Sátira social sueca e realismo fantástico romeno sacodem Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 22/05/2022
- Tempo de leitura 7 minutos
Cannes - Primeiro domingo no festival, com um sol generoso e os filmes já se acumulando pelo caminho, com destaque para os dois mais recentes concorrentes, o sueco Triangle of Sadness, de Ruben Östlund (foto ao lado), e R.M.N, do romeno Cristian Mungiu. Aliás, dois vencedores da Palma em anos anteriores, Östlund, em 2017, com The Square - A Arte da Discórdia, Mungiu, em 2007, com Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias.
São também diretores veteranos e de estilos totalmente diferentes. Östlund, com sua veia satírica ácida e barroca e seu foco para desmantelar o jogo por trás das aparências de relacionamentos e instituições, escancarando o vazio por trás delas. Em Força Maior (Prêmio do Púri na seção Un Certain Regard em 2014), seu alvo era a família de classe média alta supostamente perfeita e feliz. Em The Square, o mundo das artes plásticas e seus ricos patrocinadores. Em Triangle of Sadness, o foco se expande em várias direções. Começa por uma devassa no mundo da moda, a partir do personagem do jovem modelo Carl (Harris Dickinson). Namorado da modelo e influencer Yaya (Charlbi Dean Kriek), ele embarca com ela numa viagem-brinde num cruzeiro de luxo em, mais uma vez, o mundo dos ricos será impiedosamente dissecado.
Comandando o navio, está um capitão (Woody Harrelson, impagável), sempre bêbado e trancado em sua cabine, o que sinaliza um mundo de aparências e completamente desgovernado diante das tempestades que se preparam lá fora. Uma cena impagável opõe este capitão, um marxista, a um dos passageiros, um oligarca russo (Zlatko Buric), envolvidos numa discussão acalorada sobre os mitos do capitalismo e do socialismo.
Este pequeno candidato a Titanic encontrará, no devido tempo, nenhum iceberg, mas mesmo assim a sua desgraça, proporcionando o cenário do terceiro capítulo, numa ilha a que chegam apenas alguns dos passageiros e tripulantes.
Nesta parte, Östlund usa toda a sua ironia avassaladora para escancarar os mecanismos de luta de classes que são desencadeados por uma luta pela sobrevivência literal - para a qual os mais equipados são justamente os mais discriminados, pobres, imigrantes, trabalhadores em funções tidas como de segunda classe, como a supervisora de limpeza dos banheiros, a filipina Abigail (Dolly De Leon). Essa virada de jogo proporciona momentos de puro delírio, encenado com o humor perverso que é a marca do diretor sueco. Como qualquer filme, divide opiniões mas, para mim, foi o primeiro exibido com cara e volume para uma Palma de Ouro.
Tensão romena
Com o habitual estilo cru e elíptico que caracteriza todo o cinema romeno, o seu em particular, Cristian Mungiu ambienta seu R.M.N. no coração de seu país, numa pequena cidade de Transilvânia, elaborando uma crônica tensa, que aborda xenofobia, racismo e machismo. O título do filme é uma sigla que se refere aos exames médicos tecnológicos e sofisticados, como a tomografia e outros, que permitem o diagnóstico de doenças, sinalizando uma metáfora para um filme que procura justamente tomar o pulso do que acontece hoje em seu país - e não só lá.
A sequência inicial mostra o menino Radu, que faz seu caminho para a escola no meio de um bosque, sendo assustado por algo que somente ele viu. O incidente o faz ficar mudo e provoca a volta de seu pai, Matthias (Martin Grigore), que trabalhava na Alemanha, uma situação comum numa cidadezinha em que os homens costumam imigrar para a Alemanha e outros países europeus em busca de maiores salários.
Matthias simboliza também este machão interiorano padrão, que quer tudo decidir e resolver na marra o problema emocional do filho - que a mãe, Ana (Macrina Barladeanu), tenta proteger - e também o coloca em conflito com sua nova namorada, Csilla (Judith State). Csilla é uma mulher independente, gerente de uma pequena fábrica de pães que, neste momento, tenta ampliar seus quadros para obter verbas da União Europeia.
