05/06/2026

Fim de semana tem a Palma de Ouro, Iñárritu e novos diretores brasileiros

Bardo, Falsa Crónica de unas Quantas Verdades
Com este filme barroco e grandiloquente, o mexicano Iñárritu volta à direção depois de 7 anos - o último foi O Regresso, pelo qual venceu o segundo Oscar como diretor. Em Bardo, Falsa Crónica de Unas Quantas Verdades, realiza um filme ambicioso, em que se nota um fio autobiográfico no protagonista, Silverio Gama (Daniel Giménez Cacho), que logo se apaga nos desdobramentos do roteiro, assinado pelo diretor e Nicolás Giacobone (que dividiu com ele os créditos de Birdman, 2014).

Jornalista e documentarista mexicano, Gama volta ao seu país natal para receber um prêmio. A viagem desencadeia uma série de reencontros e reativa lembranças que colocam em xeque a identidade e as certezas de Silverio Essa jornada é filmada da maneira mais ambiciosa, em 65 mm, com direção de fotografia do premiado Darius Khonji, revelando-se em sequências de imensa beleza: como a abertura, que mostra uma sombra voando no deserto; os imigrantes em busca de uma aparição da Virgem Maria; um vagão de metrô invadido pela água; uma montanha de indígenas mortos, remetendo ao genocídio da colonização; e uma engenhosa forma de retratar os desaparecidos, um fenômeno persistente, marca da força do crime organizado no México.

Por esse engenho e ambição, nota-se que Bardo… está para Iñárritu assim como A Doce Vida ou 8 1/2 estavam para Federico Fellini. Ou seja, uma imensa declaração de amor ao cinema passando pelo crivo pessoal, deixando para trás qualquer necessidade de afirmação ou de conquista, como o diretor mexicano já obteve de Hollywood. Ele não precisa provar mais nada a ninguém, então pode-se dar ao luxo de inserir na história de Bardo… - que é o nome de um lugar - a responsabilidade dos EUA em boa parte dos problemas do México. Este aspecto é ilustrado numa cena em que o jornalista conversa com um embaixador norte-americano, não se esquecendo de mencionar que a chamada Guerra Mexicano-Americana, de 1846/1848, foi, na verdade, uma invasão, que custou ao México metade de seu território. (Neusa Barbosa)

Cinesesc




















23/10/22 - 21:10
Cine Marquise - sala 1









31/10/22 - 20:45
Cine Marquise - sala 1









02/11/22 - 20:45


Cine Marquise - sala 1









22/10/22 - 20:30
Cinesesc




















28/10/22 - 18:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 1
02/11/22 - 20:30


Manto de Jóias
Obra rigorosa de uma diretora estreante, Natalia López Gallardo, imprimiu uma nota inquietante ao revelar relações de uma família e seus empregados. Vencedora do Urso de Prata (Prêmio do Júri) em Berlim, a coprodução mexicano-argentina chama a atenção, em primeiro lugar, por muito empenho estético. Quando se sabe que um dos coprodutores do filme é o mexicano Carlos Reygadas, conhecido por filmes de rigor singular, como Japón e Luz Silenciosa (vencedor do Prêmio do Júri de Cannes 2007), pode-se imaginar que o trabalho inaugural de Natalia não é um filme de narrativa ou composição simples, desafiando inclusive sua descrição numa sinopse.

Toda a história e contradições do México, passando pela sujeição dos povos indígenas, a luta de classes e a contaminação de todas as esferas da sociedade e instituições pelo crime organizado perpassam o filme, que retrata a volta de uma família à sua fazenda.

Isabel (Nailea Norvind) é a herdeira deste lugar, que vive uma crise em seu casamento e se reconecta com antigos empregados, como uma família que tem uma filha desaparecida. Estes desaparecimentos, além dos sequestros, são endêmicos na região, em cujo lixão aparecem, de tempos em tempos, os corpos de algumas das vítimas. Outros, nem isso, lotando a delegacia, mostrada como uma repartição febril, onde se desenrola uma das cenas mais interessantes.

