21/07/2026

Dois peso-pesados do cinema compartlham suas inquietações na tela de Cannes

Cannes - A segunda-feira (23) começou quente, como se esperava, enfileirando dois concorrentes de peso, indicados várias vezes antes à Palma de Ouro: o sul-coreano Park Chan-Wook, com quatro indicações, agora competindo com um policial encharcado de melodrama, Decision to Leave (Heojil Kyoshin), e o canadense David Cronenberg, sete indicações e chegando para mais uma disputa com a distopia futurista Crimes of the Future.

Cada um com seu estilo, ambos são diretores com a sua marca e de quem sempre se espera muito. Chan-Wook, por ter a seu crédito A Criada (2016), Lady Vingança (2005) e Oldboy (2003), todos com uma assinatura visual muito intensa e precisa. Cronenberg, um veterano de 79 anos, que já assinou Crash (que lhe deu um Prêmio do Júri em 1996), além de Spider (2002), História da Violência (2005) e Cosmópolis (2012), entre tantas outras obras originais e marcantes.

Distopia cirúrgica

Muito esperado entre os filmes da competição 2022, Crimes of the Future não decepciona na originalidade nem na contundência, para falar de um mundo futuro marcado por todas as nossas contradições presentes, nas quais ele se espelha.

Num tempo de espetáculos no limite do macabro, Saul Tenser (Viggo Mortensen) e Caprice (Léa Seydoux) são os mestres. Ela, uma cirurgiã que faz performances cirúrgicas no corpo dele, dotado da capacidade de desenvolver permanentemente novos órgãos, expostos ao público mesmerizado.

Nesse tempo em que a dor parece não ser mais um problema, projetam-se concursos de beleza interior e a necessidade de um órgão para o registro nacional dos novos órgãos, este capitaneado por outra dupla, Wippet (Don McKellar) e Timlin (Kristen Stewart). Estes são apenas alguns dos aspectos instigantes de um roteiro que caminha no limite da provocação do sinistro, com a habitual atenção ao design de produção (assinado por Carol Spier). O visual, aliás, combina elementos do antigo e do moderno para retratar esse mundo de pesadelo, que incendeia a imaginação muito depois que o filme terminou, suscitando indagações éticas nada simples - como até onde nos levará a sociedade do espetáculo. Afinal, um genuíno Cronenberg, capaz de despertar os instintos de um público de cinema que hoje parece um tanto anestesiado por efeitos especiais e pouca substância.


Policial apaixonado

O sul-coreano, Decision to Leave segue as desventuras de um policial, Hae-jun (Park Hae-il), quando se põe a investigar as mortes em torno de uma misteriosa mulher, Seo-Hae (Tang Wei). Vista em Desejo e Perigo, de Ang Lee, a moça convence como a viúva fatal de plantão, inebriando o investigador casado com sua peculiar mistura entre fragilidade e astúcia.

O enredo, co-roteirizado pelo diretor, é um emaranhado de viradas, de novos desdobramentos em torno da moça, cujos segredos contrastam com a vida certinha de Hae-Jun, casado com uma mulher (Lee Jung-yun) obcecada pela ordem e a saúde, não deixando que ele fume e tentando encaixar sua vida em comum numa série de regras em que, em última análise, o marido vai sentindo-se desconfortável.

O cineasta sul-coreano sabe como poucos criar estes mundos complexos em que os personagens vão sendo comandados por seus desejos e pulsões, arrastados com um certo fatalismo oriental a sucumbir a suas emoções. Não é diferente aqui e a história conta certamente com uma musa que dá conta de sua missão na narrativa. Mas, por alguma razão de ritmo, sobretudo, o filme não é tão sedutor quanto seus anteriores, embora não lhe faltem qualidades.

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