A questão indígena e histórias femininas dominam programação da terça no É Tudo Verdade
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 04/04/2022
- Tempo de leitura 7 minutos
A programação de terça (5/4) reúne o documentário brasileiro “Adeus, Capitão”, em que Vincent Carelli finaliza uma trilogia sobre os povos indígenas, com a co-direção de Tita, e os dois filmes internacionais que abordam questões femininas: o francês “Ultravioleta e as Gangues Cuspidoras de Sangue”, focalizando o amor entre mulheres nos anos 1920, e o canadense “Batata”, retratando o drama de refugiados sírios numa comunidade liderada por uma incansável agricultora, Maria.
Competição Brasileira
Adeus, Capitão
A exemplo de Martírio, seu premiado filme de 2018, em Adeus, Capitão, que Vincent Carelli codirige com Tita, é também um filme que demanda atenção e, em certa medida, paciência. Sua construção narrativa tem um tempo próprio, aquele afastado da lógica contemporânea. Novamente, o diretor parte de seu trabalho como antropólogo e faz um documentário em primeira pessoa, agora sobre Krohokrenhum, o “capitão” do título, líder do povo indígena Gavião, do sul do Pará, que morreu em 2016 aos 90 anos.
Seu trabalho como indianista o aproximou de Krohokrenhum, de quem fez diversos registros ao longo dos anos, sejam fotográficos ou filmagens. Mas, mais do que isso, eles se tornaram amigos. Aqui, Carelli se despede de um companheiro de lutas. O filme é ao mesmo tempo, uma exaltação da liderança do indígena e um réquiem e homenagem à sua vida de mobilização, que resultou na união do povo Gavião, ao menos até sua morte, em 2016. “Hoje me deparo com as chaves para compreender as questões que não ousava perguntar quando o capitão estava vivo”, diz o cineasta em sua narração.
Os diversos tempos de filmagens também são um retrato da transformação da comunidade, seja na maneira física e emocional. Quando chega, por exemplo, a 2010, 15 anos depois de sua última visita, para filmar o encerramento de um ritual, o diretor se depara com a aldeia com muros e portão, e dois militares cuidando de quem entra e quem sai. Mais tarde, são as igrejas evangélicas que penetram ali, sufocando ainda mais a cultura e espiritualidade dos indígenas. Quando o Capitão, finalmente, se recolhe, várias delas entram ali.
A aculturação parece ser um caminho sem volta. Cada vez mais distante de sua cultura, uma jovem, nos dias de hoje, comenta: “Como está fraca nossa cultura. [...] Antigamente que era bom, não tinha dinheiro...” O povo vive numa espécie de dilema sobre como manter suas raízes, sua tradição, num mundo no qual são cada vez mais cooptados como consumidores. Ainda assim, ela também lembra que Krohokrenhum sempre dizia: “Nós nunca vamos ser Kupên [brancos].” O que também não deixa de ser uma forma de resistência.
Mais do que resgatar a figura e a história de Krohokrenhum, Adeus, Capitão é um filme que aborda temas caros aos povos indígenas cujas lutas, em sua essência, são pela autonomia política e financeira. Em meio ao descaso do governo e disputas com o agronegócio, cada vez mais desiguais, foi o Capitão quem conseguiu unir os três povos distintos do grupo Gavião. Sua morte, como mostra o filme, desestabilizou-os profundamente. Nunca mais surgiu uma liderança tão forte e agregadora. “Se pudesse o Capitão nunca morrer, para nós, era bom”, diz uma jovem. Uma constatação ilustrada pelo filme o tempo todo. (Alysson Oliveira)
Adeus, Capitão
Brasil, 175 min.
05/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)
05/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)
05/04 – 21h: É Tudo Verdade Play - Limite de 1800 Visionamentos
06/04 – 12h: É Tudo Verdade Play - Limite de 200 Visionamentos
06/04 – 15h: Debate com equipe do filme no canal do É Tudo Verdade no Youtube
Grátis
Competição Internacional
Ultravioleta e as gangues cuspidoras de sangue
O filme dirigido pelo francês Robin Hunzinger é uma suave mescla entre documentário familiar e filme de arquivo, reforçando seu aspecto nostálgico com o recurso à fotografia em preto-e-branco. Assisti-lo é, de certa maneira, como folhear um velho álbum de retratos que, no caso, revela uma parte secreta da história da avó do diretor, Emma - mas também se expande como um retrato dos anos 1920 e 1930, especialmente sobre a homossexualidade feminina.
O ponto de partida do relato é uma coleção de cartas que Emma guardou cuidadosamente, cuja leitura revela uma paixão pela colega Marcelle, que será a principal missivista. Ao longo de vários anos, Marcelle derrama declarações de amor e confissões, relatando igualmente suas vivências com outras mulheres depois que as duas tomaram rumos diferentes - Marcelle foi ser professora numa cidadezinha, Emma continuou os estudos. Como pano de fundo destas paixões secretas, a tuberculose que acometia Marcelle e outras jovens, que ela conheceu num sanatório e passaram a fazer parte de sua história e também da de Emma: Marguerite, Hélène e Marguerite.
Recorrendo a fotos de família e arquivos que dão corpo e movimento a estas personagens, o filme permite que estas vidas ganhem uma impressionante vitalidade, cobertas pela narração de Claudie, filha de Emma e mãe de Robin, compartilhando com o público sua descoberta de um capítulo desconhecido da história de sua família e impregnando-o de uma emotiva compreensão. Também há um toque moderno neste título, que remete a uma história em quadrinhos. (Neusa Barbosa)
Ultravioleta e as gangues cuspidoras de sangue
França, 74’, 2021
05/04 – 17h
É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis
Batata
Ao longo de dez anos, a diretora canadense Noura Kevorkian acompanhou a jornada de um grupo de trabalhadores rurais sírios no Líbano, elegendo como sua figura central Maria.
Esta mulher enérgica e abnegada, que se dedica aos outros de uma forma que finalmente a impede de manter qualquer sonho de uma vida pessoal, encanta o documentário, dando-lhe um fio condutor ao largo das vicissitudes políticas que sacodem tanto o Líbano quanto a Síria entre 2009 e 2019.
Maria é logo identificada como líder de um grupo de trabalhadores rurais migrantes sírios, boa parte deles integrante de sua família, que anualmente se dirigem à propriedade de Mousa, um cristão armênio com quem eles mantêm laços de uma grande amizade que não se abala pela diferença religiosa (os sírios são muçulmanos sunitas). Nesta ampla fazenda, os sírios se dedicam à agricultura, permanecendo em barracas ao longo de oito meses, voltando depois para suas casas, em Raqqa.
Os protestos na Síria, em 2011, contra o governo Hafez Assad, espalham um rastilho que, ao longo dos próximos anos, se transformará numa crescente instabilidade política, jogando Maria e os seus para a condição de refugiados, impedidos de voltar à sua casa, que fica onde agora é a capital do califado do ISIS.
Em 2014, um milhão e meio de refugiados sírios estão no Líbano, cuja situação econômica também declina a olhos vistos, criando inquietação social, ainda mais alimentada por uma velha rivalidade entre libaneses e sírios.
Mantendo o foco em Maria, que é capaz de aglutinar estas comunidades de refugiados, abaladas por toda espécie de carência, o filme revela-se um retrato contundente de sua vida, mergulhada num impasse sem solução à vista. O título refere-se ao tubérculo plantado pelos agricultores e que torna um símbolo desta sua luta ingrata pela sobrevivência. (Neusa Barbosa)
Batata
Canadá/Catar, 126 min.
05/04 – 19h
É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis
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