21/07/2026

Um olhar para os artistas e para os anos 1960

Na competição brasileira do É Tudo Verdade, o concorrente desta quarta (6/4) é Rubens Gerchman – O Rei do Mau Gosto, resgatando um perfil do inquieto pintor. Na competição internacional, um perfil alentado de Cesária Évora e um documentário sobre as raízes do aumento da violência policial nos EUA em Riotsville.


Competição Brasileira

Rubens Gerchman – O Rei do Mau Gosto
“Eu sou uma pessoa muito inquieta, isso é até um problema no mercado de artes, que , quando ele se acostuma com uma coisa já tô experimentando outra”, define-se o pintor Rubens Gerchman em uma gravação em áudio ainda no começo do documentário de Pedro Rossi.

Composto como um mosaico, a partir de vários depoimentos, o documentário resgata não apenas Gerchman e sua arte peculiar, mas também o cenário cultural brasileiro. O período central ao filme e à obra do pintor eram os anos de 1960, um momento de efervescência cultural e diálogo entre as mais diferentes expressões artísticas.

“Aprecio demais aquele período dos anos de 60 dele, por que é uma coisa muito autêntica. O traço, às vezes, é meio rude, mas captava muito bem o espírito da época, além de transmitir outras coisas, outros pensamentos”, diz um entrevistado no filme. É uma arte muito brasileira – apesar de alguns insistirem na influência da Pop Art americana – que partia da experiência nacional.

A arte de Gerchman é marcada por aquilo que alguns insistiam em chamar de “mau gosto”, mas é reveladora da essência brasileira e do momento político. A aparente precariedade no trabalho dele tem uma conotação de protesto. Cinéfilo, o pintor conta que frequentava a cinemateca do MAM, e o cinema acaba sendo sua grande influência – em especial os vanguardistas russos, como Eisenstein e Vertov.

A Bela Lindonéia, de 1966, uma das principais obras de Gerchman, como destaca o filme, questiona a arte – e depois se tornou música composta por Caetano Veloso,
imortalizada na voz de Nara Leão. Outra peça de destaque do artista é O Rei do Mau Gosto, que, ao lado da outra, já começa a fomentar aquilo que veio a ser conhecido pouco depois como Tropicalismo.

Rubens Gerchman: O Rei do Mau Gosto é uma viagem pelas artes e pela história do Brasil, em especial em momentos de grande contraste: de um lado, uma arte autêntica, vibrante, mas também contestadora, que não tinha como não o ser naquele momento do final dos anos de 1960, especialmente com o AI-5.

Como o próprio Gerchman se define, esse é um filme inquieto, que passa longe de uma biografia convencional – o que é um alívio. Traz ao público a figura do artista em sua complexidade e evolução como pintor e também sua importância para o Brasil e nossa cultura. Ao fim, esse retrato afetuoso construído a partir dos olhares de amigos e amigas pulsa com vida e com a arte peculiar – e, em alguns momentos, estranha – de Gerchman. (Alysson Oliveira)

Rubens Gerchman: O Rei do Mau Gosto
Brasil, 77’, 2022
06/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)
06/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)
06/04 – 21h: É Tudo Verdade Play - Limite de 1800 Visionamentos
07/04 – 13h: É Tudo Verdade Play - Limite de 200 Visionamentos
07/04 – 15h: Debate com equipe do filme no canal do É Tudo Verdade no Youtube
Grátis

Competição Internacional

Riotsville
Recorrendo exclusivamente a materiais de arquivo filmados nos anos 1960, provenientes de programas de TV pública ou arquivos militares, a diretora norte-americana Sierra Pettengill constrói uma aguda reflexão sobre a progressiva militarização da polícia em seu país nestas últimas décadas.

Ela situa historicamente o momento desta inflexão no governo Lyndon Johnson, quando o presidente democrata forma uma comissão para investigar o que se chamou então de “desordens civis” - ou seja, as inúmeras manifestações que, naquele momento, sacudiam uma nação preocupada com os direitos civis e contra a guerra do Vietnã.

Se a ideia, na formação desta comissão, era encontrar “conspiradores e agitadores externos”, o relatório final, ao contrário, apontou para a necessidade de um aumento de gastos públicos que permitisse impedir que se continuasse a tendência, já há mais de 50 anos atrás, de os EUA se tornarem “duas sociedades, uma branca, outra negra, separadas e desiguais”. Das recomendações da comissão, no entanto, somente foi atendida aquela que recomendava aumento de verbas para a polícia, culminando num expressivo incremento de compras de equipamentos anti-motim.

Algumas das imagens mais curiosas vêm de filmagens, feitas pela polícia, de treinamentos realizados em cidades artificiais - as “Riotsville” -, construídas para esse fim e que reproduziam as agitações como uma espécie de teatro, permitindo aos policiais experimentarem técnicas de repressão e controle de multidões. Tudo somado, o filme oferece ferramentas notáveis para justificar o fracasso em produzir uma sociedade mais igualitária, menos racista e violenta. (Neusa Barbosa)


Riotsville
EUA, 91’, 2022 06/04 – 17h
É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis

Cesária Évora

O documentário assinado pela portuguesa Ana Sofia Fonseca oferece o retrato mais abrangente já visto sobre a cantora cabo-verdiana Cesária Évora (1941-2011), com diversos materiais inéditos e raros, além de entrevistas com pessoas próximas à artista - como seu descobridor e empresário José da Silva, sua neta, Janete, e diversos amigos, colaboradores e músicos que a acompanharam.
Filha de um guitarrista e uma cozinheira, Cesária teve uma infância e juventude de pobreza, cantando em bares e navios, vivendo com extrema dificuldade, até ser descoberta, aos 50 anos de idade, e desenvolver uma carreira de sucesso, vendendo milhares de álbuns e apresentando-se em turnês em todo o mundo.
O filme apresenta um retrato multifacetado da cantora, que teve problemas com o álcool e a gestão do próprio dinheiro, lutou contra a depressão e a bipolaridade, mas era também uma personalidade forte, independente, que nunca se casou e criou os próprios filhos sozinha. Talento natural, nunca estudou música e com sua voz única tornou-se a marca registrada de seu país, que ela nunca deixou.
Dois artistas brasileiros participam do filme: Seu Jorge, que numa determinada fase da carreira de Cesária abria seus shows, e Marisa Monte, que faz com ela um dueto para cantar É Doce Morrer no Mar, de Dorival Caymmi e Jorge Amado.
Os momentos musicais são muitos e demonstram toda a simplicidade intensa daquela que ficou conhecida como “a diva dos pés descalços”. Na realidade, desde criança ela sofria com problemas dolorosos nos pés, o que incorporou com uma espécie de trunfo numa carreira artística tardia mas brilhante. (Neusa Barbosa)


Cesária Évora
Portugal, 95’,
06/04 – 19h
É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis