21/07/2026

Emergência ambiental, artistas e Joyce Carol Oates

O sábado (9) traz como maiores atrações o filme-surpresa Vai Dar Tudo Certo, de Rithy Panh, um dramático alerta ambiental premiado em Berlim, e o documentário Joyce Carol Oates: Um Corpo a Serviço da Mente, sobre a celebrada autora norte-americana. A atração nacional é Quem Tem Medo?, uma vigorosa denúncia sobre a coação de artistas no clima autoritário do atual governo no Brasil.


Filme-surpresa
O experiente documentarista cambojano Rithy Panh venceu o Urso de Prata de Excelência em Contribuição Artística, dividido com o artesão Sarith Mang,
no Festival de Berlim 2022 com seu mais novo trabalho, Vai Dar Tudo Certo - um título que contém uma dilacerante ironia.

Contando com um texto de Christophe Bataille na narração, o filme recorre a imagens documentais e às habituais recriações em cenários com miniaturas de argila - estas, confeccionadas por Sarith Mang - que permitem ao diretor expor suas reflexões, em geral amargas, sobre o estado ambiental e social do mundo, pondo em relevo a exploração dos animais, com imagens não raro incômodas e chocantes.
Mas do que ele fala muito também é do poder e de sua “alegria” de destruir coisas.

Cineasta respeitado pela denúncia que fez em sua obra do genocídio em seu país cometido pelo regime de Pol Pot, em obras impactantes como A Imagem que Falta (2013), Panh, aqui, realiza um filme um tanto mais discursivo e abstrato, que procura o tom de uma fábula visando mais assombrar as consciências do que aquietar os corações. (Neusa Barbosa).

Vai Dar Tudo Certo
Camboja/França, 108 min
09/04, 20h
Sessões Presenciais:
São Paulo: Espaço Itaú de Cinema Augusta - Rua Augusta, 1475, Sala 1
Rio de Janeiro: Espaço Itaú de Cinema Botafogo - Praia de Botafogo, 316, Sala 6

Programas Especiais

Joyce Carol Oates: Um Corpo a Serviço da Mente
Uma das maiores escritoras norte-americanas surgidas na segunda metade do século XX, Joyce Carol Oates tem uma bibliografia que ultrapassa a marca de 100 livros publicados, entre romances, coletâneas de contos e de ensaios, peças, memórias e poemas. Ela é uma figura discreta – embora seja usuária de twitter, em que foi uma crítica ferrenha da administração de Donald Trump –, por isso, o documentário Joyce Carol Oates: Um Corpo A Serviço da Mente é revelador, desde sua trajetória como também seu cotidiano como escritora e professora, ao lado de seu segundo marido, Charles Gross, que morreu em 2019, depois da rodagem do filme.

O diretor do documentário é Stig Björkman, autor de livros sobre Ingmar Bergman e Woody Allen e também do documentário Eu Sou Ingrid Bergman. Em Joyce Carol Oates, ele conta que partiu de seu interesse de quando leu uma obra da escritora. Eles se tornaram amigos e, por anos, insistiu em fazer um documentário sobre ela, que sempre recusava, até que um dia, sem qualquer aviso, aceitou a proposta. É um filme em primeiro lugar, para fãs da escritora, mas também deve angariar novos e novas leitoras para a autora de livros como Blonde, A Filha do Coveiro e Eles, uma de suas obras-primas.

Oates conta que cresceu numa fazenda onde não havia livros, numa família marcada pela violência – não que tenha sido vítima disso, ou acontecido em sua casa, mas ela sempre soube que rondava sua família. Por isso, explica, este é um elemento recorrente em suas obras, especialmente contra mulheres.

A persona pública Joyce Carol Oates, assume ela, é uma “identidade literária” que criou para se expressar pela literatura e também encarar um métier marcado pela presença e dominação masculinas. E também não é a única. Ela publica livros, geralmente policiais, sob o pseudônimo de Rosamund Smith, como Os Gêmeos, que, em 2018, foi filmado pelo francês François Ozon, como O Amante Duplo.