A câmera deste filme, um trabalho de Adrian Durazo, é tudo menos previsível, entrando onde menos se espera e colhendo ângulos inesperados de muitas das cenas. Uma estranha frieza e distanciamento emocional, no meio de tantas crises, aproxima também o estilo desta diretora de uma Lucrecia Martel - e a cena inicial, numa piscina, guarda algum parentesco com O Pântano. Como no filme da argentina, esta é uma água que não limpa, não purifica, não alivia as tensões.

A condução do filme vai no sentido de nunca criar certezas, nunca procurar conforto, desdobrando as relações esquivas entre personagens como a policial que tem um filho
ligado ao narcotráfico. Por tudo isso, é um filme inquietante e misterioso, que certamente procura incomodar os corações e as consciências e pode estar revelando uma nova geração de cineastas mexicanos. (Neusa Barbosa)

Instituto Moreira Salles - Paulista








22/10/22 - 17:56
Espaço Itaú de Cinema - Augusta Anexo


4 23/10/22 - 18:30
Cine Marquise - sala 2

















24/10/22 - 18:40








Boy from Heaven
Vencedor de um Grande Prêmio do Júri em Sundance em 2017 por The Nile Hilton Incident, o sueco-egípcio Tarik Saleh estreou na competição em Cannes com outro thriller político sobre as engrenagens do poder no Egito, Boy from Heaven, que conquistou o prêmio de melhor roteiro, também escrito pelo diretor.

Saleh enfoca o conflito entre a segurança do Estado e o poder religioso, centrando-se no ambiente da Universidade Al-Azhar, tida como o maior centro de teologia islâmica do mundo, no Cairo.

É para lá que se dirige o jovem Adam (Tawfeek Barhom), um filho de pescador que é escolhido para ganhar uma bolsa de estudos. Rapaz simples, ele se torna objeto de disputa do serviço secreto, através da figura do coronel Ibrahim (Fares Fares) - que o chantageia para obrigá-lo a tornar-se espião dentro da universidade, que se prepara para eleger um novo imã que, segundo o regulamento, terá cargo vitalício.

O governo pretende impedir a vitória prevista de um líder que não compartilhe seus pontos de vista, usando informações dadas por Adam. Tawfeek Barhom interpreta com muita propriedade este jovem inocente que vê suas ilusões serem dilapidadas dia a dia num ambiente de intrigas em que ele é manipulado no seu limite.

Vivendo fora do Egito e tendo tido seu filme anterior, The Nile Hilton Incident, proibido naquele país, Tarek esforça-se para compor um panorama multifacetado de uma realidade que, em muitos sentidos, nos escapa, pontuando também as rivalidades dentro da universidade, com a presença de um grupo radicalizado, que assusta os demais alunos por suas atitudes eventualmente violentas contra aqueles que criam obstáculos em seu caminho.

No final, parece tratar-se de uma boa aproximação a uma realidade que a gente em geral desconhece, por um diretor que tem um mínimo de conexão com ela, embora faça o filme de fora do país. Dentro dele, afinal, ele não poderia fazê-lo. E, em entrevistas, como uma recente à Variety, Salek destacou ter feito uma extensa pesquisa com imãs para dar conta da máxima fidelidade possível ao ambiente desta universidade - que, logo de início, o filme destaca que foi alvo de tentativas de controle por parte de diversos governos egípcios, sem sucesso, garante-se. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
22/10/22 - 14:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 1
25/10/22 - 14:00
Cinesesc

























31/10/22 - 18:50
Cinemateca - Sala Grande Otelo






1/11/22 - 19:00


Carvão
O mundo onde vivem os personagens de Carvão, primeiro longa de Carolina Markowicz, uma premiada diretora de curtas, é moldado por uma moral ambígua e fluida, que se adapta aos interesses de cada pessoa. De certa forma, é um retrato do Brasil contemporâneo, que foi se concretizando na medida em que a cineasta escrevia o roteiro ao longo dos últimos sete anos.

“O filme começou a ser escrito em 2014 e, desde então, sempre estive trabalhando nele. De certa forma, os acontecimentos no país iam se refletindo na história, que acabou sendo uma representação do momento em que vivemos”, conta a diretora em entrevista ao Cineweb.

