Cannes supera a pane informática e consagra a grandeza de Forest Whitaker
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 17/05/2022
- Tempo de leitura 3 minutos
Cannes - A 75ª edição, que embalou com a intenção de tornar-se histórica mas começou com uma tremenda pane informática no site de ingressos - no qual inclusive a imprensa tem que reservar seus lugares e foi atribuído a um ataque hacker pelo diretor do festival, Thierry Frémaux-, finalmente se encaminhou à sua vocação, ou seja, o cinema.
Nesta manhã de terça (17/5), dia inicial da programação, o primeiro filme do dia, fora de competição, conectou o festival com o déficit humanitário do mundo mas de uma maneira positiva, falando de paz: For the Sake of Peace, dos diretores Christophe Castagne e Thomas Sametin, produzido por Forest Whitaker, que recebe hoje sua Palma de Ouro por uma carreira que começou a criar raízes sólidas justamente aqui. Foi em 1988 quando ele, um jovem de 27 anos, ganhou o prêmio de melhor ator do festival na pele do músico Charlie Parker, protagonizando o inesquecível drama de Clint Eastwood, Bird.
Aos 60 anos, ele volta a Cannes consagrado e à frente de uma ONG humanitária, a Whitaker Peace & Development Initiative, que atua em diversos países da África, América Latina e do Norte. Foi justamente num dos mais conturbados países africanos, o Sudão do Sul, que foi filmado For the Sake of Peace, numa situação de guerra civil, que esticou a filmagem por 6 anos e colocou em risco inclusive a vida dos realizadores, naquelas condições.
Jovem país surgido em 2011, contabilizou a morte de mais de 400.000 pessoas numa sangrenta guerra civil cujos efeitos ainda se fazem sentir. Mas, por mais dramática que seja esta situação, que não se embeleza, o filme focaliza duas iniciativas construtivas pela paz, a partir de duas figuras nada menos do que apaixonantes, a mediadora de conflitos Nandege e o juiz de futebol de um campo de refugiados, Gaitjang. Acompanha-se o trabalho da moça para negociar o fjm de uma guerra secular entre dois povos inimigos, os Logir e os Didinga, e o de Gaitjang para ensinar futebol aos meninos e meninas de um campo de refugiados, Juba, onde ele mesmo vive há oito anos.
Falando com uma voz muito suave e doce, que contrasta com sua compleição robusta, Forest Whitaker explica com muita concisão seu trabalho como produtor e à frente da ONG: “É um trabalho visando a inclusão, estas vozes precisam ser ouvidas”.
A ligação do ator com estas causas e com a África começou justamente quando ele foi filmar O Último Rei da Escócia em Uganda - pelo qual ganhou um Oscar em 2006 -, através do contato com a realidade de um orfanato local.
Mas o veterano e versátil ator não deixa de dedicar parte do seu tempo e energia também à atuação. Finalmente, admite que começa em agosto a filmar um projeto longamente acalentado com Francis Ford Coppola, adiado também pela pandemia e sobre o qual ele é totalmente econômico nos detalhes. Quem sabe no ano que vem em Cannes?
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