O documentário destaca a figura pública da escritora, a importância de sua literatura e como questões históricas e sociais tornam-se materiais para sua produção. Eles, por exemplo, lançado em 1969, tem com tema a Rebelião de Detroit de 1967, causada pela segregação racial. Até hoje considerado um dos grandes romances sobre o período e o evento, rendeu à autora o National Book Award.

O filme não cai na armadilha simplista de tentar explicar a obra a partir da vida da autora, mas mostra o retrato de uma artista de muito talento e consciente de seu tempo histórico, além de seu papel como escritora em uma sociedade repleta de desigualdades. Explorar esses temas gerou alguns dos livros mais importantes e contundentes da literatura dos EUA nas últimas décadas. (Alysson Oliveira)

Joyce Carol Oates: Um Corpo a Serviço da Mente (Joyce Carol Oates: A Body in
the Service of Mind)
Suécia, 94’, 2021
09/04: 19h - É Tudo Verdade Play - Limite de 1000 Visionamentos
Grátis

O Estado das Coisas

Quem Tem Medo?
Se o Brasil, especialmente desde a ditadura, manteve uma relação um tanto tensa com as artes, em especial aquela mais ousada, isso se intensificou dramaticamente com a eleição de Jair Bolsonaro. O documentário Quem Tem Medo?, de Dellani Lima, Henrique Zanoni e Ricardo Alves, acompanha artistas e performers cujos trabalhos foram censurados ou confrontados de maneira nada pacífica nos últimos anos.

O filme começa com o coreógrafo Wagner Schwartz, talvez o caso mais emblemático dessa questão, que em 2017 foi atacado e acusado de pedofilia por causa de sua performance chamada La Bête, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, na qual seu corpo nu era manipulado pelo público. Um pequeno vídeo que circulou na internet, no dia seguinte à apresentação, mostrava uma mulher e sua filha pequena discretamente tocando-o.

A cena isolada deu margem a inúmeras distorções e, a partir desse momento, Schwartz desceu ao inferno, sendo acusado por pastores evangélicos, políticos oportunistas e pessoas comuns de pedófilo. Um inquérito chegou a ser aberto em São Paulo. Em Quem Tem Medo?, o artista resgata o infeliz episódio, que o deixou traumatizado, e fala da frustração e do medo de se apresentar novamente depois desse dia.

O documentário traz depoimentos de alguns e algumas artistas que passaram por experiências parecidas nos últimos anos. A atriz e dramaturga trans Renata Carvalho atuou como Jesus Cristo na peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu e, em 2018, também foi atacada e censurada. Esses são apenas dois exemplos das dezenas de artistas e obras que sofreram represálias, conforme mostra uma extensa lista ao final do documentário.

Ao resgatar todos esses episódios, Quem Tem Medo? faz uma espécie de cronologia de um movimento assustador e crescente, que passa por um discurso que emulava uma estética nazista do então secretário de cultura, Roberto Alvim, em 2019, e que culmina nos dias de hoje, em que a arte – e, em última instância, a vida social em si – vem sendo cada vez mais cerceada. É também uma figuração, pela esfera das artes, do estado em que o país se encontra mergulhado, em trevas ideológicas.

“Nosso silêncio não vai nos salvar”, diz Renata, que, no ano passado, recebeu no Festival do Rio um prêmio especial por sua interpretação no longa Os Primeiros Soldados, de Rodrigo Oliveira. Ao colocar de um lado a repressão, e de outro, a resistência, o trio de diretores do documentário celebra artistas que ousaram desafiar os padrões e não se calaram diante da censura. Nesse sentido, é um filme esclarecedor e marcado pela esperança por novos tempos. (Alysson Oliveira)

Créditos: imagens do filme "Quem tem medo": Dellani Lima/Divulgação

Quem Tem Medo?
Brasil, 70’, 2021
09/04 – 19h: Sesc 24 de Maio
10/04 – 15h: Sesc 24 de Maio
10/04 – 16h: Instituto Moreira Salles (RJ)
10/04 – 17h: É Tudo Verdade Play - Limite de 2000 Visionamentos
Grátis