Carvão traz como protagonista Irene (Maeve Jinkings), que vive com o marido (Rômulo Braga) e filho pequeno (Jean Costa), numa cidadezinha do interior, onde têm uma pequena carvoaria, e também faz alguns outros trabalhos, como cozinhar para fora. Há também seu pai doente, que mal sai da cama. A família recebe uma proposta tentadora, que envolve um ato de violência, e também dar hospedagem a um argentino misterioso, interpretado por César Bordón.

A vida não apenas da família, mas de toda a comunidade, muda a partir desse arranjo, marcado por atos extremos e uma tensão que marca todo o filme. Markowicz explica que Carvão é protagonizado por aquelas típicas figuras do presente: a família tradicional brasileira, que se mostra muito moralista, mas esconde segredos.

“O roteiro foi mudando muito ao longo dos anos, e acaba mostrando um ciclo de violência num país dos absurdos. É tudo muito contraditório, e o absurdo deixa de ser absurdo com as coisas que o presidente fala, por exemplo. Não há ninguém bom no filme.”

Carvão foi triplamente premiado no Festival do Rio, dando à diretora o troféu Redentor de melhor roteiro – além de direção de arte, e atriz coadjuvante, para a alagoana Aline Marta –, o que foi uma grande conquista para Markowicz, que vê o roteiro como a alma do filme. Ela diz que em seus seis curtas e no longa, escreve as histórias que gostaria de ver no cinema, e que o objetivo central de seus trabalhos é contar uma boa história.

“O prêmio de roteiro é muito importante, pois a história é sempre o que pauta as outras decisões. Levo tudo muito a sério, fotografia, direção de arte, mas tudo tem que estar em função dos personagens e da história que a gente quer contar. Por isso o roteiro para mim representa essa narrativa que é contada. Fico muito feliz que a história que conto em Carvão se conectou com as pessoas.”

O longa fez sua estreia mundial em setembro passado, no Festival de Toronto, e a diretora comenta que o público estrangeiro também respondeu muito bem. “Havia a curiosidade se as pessoas de fora do Brasil compreenderiam como a obra está relacionada ao país. Mas essa onda conservadora é mundial, por isso o filme foi muito bem compreendido.”

As filmagens ocorreram em 2021, em Joanópolis, no interior de São Paulo, uma cidade próxima à qual a diretora cresceu. Ela conta conhecer bem esse ambiente rural e retrógrado. “Lá, vivenciei tudo o que uma pequena cidade conservadora pode oferecer: pessoas cuidando da vida umas das outras, famílias unidas pelo fato de que ‘a família deve ficar unida’, casamentos onde os casais quase se odiavam (mas como é vergonhoso ser solteiro, vamos manter o status quo!). E claro: você pode ser um assassino, mas por favor não seja gay.”

O menino Jean Costa, que faz o filho do casal, é um morador da cidade que nunca cogitou ser ator. Como ele é uma presença natural em cena, Markowicz explica que precisou encontrar um equilíbrio entre ele e os atores profissionais – em especial com Jinkings, com quem ele divide muitas cenas.

“Foi uma troca muito bonita, porque ela o ajudou muito nas questões técnicas, na atuação, e ele a ajudou com coisas da cidade, como as pessoas vivem, como se portam. Os pais dele também têm uma pequena carvoaria, como os personagens, e ele mostrou para a gente como certas coisas funcionam na produção de carvão.” (Alysson Oliveira)

Vão Livre do Masp -

















22/10/22 - 19:30
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1 - 31/10/22 - 14:00


O Clube dos Anjos
O cineasta carioca, estreante em longas, Angelo Defanti, adapta romance homônimo de Luis Fernando Verissimo, reconstruindo a história de um clube de amigos que se encontram mensalmente para comer. Eles se conhecem desde garotos de escola, quando sua iguaria máxima era um picadinho com arroz e farofa de ovo. Décadas depois, todos eles sendo parte de uma elite econômica que não precisa preocupar-se com os gastos, eles competem para oferecer uns aos outros banquetes regados a caros vinhos e champanhes.

Um dia, apresenta-se a um deles, Daniel (Otávio Muller), um estranho, Lucídio (Matheus Nachtergaele), que logo demonstra altos conhecimentos culinários e rapidamente se torna seu cozinheiro Mas, junto com ele, introduz-se uma ameaça: a cada encontro, um deles morre, desencadeando um jogo sinistro que, por alguma razão, eles não interrompem.

