21/07/2026

Dos corredores do SUS às sacadas de Varsóvia

Um mergulho nos corredores do SUS no auge da pandemia está em Quando Falta o Ar, de Ana e Helena Petta. Na competição internacional, o argentino Retratos do Futuro expande reflexões sobre o movimento sindical e a pandemia, colocando em paralelo o passado e o presente do país. E o concorrente polonês O Filme da Sacada recolhe um denso e multifacetado retrato da complexidade humana a partir de conversas com passantes de uma rua de Varsóvia.

Competição Brasileira

Quando Falta o Ar
crédito da foto: Tiago Sarraf

O documentário das irmãs Ana e Helena Petta, é um retrato humanizado da pandemia a partir do ponto de vista, especialmente das mulheres que trabalharam e trabalham nos mais diversos níveis de enfrentamento no SUS. De maneira observacional, sem qualquer intervenção, acompanha-se vários tipos de atendimentos, desde o domiciliar, não raro nos locais mais precários, até na UTI, entre outubro de 2020 e janeiro de 2021.

“Eu não estou aí tratando uma doença, estou aí tratando um paciente”, diz uma uteísta. É esse cuidado mais humanizado que o filme retrata, com enfermeiras, médicas, funcionárias da limpeza e lavanderia cujos cuidados não se limitam aos problemas físicos, desdobrando-se no apoio emocional aos pacientes.

Fora dos hospitais, agentes ensinam os cuidados para a prevenção contra a Covid-19, seja em casas ou mesmo em presídios. Num desses, uma enfermeira comenta sobre como a população preta sofre mais com a pandemia e o racismo nas penitenciárias, e completa mencionando a importância de levar aos detentos versos dos Racionais MC’s, do Emicida, da Billie Holiday (“falar para eles quem foi Billie Holiday, que esteve presa, foi dependente química, morreu muito cedo, olha o que o racismo fez”). Não é surpresa que após essa fala comece a tocar Strange Fruit, na voz da cantora.

O que vemos na tela é um trabalho incansável de prevenção e cuidados, que lida contra o negacionismo e o negligência. Uma enfermeira, por exemplo, fala da tristeza de ver pessoas dizendo que a doença não existe, que é tudo invenção da mídia. Um cenário, que, aliás, persiste até hoje, mesmo dois anos depois do início da pandemia.

Quando Falta o Ar é também um documentário de contrastes: o som singelo da natureza é silenciado pelo barulho de pás no solo abrindo covas. É, de uma maneira simbólica, a percepção do grande contraste social do país, que se tornou ainda mais evidente nos últimos anos. “A pandemia é mais um medo de morrer, entre tantos outros, que a população pobre tem. [...] Elas ficam divididas entre ficar em casa e morrer de fome, ou sair e morrer de peste”, diz uma médica comunitária do Morro da Conceição. (Alysson Oliveira)

Quando Falta o Ar
Brasil, 81 min

03/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)
03/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)
03/04 – 21h: É Tudo Verdade Play - Limite de 1800 Visionamentos
04/04 – 13h: É Tudo Verdade Play - Limite de 200 Visionamentos
04/04 – 15h: Debate com equipe do filme no canal do É Tudo Verdade no Youtube
Grátis

Competição Internacional

Retratos do Futuro
Num dos documentários mais reflexivos e desafiadores da programação, a documentarista argentina Virna Molina expande as intenções iniciais de seu filme, que partiu de material colhido junto ao movimento sindical do metrô de Buenos Aires, para incorporar meditações sobre a pandemia, os efeitos do apagamento da História de seu país sobre sua geração e os reflexos malignos da ditadura militar.

Utilizando-se de vários materiais, desde os seus próprios, filmados ao longo de anos, até materiais de arquivo, recorrendo a efeitos sonoros e outras técnicas, a diretora cria climas dentro do filme que dialogam com as emoções, flertando decididamente com a fragmentação de informações que hoje perpassa o cotidiano de uma humanidade desafiada pela onipresença das mídias sociais e os inúmeros apelos trazidos por um verdadeiro massacre midiático.

O grande feito de Retratos do Futuro é conseguir construir, dentro desta profusão de imagens, um fio condutor extremamente pessoal, em que a diretora coloca a si mesma e a sua família dentro do quadro, criando um filme ensaístico e sincero, que não procura esconder suas hesitações e emendas. Ao fazê-lo, consegue erigir uma reflexão sobre um tema maior que acompanha a humanidade desde sempre, a procura de sentido para a existência - uma angústia tornada ainda mais pungente depois da covid-19, ainda que a diretora lembre que esta não é a primeira vez que ocorre esta espécie de crise sanitária, remetendo à gripe espanhola de 1918.

É o tipo do filme que ensejará, provavelmente, um número de leituras tão díspares quanto os assuntos de que trata, criando um mosaico em que cada espectador poderá encontrar a sua própria trajetória.
(Neusa Barbosa)

Retratos do Futuro
Argentina, 88 min

Domingo (03/4), 17h
É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis


O filme da sacada

À primeira vista, o projeto deste documentário, do diretor polonês Pawl Lozinski, pode parecer modesto demais ou fadado ao fracasso. Ele cria um dispositivo simplíssimo: coloca-se na sacada de seu apartamento, munido de câmera e microfone, e interpela os passantes da rua onde mora há 20 anos, em Varsóvia. A boa surpresa é que o recurso singelo não somente funcionou como forneceu um pungente retrato da humanidade de passagem, que conquistou o Grande Prêmio da Semana da Crítica do Festival de Locarno 2021.

Falam pessoas que o diretor conhece, como sua própria mulher, a zeladora de seu prédio e vizinhos antigos, tanto quanto totais desconhecidos que aceitam seu convite de dizer alguma coisa sobre si mesmos ou sobre o sentido da vida, ou até cantar uma canção - a pauta das declarações é bem aberta. E, aos poucos, emergem relatos de um ex-presidiário,uma mulher grávida, outra feliz porque o ex-marido morreu e vários que se queixam de saudades de parceiros mortos, Enquanto isso, as estações do ano passam, do verão para o outono, do outono para o inverno, cujas mudanças são captadas pelas imagens como uma outra manifestação, esta da natureza.

Entre estes relatos pessoais e intimistas, o diretor aproveita também a passagem de manifestantes munidos de bandeiras da Polônia, que se dirigem a uma manifestação nacionalista, colhendo deles opiniões surpreendentemente sinceras, quando dizem “sem essa de direitos iguais e viadagem” e “não aos malditos imigrantes”. É também esse país em que setores flertam com o fascismo nacionalista e xenófobo que passa pela janela de Lozinski. Mas ele acredita na multiplicidade das pessoas e na passagem do tempo, como das estações, para trazer algo novo - não por acaso, o filme acaba com uma densa chuva. (Neusa Barbosa)

O filme da sacada
Polônia, 100 min

03/04 – 19h
É Tudo Verdade Play - Limite de 1500 Visionamentos
Grátis