sessão de depoimentos com informações guardadas por décadas por cada um deles. O diretor intercala aos depoimentos trechos de seus filmes, nos quais há sempre uma referência, por menor que seja, ao irmão e seu labirinto.
O filme relembra outro caso de suícidio, ocorrido
próximo ao da morte de Camillo, que abalou a Itália: o do cantor e compositor Luigi Tenco, logo após ser derrotado no Festival de San Remo, com sua canção de protesto “Ciao, Amore, Ciao”, que falava da perda de identidade dos camponeses pobres que partiam para as cidades industriais em busca de trabalho e retornavam fracassados e humilhados. O mesmo fracasso sentido por Tenco e por Camillo e de que só agora a família Bellocchio consegue encontrar pistas.
próximo ao da morte de Camillo, que abalou a Itália: o do cantor e compositor Luigi Tenco, logo após ser derrotado no Festival de San Remo, com sua canção de protesto “Ciao, Amore, Ciao”, que falava da perda de identidade dos camponeses pobres que partiam para as cidades industriais em busca de trabalho e retornavam fracassados e humilhados. O mesmo fracasso sentido por Tenco e por Camillo e de que só agora a família Bellocchio consegue encontrar pistas.
A condução serena do diretor, suas lembranças e indagações nos apresentam um retrato quase completo do irmão. O que se perdeu da história, possivelmente para sempre, continuará incomodando toda a família. Mas sua memória, também preservada pelo filme, é o que impede que ele seja esquecido.(Luiz Vita)
Exclusivamente no cinema:
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
03/11/21 - 14:00
03/11/21 - 14:00
A Febre de Petrov
Trata-se do primeiro filme que o cineasta russo Kirill Serebrennikov (Verão e O Estudante, ambos exibidos em Mostras passadas) realizou após passar um período de 20 meses de prisão domiciliar. A sentença foi revista e ele foi liberado do confinamento, mas não pode deixar seu país. Porém, o fato de já poder sair de casa permitiu que fizesse esse longa, um delírio febril surreal que não se detém por um segundo – como se seu diretor e roteirista quisesse recuperar o tempo perdido.
O filme é baseado num livro de Alexey Salnikov, que o próprio Serebrennikov já havia adaptado para o teatro - o que é difícil de imaginar, dado seu teor tão cinematográfico e alucinatório, mais fácil de se reproduzir na tela do que no palco.
O Petrov do título é um homem de 30 anos (Semyon Serzin), que trabalha como mecânico, mas aspira ser um quadrinhista. Doente, ele tosse sem parar – algo que nesses tempos pandêmicos pode colocar parte do público em estado de alerta, embora o longa tenha sido rodado antes de a pandemia começar. O rapaz atravessa a cidade para encontrar um grupo de amigos, mas sua temperatura não para de subir e seus delírios tornam-se cada vez mais surreais.
Sua mulher, Petrova (Chulpan Khamatova), é uma bibliotecária, levando uma vida aparentemente tranquila, até que ocorre uma guinada radical. Ela é uma super-heroína dotada de habilidades ímpares. Esse, mais um elemento fantástico num filme em que o tempo da narrativa se distende ou se contrai conforme o desejo do diretor.
A Febre de Petrov é um filme único em sua estrutura como bonequinhas russas que tomaram LSD, cada vez mais alucinado e improvável, com um tom de homoerotismo, um tema banido na Rússia. Marcado pela nostalgia do fim da URSS, o longa viaja no tempo e espaço na construção do seu imaginário, trazendo em cena desde festinhas infantis típicas de fim de ano no país até uma heroína sanguinária em suas vinganças. A fotografia de Vladislav Opelyants
contribui e muito no sentido de criar um pesadelo alucinatório e inesperado, num filme que não pára de surpreender.
contribui e muito no sentido de criar um pesadelo alucinatório e inesperado, num filme que não pára de surpreender.
Embora, não seja uma obra escancaradamente política, A Febre de Petrov não deixa de ser um trabalho de um dissidente – numa condenação polêmica de desvio de verba pública –, que, ao seu modo, contesta tudo o que há de mais retrógrado e asfixiante no sistema. (Alysson Oliveira)
Exclusivamente no cinema:
Espaço de Cinema Itaú - Frei Caneca 1 - 02/11/21 - 19:00
Truman & Tennessee: Uma Conversa Pessoal
O documentário de Lisa Immordino Vreeland constroi, a partir de um rico e variado material de arquivo, um diálogo à distância entre dois grandes escritores, Truman Capote e Tennessee Williams. Nascidos ambos no sul dos EUA, homossexuais e, cada um a seu modo, instigantes e polêmicos em sua literatura, os dois viveram também uma longa amizade que não esteve imune à tempestuosidade que movia não só seus escritos como suas personalidades.
