A explosão de "Elvis" e sentimentos divididos na competição em Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 26/05/2022
- Tempo de leitura 6 minutos
Cannes - Sentimentos contraditórios hoje (26/5) em Cannes, com o entusiasmo pela aguardada cinebiografia Elvis, de Baz Luhrmann, exibida fora de competição, e a decepção enorme com o concorrente à Palma Stars at Noon, em que a veterana diretora francesa Claire Denis não deu conta de concatenar os elementos de uma história que mistura espionagem e romance, ambientada numa América Central imperdoavelmente caricaturizada. E também cresceu a sensação de que, na reta final da exibição dos concorrentes, não há um claro favorito à Palma de Ouro.
Criador e criatura
O barroquismo visual do cineasta australiano serviu sob medida para a intensidade de Elvis Presley (Austin Butler, perfeito no papel) na tela, retratando seus shows cheios de energia sensual e figurinos vistosos, recuperando um carisma que se tornou lendário.
Uma ótima sacada da história, corroteirizada por Luhrmann, é colocar em evidência as influências da música negra sobre o estilo de Elvis, um garoto branco pobre de Memphis, Tennessee, que cresceu ouvindo músicos afro-americanos, num contexto de segregação racial profunda. Em mais de um momento, essa ligação de Elvis com os negros o colocará inclusive em dificuldades legais - seu estilo sensual de dança era considerado típico dos negros e tentaram enquadrá-lo por quebrar as leis segregacionistas por isso, sem contar as acusações de obscenidade.
O filme de Luhrmann acerta em colocar seu foco nesse eterno conflito de Elvis por seguir seus próprios instintos artísticos e a persistente influência de seu empresário manipulador, o coronel Parker (Tom Hanks) - que é o narrador da história. Nessa disputa reside o grande drama de um personagem grandioso e trágico, cujas imagens reais são mostradas no final do filme.
Desastre centro-americano
Baseado no romance homônimo de Denis Johnson, Stars at Noon muda a época original da história, que se passava nos anos 1980, numa Nicarágua sob a influência da vitória recente dos sandinistas contra a ditadura de Anastacio Somoza e reflexos do escândalo Irã-Contras.
Ambientando o enredo nos dias atuais - o que é visível pelas medidas sanitárias anti-covid e os telefones celulares -, Denis priva-o do contexto original, o que é normal, mas não o substitui a contento por nenhum outro, e isso faz falta. Por conta disso, soa falsa e sem sentido sua história sobre Trish (Margaret Qualley), uma jovem norte-americana, supostamente uma jornalista, perdida na Nicarágua, sem poder sair por falta de dinheiro e passaporte, e um misterioso inglês, Daniel (Joe Alwyn).
Dizendo-se funcionário de uma empresa petrolífera que pretenderia investir no país centro-americano, Daniel envolve-se com Trish que, sem dinheiro, se prostitui. Mas acaba acontecendo um envolvimento real entre os dois, que contraria uma agenda secreta de ambos.
Da maneira como a personagem Trish é desenhada e a direção conduz os inúmeros incidentes no caminho do casal, finalmente em fuga, o filme tornou-se uma embolada tediosa, em que nada faz realmente sentido. Não ajuda nada o fato de que os personagens centro-americanos e o ambiente da Nicarágua e da Costa Rica sejam delineados com tanta caricatura, sem nuances, tirando energia de uma história que se pretende um suspense político. Realmente, o material se mostrou inadequado para esta veterana diretora, que já concorreu em Cannes em 1988 com Chocolat.
Mulher forte no Irã
Segundo concorrente iraniano à Palma de Ouro, o melodrama Leila’s Brothers, do jovem diretor Saeed Roustaee, 32 anos, apresentou um panorama turbulento e dolorido não só de uma família como de um país abalado por desemprego e dificuldades econômicas e sociais profundas - além de uma aguda discussão dos papeis de gênero, a começar pelo título, que destaca a importância da personagem Leila (Taraneh Alidoosti, de Procurando Elly).
Irmã mais velha numa família que tem outros quatro filhos, ela tem cerca de 40 anos e não se casou. Ela é o centro deste clã, em que o pai, Esmail (Saeed Poursamimi), de 80 anos, exerce uma influência não raro perniciosa, com seus preconceitos e chantagens emocionais.
Os irmãos, todos adultos, gravitam em torno dos pais, especialmente em função da crítica situação econômica do país, especialmente depois que o governo Trump voltou atrás no acordo nuclear do país - uma crítica que aparece diretamente no filme.
O foco, no entanto, está nestas relações disfuncionais dentro da família, deflagradas por uma situação envolvendo o desejo de Esmail de tornar-se o novo patriarca dentro de sua comunidade e o sonho dos irmãos de comprarem uma loja, dando a todos uma perspectiva de independência de todo o atavismo a que estão subordinados pelo desemprego.
Leila é a mulher sólida que decifra as artimanhas do pai para manter o controle sobre os filhos e também aquela que o enfrenta mais diretamente, tornando-se uma personagem marcante dentro do cinema iraniano. Mas o filme revela muitas outras camadas do país, com diversos tipos de especulação, exploração de operários, precariedade nas relações trabalhistas e muito mais. É um trabalho ambicioso e de fôlego, ainda não totalmente maduro em alguns aspectos, mas certamente promissor.
A sequência final é de uma beleza cinematográfica marcante, destacando a fotografia assinada por Hooman Behmanesh. E Taraneh Alidoosti, certamente, pode ser merecidamente lembrada para uma premiação como atriz.
Nem tanto comédia
Quarto longa assinado por Louis Garrel como diretor, L’Innocent, exibido fora de competição, revela uma ambição diferente do artista, numa comédia dramática que se vale de elementos de policial e de romance para construir suas situações. Filme de ator, ele tem no elenco um de seus maiores trunfos. O próprio Garrel interpreta Abel, filho único da professora de teatro Sylvie (Anouk Grinberg).
Trabalhando numa prisão, ela se apaixona por um dos detentos, Michel (Roschdy Zem), que está prestes a sair. O filho se preocupa com esta relação, mas nada pode fazer. Michel e Sylvie abrem uma floricultura, mas Abel desconfia de que ele não largou suas ligações no mundo do crime e começa a segui-lo.
Uma personagem deliciosa é Clémence (Noémie Merlant), melhor amiga de Abel e que era também a melhor amiga da mulher dele que morreu. A maneira como ela interfere nas situações e quebra expectativas faz muito bem ao filme, que é uma diversão leve mas com um tempero.
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