Estas situações, que parecem banais à primeira vista, evoluem para um quadro ameaçador, em que alguns padeiros imigrantes, trazidos de Sri Lanka, num contexto em que os poucos locais recusam o salário baixo, começam a ser ameaçados de morte. Uma das sequências mais eloquentes é uma reunião dos moradores para discutir a expulsão dos imigrantes, que revela, com franqueza o racismo latente da maioria da população.
Na coletiva do filme, o diretor comentou que escolheu ambientar seu filme na Transilvânia, uma região que, ao longo da história, mudou de mãos várias vezes e abriga pessoas de etnicidades e religiões diferentes, como um paradigma não só do que acontece em seu país. A cena final é outro exemplo de como o cinema romeno, Mungiu em particular, consegue retratar o realismo fantástico, mostrando um contexto de medo, intolerância e extremismo que preocupa não só a Romênia nem apenas a Europa, mas todo um mundo destroçado por ideologias de extrema-direita.
Impasses do Egito
Vencedor de um Grande Prêmio do Júri em Sundance em 2017 por The Nile Hilton Incident, o sueco-egípcio Tarik Saleh estreou na competição em Cannes com outro thriller político sobre as engrenagens do poder no Egito, Boy from Heaven.
Num roteiro de sua autoria, Saleh enfoca o conflito entre a segurança do Estado e o poder religioso, centrando-se no ambiente da Universidade Al-Azhar, tida como o maior centro de teologia islâmica do mundo, no Cairo.
É para lá que se dirige o jovem Adam (Tawfeek Barhom), um filho de pescador que é escolhido para ganhar uma bolsa de estudos. Rapaz simples, ele se torna objeto de disputa do serviço secreto, através da figura do coronel Ibrahim (Fares Fares) - que o chantageia para obrigá-lo a tornar-se espião dentro da universidade, que se prepara para eleger um novo imã que, segundo o regulamento, terá cargo vitalício.
O governo pretende impedir a vitória prevista de um líder que não compartilhe seus pontos de vista, usando informações dadas por Adam. Tawfeek Barhom interpreta com muita propriedade este jovem inocente que vê suas ilusões serem dilapidadas dia a dia num ambiente de intrigas em que ele é manipulado no seu limite.
Vivendo fora do Egito e tendo tido seu filme anterior, The Nile Hilton Incident, proibido naquele país, Tarek esforça-se para compor um panorama multifacetado de uma realidade que, em muitos sentidos, nos escapa, pontuando também as rivalidades dentro da universidade, com a presença de um grupo radicalizado, que assusta os demais alunos por suas atitudes eventualmente violentas contra aqueles que criam obstáculos em seu caminho.
No final, parece tratar-se de uma boa aproximação a uma realidade que a gente em geral desconhece, por um diretor que tem um mínimo de conexão com ela, embora faça o filme de fora do país. Dentro dele, afinal, ele não poderia fazê-lo. E, em entrevistas, como uma recente à Variety, Salek destacou ter feito uma extensa pesquisa com imãs para dar conta da máxima fidelidade possível ao ambiente desta universidade - que, logo de início, o filme destaca que foi alvo de tentativas de controle por parte de diversos governos egípcios, sem sucesso, garante-se.
Decepção francesa
Primeiro concorrente francês, Frère et Soeur, do consagrado diretor Arnaud Desplechin, recebeu também a primeira vaia numa sessão de imprensa. Seu retrato do prolongado ódio entre uma irmã atriz (Marion Cotillard) e um irmão escritor (Melvil Poupaud) pareceu, na maior parte do tempo, palavroso mas sem atingir a eloquência nem a consistência que seria de esperar para que a história provocasse conexões emocionais.
Esse ódio fraternal, sem grandes justificativas, se prolonga aos trancos e barrancos, não se explica e desaparece como nasceu. E o filme também, de nossa memória. Uma pena, para um diretor e atores tão qualificados. Desta vez, nada funcionou.
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