21/07/2026

Histórias de infância, questões de gênero e a música imortal de Louis Armstrong


Tchaikovsky’s Wife
Participante da competição em Cannes 2022, Tchaikovsky’s Wife), do russo Kirill Serebrennikov, inseriu uma nota sombria nesta livre cinebiografia, resgatando a figura bastante desconhecida da mulher do compositor Piotr Tchaikovsky (Odin Biron), Antonina Miliukova (a impressionante Alena Mikhailova).


A jovem e miúda atriz Alena Mikhailova, na tela, lembra muito, na figura e na intensidade, a falecida Romy Schneider, impregnando sua atuação de um rastro de luz e sombra para encarnar uma personagem basicamente enlouquecida. Não se trata exatamente das verdades e mentiras de um casal, mas de um par unido pelo acidente de seus equívocos - Antonina, por sua obsessão em casar-se com Tchaikovsky e o compositor, por ter vacilado ao aceitar este casamento, possivelmente como um disfarce para a sua própria homossexualidade, condição altamente problemática na Rússia do século XIX.

Que a homossexualidade continue a ser estigmatizada na Rússia quase dois séculos depois é detalhe que certamente esteve em primeiro plano no interesse do engajado Serebrennikov em filmar esta história - ele que, há cinco anos atrás, não pôde deixar seu país e participar de Cannes, onde competiu em 2015 com seu drama Verão (Leto), nem em 2021, quando Petrov’s Flu foi igualmente selecionado. Desde 2017, o cineasta tinha problemas com a justiça russa, aparentemente por suas divergências do governo Vladimir Putin, sendo acusado de fraudes na organização de um festival de teatro que organizava. Por conta disso, foi alvo de uma condenação a 3 anos de prisão, cumprindo prisão domiciliar, cuja sentença foi primeiro suspensa, depois anulada por um tribunal de Moscou, já em 2022. Resolvida a pendência judicial, Serebrennikov exilou-se na Alemanha.

A alusão à homossexualidade de Tchaikovsky, aliás, foi também um motivo a que o filme não fosse financiado pelos mecanismos estatais de financiamento e sim a formas independentes, dentro de fora da Rússia. Segundo o diretor afirmou em diversas entrevistas recentes, as autoridades queriam que ele filmasse um “Tchaikovsky heterossexual”.

À parte a ousadia de remexer na imagem de um monstro sagrado da música, requer muito talento entrar no espírito de uma época diferente da sua para compor o arco de emoções dos personagens de outro tempo de modo a que pareçam realmente vibrar na tela, com suas emoções e contradições. E isso Serebrennikov consegue mediante não só um roteiro encorpado e denso, assinado por ele mesmo, como por sequências admiráveis construídas com a parceria de seu diretor de fotografia Vladislav Opelyants, muitas delas surreais e de uma intensa beleza - como um balé insano entre Antonina e vários homens numa casa vazia e a composição de uma foto dela com o marido, que se repete duas vezes no filme, de uma forma radicalmente oposta. Todas essas cenas e os achados nas elipses, no figurino, nos cenários, contribuem para que o filme corresponda às boas expectativas em torno deste talentoso diretor.
(Neusa Barbosa)

Cine Marquise - sala 1














26/10/22 - 18:00
Reserva Cultural - sala 1












29/10/22 - 16:15
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
02/11/22 - 20:30


Armageddon Time
O norte-americano James Gray entrega em Armageddon Time um drama não só autobiográfico e intimista, como delineia no enredo o acirramento do conservadorismo nos EUA. O filme une, assim, o melhor de dois mundos, o particular e o social, numa história ambientada nos anos 1980 que demonstra a maturidade do diretor de 53 anos e tem no elenco um de seus maiores trunfos, aí incluídos os dois mais jovens, Banks Repeta e Jaylin Webb.

O protagonista e alter ego de Gray é Paul Graff (Banks Repeta), um garoto de 13 anos, de classe média, numa família judaica cheia de afeto e contradições. Os pais dele são interpretados com brio por Anne Hathaway e Jeremy Strong, paradigmas de filhos de imigrantes que lutam bravamente para a ascensão social dos filhos através da educação. O avô, interpretado por Anthony Hopkins, representa a nota de afeto mais encorajadora para o garoto Paul, que desenha e sonha tornar-se artista.

A realidade bate à porta na escola pública que ele frequenta, quando se torna amigo de um menino negro, Johnny Davis (Jaylin Webb, extraordinário). Vivendo com a avó em condições muito precárias, Johnny vive literalmente na pele as exceções sociais que levam à exclusão dos afro-americanos das melhores oportunidades nos EUA - uma situação que perdura desde sempre.