É uma trama interessante, que colhe inspirações, guardadas as devidas proporções, com filmes do passado juntando comida e morte: como A Comilança, de Marco Ferreri, ou O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, de Peter Greenaway, mas preservando o seu espaço próprio.

Uma peculiaridade altamente favorável é este elenco, verdadeiramente magistral, integrado por Augusto Madeira, César Mello, Ângelo Antônio, Marco Ricca, Paulo Miklos, André Abujamra (que assina também a trilha musical). Embora o protagonista seja Otávio Muller, a participação de cada um dos outros é essencial ao funcionamento desta orquestra sombria, num gênero de suspense que o cinema brasileiro não costuma frequentar muito e em que este diretor estreante se arrisca com considerável êxito.


E humor, para quem espera de uma história adaptada de Verissimo, quando há, é negríssimo. Exatamente como no livro. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema - Augusta sala 1
23/10/22 - 20:15
Cineclube Cortina


















1/11/22 - 21:20


Bratan
Exibido em cópia restaurada na Mostra, o clássico soviético Bratan, do tajique Bakhtyar Khudojnazarov (Luna Papa), é uma comédia melancólica marcada por sua fotografia em preto e branco, assinada por Georgi Dzalayev. Primeiro filme do cineasta, que morreu em 2015, este é um dos últimos longas produzidos na União Soviética, lançado em 1991.

Farukh (Firus Sasaliyev), de 17 anos, e seu irmão caçula, conhecido como Panqueca (Timur Tursunov), são os protagonistas desse road movie num trem, no qual eles viajam do vilarejo onde moram para se encontrar com o pai, um médico que vive com a namorada e não se interessa por eles.

Por meio dessa viagem, ora lúdica, ora melancólica, Khudojnazarov, que assina o roteiro com Leonid Makhkamov, faz um retrato de um país marcado pela pobreza, mas, também, por um espírito de resiliência de seu povo. Eles estão num trem de carga e viajam na cabine do maquinista, uma figura cômica e de grande coração.

A partir da relação afetuosa entre os dois irmãos, Khudojnazarov traça um panorama social, à medida que o trem atravessa o país. É interessante também como, formalmente, o diretor capta os tempos de mudança. Há aqui o rigor e a ambição do cinema soviético, mas a narrativa é pautada por relações de afeto. O resultado é um filme emotivo sem ser indulgente, sem cair na obviedade, fazendo o retrato de pessoas comuns em momentos de grandes mudanças históricas. (Alysson Oliveira)

Cine Marquise Sala 2 -












22/10/22 - 20:40
Instituo Moreira Salles Paulista -





23/10/22 - 16:10
Circuito Spcine Lima Barreto – CCSP - 26/10/22 - 20:00


Pedro
O realismo quase documental do cineasta indiano Natesh Hegde é o destaque neste seu longa de estreia. O protagonista é o personagem-título, interpretado por Gopal Hegde, pai do diretor, um eletricista alienado e passivo, que acidentalmente mata uma vaca.

Pedro fala pouco e bebe demais, como praticamente todos os homens que ele conhece no vilarejo, incluindo seu irmão. Ainda assim, o personagem tem momentos mais emotivos, quando deixa sentimentos mais ternos aflorarem, seja cuidando do sobrinho pequeno, ou chorando a morte de seu cachorro. Ao matar uma vaca, no entanto, ele se torna um pária naquele lugar.

Hegde, que também assina o roteiro e a montagem (dividida com Paresh Kamdar) tem um olhar interessante sobre a sociedade indiana, destacando as estruturas sociais de poder e opressão que fazem de Pedro essa figura triste e isolada que ele é. Há uma violência, nem sempre explícita, que também marca as relações sociais e até familiares.

O espaço também é um elemento fundamental em Pedro. Um vilarejo cercado de florestas, onde as chuvas das monções parecem jamais se dissipar. Mesmo sendo um ambiente aberto, ao ar livre, a sensação é de claustrofobia, reflexo da vida social e emocional das personagens. (Alysson Oliveira)

Espaço Itaú de Cinema – Augusta Anexo 4 -

22/10/22 - 16:00
Cine Marquise Sala 2 -


















28/10/22 - 19:30
Circuito Spcine Lima Barreto – CCSP -





1/11/22 - 18:00