Colhendo suas imagens de entrevistas dos dois escritores, o filme se vale muito também de vários textos de ambos, alguns contando com a locução em off dos atores Zachary Quinto e Jim Parsons. Tudo isso contribui para uma impressão de corporalidade, de que estejam os dois ali, conversando. Trechos de inúmeros filmes que adaptaram obras dos escritores, como Bonequinha de Luxo, Boneca de Carne, Um Bonde Chamado Desejo, Gata em Teto de Zinco Quente e tantos outros completam este painel, que é complexo o bastante para permitir fruição intelectual e emoção.
O excelente resultado do filme está apoiado no excepcional trabalho da montadora Bernadine Colish, que realiza as fusões de imagens de várias procedências com sensibilidade e apuro. Esta harmonia visual permite que o filme seja altamente agradável de assistir, além de proporcionar um mergulho denso em duas das personalidades literárias mais marcantes dos EUA no século XX. (Neusa Barbosa)
Disponível na plataforma Mostra Play e no cinema:
Reserva Cultural - sala 1
02/11/21 - 17:45
02/11/21 - 17:45
Reflexão
É com uma bela austeridade formal que o ucraniano Valentyn Vasyanovych constrói seu duro Reflexão, um questionamento sobre o que acontece com a alma de um homem e de uma nação, por extensão, durante a guerra. O cineasta volta ao tema e ao apuro estético de seu longa anterior, Atlantis, premiado na mostra Horizontes no Festival de Veneza de 2019. Em ambos, a questão central é a invasão russa em seu país.
Logo na primeira cena, algo de lúdico se mistura com um toque de maldade. Crianças brincam de paintball, numa quadra fechada. Tiros coloridos em tom pastel mancham o vidro de onde seus pais e mães as assistem e filmam. É o único momento de uma relativa leveza. Depois disso, emerge toda a crueldade humana de que se é capaz em tempos de guerra. O protagonista, Serhiy (Roman Lutskyi), é um cirurgião que se voluntaria ao exército quando a Ucrânia é invadida pela Rússia – numa invasão que dura até hoje. Separado, ele mantém uma boa relação com a filha que está entrando na adolescência, Polina (Nika Myslytska), a ex-mulher, Olha (Nadia Levchenko), e o novo companheiro dela, Andriy (Andriy Rymaruk).
Sua captura por paramilitares russos leva a cenas de torturas, difíceis de se assistir, mas nada espetacularizadas e completamente verossímeis dentro da narrativa. Sem esses episódios, o filme, mais tarde, não terá seu potente dilema formal ou o eco na vida de Serhiy, que, obviamente, nunca mais será o mesmo. Um acontecimento que primeiro testemunha, e depois de que participa ativamente, será seu grande dilema moral ao voltar à vida com Polina e Olha.
A câmera sempre parada e distante dos acontecimentos, com planos relativamente abertos e longos na duração, projeta em Reflexão a paralisia da vida de seu protagonista sem rumo, numa Ucrânia onde o frio parece constante. Uma série de vinhetas, algumas beirando o cômico, compõem a narrativa do longa. Carregadas de simbolismo, essas sequências versam sobre temas como liberdade, religião e laços de afeto.
Reflexão, ao lado de Atlantis, forma um painel da Ucrânia invadida pela Rússia. O filme anterior se passava num futuro, com personagens – o protagonista era interpretado por Andriy Rymaruk, que tem um papel central aqui – enfrentando um presente de destruição e reconstrução física e emocional. Agora o personagem central está cercado pelos horrores de uma guerra em andamento. Os dispositivos formalistas pelos quais o diretor opta em cada filme são distintos, mas austeros e seguidos à risca – o que pode alienar parte de seu público, mas terá muito a dizer àqueles e àquelas que entrarem em suas propostas, que tão bem refletem o estado do país do cineasta. (Alysson Oliveira)
Exclusivamente nos cinemas:
Circuito Spcine Sala Lima Barreto - CCSP
02/11/21 - 16:30
02/11/21 - 16:30
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