O filme se refere a essa desigualdade de uma forma orgânica, através desta amizade sincera entre os dois garotos que, finalmente, tomam rumos separados e vivem um episódio traumático - que abre uma brecha para falar das escolhas difíceis da vida e a um debate ético devastador. De outro lado, Gray insere o contexto dos anos 1980, a era de ascensão de Ronald Reagan, que prepara outra ascensão futura de Donald Trump - cuja família, aliás, exerce uma influência profunda e perniciosa na escola particular que futuramente Paul será forçado a cursar.

Esse contraste entre uma elite branca e preconceituosa e as aflições sociais de Johnny - percebidas com sensibilidade por Paul - formam uma das camadas mais viscerais de um filme que cresce quanto mais se pensa nele. (Neusa Barbosa)

Cine Marquise - sala 1














26/10/22 - 21:00
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 1
01/11/22 - 21:10
Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
02/11/22 - 16:00


Os anos do super 8
Recém-ganhadora do Nobel em Literatura, a francesa Annie Ernaux começou a ser descoberta fora da França – especialmente no Brasil – há pouco tempo. Sua obra consiste em livros de memórias, nos quais combina acontecimentos e experiências pessoais com questões sociais e políticas. Um dos mais famosos é O Acontecimento, adaptado para o cinema por Audrey Diwan e vencedor do Leão de Ouro em Veneza 2021.

Em Os anos do super 8, que ela dirige com seu filho David Ernaux-Briot, a escritora leva ao cinema o mesmo estilo literário que transforma o pessoal em político, partindo de filmagens caseiras que realizou nos anos de 1970. Na época, seus dois filhos eram pequenos e ela ainda era casada com o pai deles, Philippe Ernaux, de quem se separou em 1980.

A voz da escritora, tranquila e doce, narra as imagens mas, obviamente, há algo para além de apenas dizer o que está acontecendo na tela. O começo é o retrato de uma pequena e jovem família, primeiro em Annecy, depois em Cergy-Pontoise. Annie, vivendo com o marido, os filhos e a mãe viúva, tenta encontrar sua emancipação como mulher.

Da dinâmica doméstica, compreendemos como os papeis sociais estavam em mudança, comparando a vida da mãe de Annie com a dela própria naquele momento. As viagens internacionais que seguem são, também, um retrato do mundo em transformação. Em 1972, o Chile, uma entrevista com Salvador Allende (não filmada), depois vieram lugares como Tânger, Portugal, Albânia, Moscou.

Ao mesmo tempo, a França está em transição: de Georges Pompidou a François Mitterrand. Em sua vida pessoal, Ernaux aspira a ser uma escritora. Ela publica seu primeiro livro em 1974. Uma de suas obras-primas, Os anos, seria lançado apenas em 1983, dois anos depois das últimas filmagens, quando o casamento acabou e, na divisão dos bens, o marido ficou com a câmera. Mas Os anos do super 8 carregam a mesma estrutura em especial desse livro, a clara dança dos fatos históricos e como (ou não) reverberam em nossas vidas pessoais, e o que fazemos disso. (Alysson Oliveira)

Cinemateca – Sala Grande Otelo -





26/10/22 - 21:20
Cine Marquise Sala 1 -















27/10/22 - 14:00
Cinesesc -

























28/10/22 - 15:50
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 2 -
30/10/22 - 20:40


Espaço Itaú de Cinema - Augusta sala 1
26/10/22 - 21:20
Cine Marquise - sala 1
















1/11/22 - 14:00


Um homem
Parte da seleção da Quinzena dos Realizadores de Cannes 2022, o longa de estreia do diretor colombiano Fabián Hernández é um mergulho profundo nas impossibilidades da vida do adolescente Carlos (o ótimo estreante Dilan Felipe Ramírez Espitia). Com a mãe presa, ele mora num abrigo em Bogotá, dividindo o espaço com outros garotos pobres e sem reais possibilidades de estudo, trabalho e inserção social.

De sua família fraturada faz parte sua irmã mais velha, Nicole (Juanita Carrillo Ortiz), que vive da prostituição. Ele tenta estabelecer, com ela, algum laço afetivo, mas a própria vida que levam não permite muito contato. Nicole desaparece de tempos em tempos e Carlos não tem muita alternativa para sobreviver senão tornar-se traficante dentro do próprio abrigo onde mora.

Com uma câmera sempre muito próxima de seu protagonista - trabalho de Sofia Oggioni -, Um Homem explora os dilemas da formação de identidade deste garoto, largado no mundo e apenas com modelos de masculinidade tóxica e violenta à sua disposição para aprender formas de sobrevivência, num contexto de pobreza e abandono social.
Ainda assim, Carlos luta com seus sentimentos, procurando retomar vínculos com a mãe - com quem tem uma dolorida conversa ao telefone - e essa irmã, tão excluída quanto ele. O sonho singelo dele é passar o Natal com as duas mas mesmo isto parece uma empreitada grande demais.

Filme de estreante, Um Homem mostra vitalidade e compromisso social e acerta em cheio na composição nuançada de seu protagonista. Poderia desenvolver um pouco mais a personagem de sua irmã, mas isto é um defeito menor numa produção que promete maturidade adiante para este novo diretor. (Neusa Barbosa)

Instituto Moreira Salles - Paulista









26/10/22 - 14:00
(ÚLTIMA SESSÃO)
Disponível na plataforma SpCine Play até


2/11 - limite: 800 visualizações (grátis)


Louis Armstrong’s Black & Blues
O documentário de Sacha Jenkins tem o mérito de não só lembrar as imensas qualidades e o pioneirismo do talentoso cantor e trompetista Louis Armstrong (1901-1971) como desafiar
preconceitos que recaíram sobre sua figura ao longo dos anos - especialmente aqueles relativos à sua suposta falta de militância política pelos direitos dos afro-americanos.

O imenso sorriso deste músico nascido no começo do século XX em New Orleans, um sobrevivente da pobreza e do racismo da era das leis segregacionistas de Jim Crow, muitas vezes foi confundido com uma submissão aos brancos, uma falta de engajamento com sua raça. Jenkins explora esta imagem e a demole, especialmente a partir de observações da viúva do trompetista, Lucille, de depoimentos magistrais de dois artistas negros que, na juventude, o desprezaram por isso - o ator Ossie Davis e o músico Wynton Marsalis - e também por algumas gravações que o próprio Armstrong fez de suas opiniões.

Uma das descobertas deste filme, aliás, é este rico acervo de gravações que o trompetista fazia de conversas e declarações dele mesmo e de amigos, constituindo um rico acervo possivelmente ainda não completamente explorado pelos pesquisadores.

No mais, o documentário apóia-se na montagem criativa de Jason Pollard e Alma Herrera-Pazmiño, que recorrem a recursos multimídia para valorizar os muitos materiais de arquivo que constituem o cerne do filme - valendo-se, por exemplo, de efeitos visuais para destacar fotos e transformar as declarações em off em letras de jornais escorrendo pela tela, o que ajuda inclusive a acompanhar o que está sendo dito.

No mais, a simpatia e o talento do personagem mais do que falam por si em suas inúmeras apresentações e entrevistas, deixando à mostra uma sensibilidade e inteligência exemplares que eram parte indissociável na composição de um dos artistas merecidamente mais populares do mundo. Na sessão a que assisti, no domingo (23/10), o público aplaudiu entusiasticamente ao final da projeção, como se se tratasse de um show. Foi quase isso. (Neusa Barbosa)

Espaço Itaú de Cinema - Frei Caneca 2
26/10/22 - 20:00
(ÚLTIMA SESSÃO)


Benção
Depois de realizar um filme sobre a poeta norte-americana Emily Dickinson, Terence Davies assina um novo longa sobre outro poeta – agora o inglês Siegfried Sassoon. Com o rigor formal e o olhar terno que lhe são comuns, o cineasta inglês investiga como o pessoal se transforma em arte, e vice-versa. Em Benção, o escritor é interpretado por Jack Lowden na juventude, e Peter Capaldi, na maturidade.

Davies, que também assina o roteiro, concentra-se nas experiências de Sassoon na I Guerra, nas mortes que viu no front e que marcariam sua vida, e também nos relacionamentos homossexuais com homens egocêntricos e narcisistas – em especial, com o artista Ivor Novello (Jeremy Irvine).

O que Benção melhor capta é como Sassoon foi capaz de exprimir em sua obra não apenas suas angústias pessoais, mas também a tragédia da guerra e como isso afetou toda sua geração. Davies traz ao filme poemas que ilustram bem essa relação, que acabam iluminando a vida do escritor e também a narrativa.

A maneira como Davies começa o filme é propositadamente desorientadora, e leva um pouco de tempo para se ajustar. É num hospital de guerra, onde o protagonista é internado por problemas psiquiátricos, que conhece o também poeta Wilfred Owen (Matthew Tennyson), por quem terá seus primeiros sentimentos amorosos.

O que seguirá nos próximos anos serão diversos casos com homens – geralmente do meio artístico – que o filme retrata como centrais na vida do poeta, e moldarão sua personalidade. Anos mais tarde, ele se casará com Hester Gatty ?(Kate Phillips e Gemma Jones), e terá um filho, George (Richard Goulding). A narrativa de Benção vai e volta no tempo, trazendo ecos e reflexos dos relacionamentos do protagonista, e também a relação um tanto tensa com o filho.

Benção, de certa forma, remete aos primeiros filmes de Davies, a trilogia autobiográfica, composta por três curtas, realizados entre 1973 e 1986. Nela, o diretor resgata experiências de sua juventude, sua descoberta e auto-aceitação como homossexual. Sassoon tem menos angústias nesse sentido mas, para ambos, a arte se mostra como uma benção redentora. (Alysson Oliveira)

Espaço Itaú de Cinema – Augusta sala 1 - 26/10/22 - 16:20
Reserva Cultural – sala 1 -












28/10/22 - 16:30