21/07/2026

É Tudo Verdade exibe documentários sobre escritor Kurt Vonnegut e impunidade de nazistas

Um dia de atrações diversificadas: o documentário brasileiro Pele faz uma leitura social e política dos muros e paredes das cidades brasileiras em tempos recentes; o filme norte-americano Kurt Vonnegut: Desprendido no Tempo realiza ao mesmo tempo um perfil do famoso escritor e da amizade que o uniu ao realizador do filme, Robert E. Weide; e um duro resgate da impunidade de milhares de criminosos nazistas no documentário britânico Assassinos sem Punição.

Pele
O filme de Marcos Pimentel é convite a um mundo à parte, um documentário lisérgico no qual a invisibilidade de uma grande cidade ganha um colorido vibrante nas pinturas, grafites, propagandas em muros e fachadas. O cinza do concreto e do cimento é tomado por humanos e humanoides, animais e criaturas fantasiosas e palavras de ordem.

Este é um filme que pede seu próprio tempo, sua própria cadência, obrigando o espectador a entrar nele – ou desistir de uma vez por todas. Não há meio-termo aqui e, nesse sentido, é um experimento cinematográfico dotado de sensibilidade que revela o mundo em que vivemos por meio dos estranhamentos.

Há nesses muros figuras humanas que nos captam com verossimilhança, outras – especialmente animais – parecem saídas de uma mente surrealista. A cabeça de um gato fundida a um peixe, um Bob Esponja decadente, um Gato de Alice com um sorriso assustador, coisas que fascinam, mas também repelem. Há outras pinturas que são paisagens naturais com um colorido bucólico contrastando com o som dos carros que nunca param.

O que é mais interessante aqui é que tanto a cidade quando as pinturas não existem por si sós. Os moradores e moradoras das mais diversas idades e classes sociais estão integrados e integradas a essa paisagem urbana, que parece existir apesar de nós – e não por nós.

A construção de Pele se dá não apenas pelas imagens, mas também pelos sons, sejam aqueles do ambiente urbano – carros, motos, ônibus e caminhões, conversas ouvidas ao longe, passos etc. O desenho de som, assinado por Vitor Coroa, é feito na medida para realçar todo o estranhamento que permeia o filme.

A conjugação de todos esses elementos, na montagem de Ivan Morales Jr, é bastante reveladora do nosso tempo – de pautas a tensões sociais, de fé religiosa a símbolos mundanos de difícil decifração. Tudo faz com que esse documentário pulse com vida e potência, e se os muros são a pele de uma cidade, o grafite e as pinturas são a tatuagem que traz cor e vida. (Alysson Oliveira)

Pele
Brasil, 75 min

04/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)
04/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)
04/04 – 21h: É Tudo Verdade Play - Limite de 1800 Visionamentos
05/04 – 13h: É Tudo Verdade Play - Limite de 200 Visionamentos
05/04 – 15h: Debate com equipe do filme no canal do É Tudo Verdade no Youtube
Grátis

Competição Internacional

Kurt Vonnegut: Desprendido no Tempo
Traçando um perfil alentado do famoso escritor norte-americano Kurt Vonnegut (1922-2007), o documentário de Robert E. Weide e Don Argott torna-se, ao mesmo tempo, um instigante mergulho numa amizade, entre Vonnegut e Weide, que teve início num contato fortuito, em 1982.

Naquele ano, Weide, então um jovem cineasta que acabara de realizar um documentário sobre os irmãos Marx, enviou uma carta a Vonnegut, autor que admirava desde a adolescência, pensando em torná-lo objeto de um filme. Não esperava sucesso nesta aproximação, mas estava errado. Não só o escritor aceitou como o relacionamento entre os dois, ao longo dos anos, aprofundou-se numa forte amizade.

Ao longo dessas quatro décadas, Weide filmou o escritor, inclusive em viagens e palestras, reunindo um material imenso que, ao longo do tempo, acabou tornando-se ele mesmo um problema, pela dificuldade de selecionar. Inúmeras vicissitudes pessoais e profissionais dos dois entram pelo caminho, sempre impedindo a conclusão do filme – que, nesta versão final, concluída após a morte do escritor, contou com um diretor parceiro.

Por todas essas circunstâncias, Weide – vencedor de um Emmy pela série Curb Your Enthusiasm -, acaba tornando-se personagem também do filme, pela imperiosa necessidade de incluir no relato as razões da demora na finalização do projeto, que pelo tempo percorrido torna-se também um retrato de seu próprio amadurecimento e dos altos e baixos da vida dele mesmo e de Vonnegut. Diversas entrevistas, de amigos, estudiosos e parentes do escritor completam o quadro, permitindo uma aproximação não só da importância literária do autor como de seu perfil pessoal, com momentos de genuína emoção. (Neusa Barbosa)


Kurt Vonnegut: Desprendido no Tempo
EUA, 126 min.
04/04 – 17h – É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis

Assassinos sem Punição
O produtor e documentarista britânico David Nicholas Wilkinson remexe no já muito explorado tema das punições aos crimes nazistas na II Guerra Mundial, expondo uma verdade incômoda: apesar dos julgamentos de Nuremberg e outros, que puniram diversos dos responsáveis, milhares de perpetradores de massacres, torturas e experimentos cruéis escaparam de qualquer punição. Muitos sequer foram julgados, permanecendo até em suas próprias cidades, sob seu nome verdadeiro.

Recorrendo a minuciosa pesquisa e diversas entrevistas, Wilkinson expõe a mudança de disposição de responsabilizar estes criminosos de guerra a partir de 1948, quando a iminência da Guerra Fria esfria a disposição dos EUA e países europeus neste sentido, entrando num outro espírito, o de considerar a URSS comunista o maior perigo mundial. Assim sendo, os Aliados entendem que é preciso fortalecer a Alemanha dividida, o que significa, no lado Ocidental, permitir uma omissão que proporciona a antigos nazistas entrarem em cargos no Estado, inclusive no judiciário, no governo de Konrad Adenauer.

Habilmente, o diretor percorre locais onde ocorreram massacres, partindo do notório complexo de campos de Auschwitz, mas passando também pela Lituânia, República Tcheca, Áustria e outros locais onde ocorreram assassinatos em massa, inclusive erradicando aldeias inteiras, recorrendo a relatos de sobreviventes ou seus descendentes, além de técnicos e estudiosos do tema.

Reunindo material sólido, exposto com clareza ao longo de três horas de filme, Wilkinson realiza um documentário importante para fornecer elementos cruciais para a análise do tema da justiça de transição – que, no caso do Brasil, lembrando-se dos crimes da ditadura militar levantados pela Comissão da Verdade, ainda não teve condições de ocorrer. Tanto quanto no caso dos nazistas, uma impunidade que facilita o negacionismo e o reaparecimento do fascismo. (Neusa Barbosa)

Assassinos sem Punição
Reino Unido, 175 min
04/04 – 19h – É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis