05/06/2026

Mostra começa com premiados e descobertas

O primeiro dia de programação normal da Mostra, nesta quinta (20), reúne premiados em Cannes 2022 (As Oito Montanhas), Berlim (O Filme da Escritora), Sundance (Leonor Jamais Morrerá) e outras descobertas do Irã e da Áustria.


As Oito Montanhas

Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes 2022, o filme tem a Itália no DNA mas, na verdade, é uma coprodução entre esse país, a França e a Bélgica, de onde vêm sua dupla de diretores, Felix von Groeningen e Charlotte Vandermeersh (ela uma atriz estreante na direção).

Falada em italiano, trata-se de uma adaptação bastante sensível do romance homônimo de Paolo Cognetti - traduzido fielmente no Brasil como As Oito Montanhas -, acompanhando diversas etapas da vida de dois amigos, Pietro (adulto, interpretado por Luca Marinelli) e Bruno (Alessandro Borghi). Pietro é o rapaz da cidade, no caso, Turim, Bruno, o rapaz das montanhas onde a família de Pietro aluga uma casa para passar os verões.

As montanhas, no caso, além do cenário, simbolizam os percursos acidentados e exigentes exigidos pela vida para chegar à maturidade. Os diretores, que assinam o roteiro, fazem um bom trabalho na composição dos personagens em suas várias idades, bem como do papel desempenhado pelas duas famílias no destino dos protagonistas.

Aparecem mais os pais de Pietro (Elena Lietti e Filippo Timi), destacando-se a diferença do peso desta figura paterna na vida dos dois rapazes, mais problemática no caso do filho biológico.

Certamente, é um filme que diz muito mais sobre a condição masculina, embora as mulheres exerçam algumas influências pontuais. O foco está nesse processo permanente de aproximação e distanciamento entre dois homens de mentalidades e vivências diferentes mas que permanentemente se reconectam - num olhar filtrado por Pietro, que se torna escritor e o narrador que ocasionalmente se ouve, tornando-se o porta-voz desta memória.

Luca Marinelli firma-se como um dos principais atores da Itália de sua geração, ele que foi visto recentemente em filmes como Uma Questão Pessoal, de Paolo Taviani, e Martin Eden, de Pietro Marcello. Na pele de um personagem cujo turbilhão interior é particularmente mais difícil de transmitir, ele se supera numa capacidade de expressão ao mesmo tempo sutil e intensa.
Fotografado com a mesma sutileza por Ruben Impens, com montagem de Nico Leunen, o filme se ressente um pouco de sua duração - 2h27.
(Neusa Barbosa)

Cine Marquise - sala 1


















20/10/22 - 16:00
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1

01/11/22 - 14:00
Reserva Cultural - sala 1













02/11/22 - 18:40


Os Irmãos de Leila
Concorrente à Palma de Ouro em Cannes, o melodrama do jovem diretor Saeed Roustaee, 32 anos, apresentou um panorama turbulento e dolorido não só de uma família como de um país abalado por desemprego e dificuldades econômicas e sociais profundas - além de uma aguda discussão dos papeis de gênero, a começar pelo título, que destaca a importância da personagem Leila (Taraneh Alidoosti, de Procurando Elly).

Irmã mais velha numa família que inclui outros quatro filhos, ela tem cerca de 40 anos e não se casou. Ela é o centro deste clã, em que o pai, Esmail (Saeed Poursamimi), de 80 anos, exerce uma influência não raro perniciosa, com seus preconceitos e chantagens emocionais.

Os irmãos, todos adultos, gravitam em torno dos pais, especialmente em função da crítica situação econômica do país, especialmente depois que o governo Donald Trump voltou atrás no acordo nuclear do país - uma crítica que aparece diretamente no filme.

O foco, no entanto, está nestas relações disfuncionais dentro da família, deflagradas por uma situação envolvendo o desejo de Esmail de tornar-se o novo patriarca dentro de sua comunidade e o sonho dos irmãos de comprarem uma loja, dando a todos uma perspectiva de independência de todo o atavismo a que estão subordinados pelo desemprego.

Leila é a mulher sólida que decifra as artimanhas do pai para manter o controle sobre os filhos e também aquela que o enfrenta mais diretamente, tornando-se uma personagem marcante dentro do cinema iraniano. Mas o filme revela muitas outras camadas do país, com diversos tipos de especulação, exploração de operários, precariedade nas relações trabalhistas e muito mais. É um trabalho ambicioso e de fôlego, ainda não totalmente maduro em alguns aspectos, mas certamente promissor.

A sequência final é de uma beleza cinematográfica marcante, destacando a fotografia assinada por Hooman Behmanesh. (Neusa Barbosa)

Instituto Moreira Salles - Paulista



20/10/22 - 16:50
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1

23/10/22 - 14:00
Cine Marquise- sala 1


















27/10/22 - 16:10
Cinemateca – Sala Grande Otelo








29/10/22 - 20:00



O Filme da Escritora

Conjugando, mais uma vez, seu minimalismo enganador, que encobre sua sofisticação com uma aparente simplicidade, o cineasta sul-coreano Hong Sang-soo também recorreu ao preto-e-branco - na maior parte do tempo - para construir seu relato em O Filme da Escritora - sua sétima indicação ao Urso de Ouro, culminando em sua terceira premiação com Urso de Prata, com o Grande Prêmio do Júri, somando-se aos recebidos por A Mulher que Fugiu (2020) e Introduction(2021).

Sang-soo reflete sobre a natureza do próprio cinema ao acompanhar os incidentes e encontros fortuitos de uma romancista, Junhee, que num determinado momento resolve que quer fazer um filme com uma atriz famosa que acabou de conhecer, Killsoo (Kim Min-hee, a musa do diretor, que atua em praticamente todos os seus filmes).

Com uma câmera, como de hábito, bastante parada nos personagens, o filme evolui por suas palavras, que instigam a imaginação do espectador a procurar decifrar quem são aquelas pessoas, o que pretendem e que jogo o próprio diretor está tramando com sua história. Aparentemente despretensiosa, a narrativa deixa escapar pequenos “descuidos” técnicos, como uma luz estourada, o som do vento que invade os microfones numa cena externa, sugerindo que o cinema, como a vida, é imperfeito e cheio de acasos. Mais uma pequena joia deste diretor tão instigante.
(Neusa Barbosa)

Cine Marquise - sala 1


















20/10/22 - 21:15
Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca 1

22/10/22 - 16:20
Reserva Cultural - sala 1













27/10/22 - 14:00
Cinesesc






























31/10/22 - 14:00


Sonne

Nascida no Iraque e imigrada para Viena, a diretora estreante Kurdwin Ayub parte de suas próprias experiências para realizar Sonne, filme sobre uma adolescente muçulmana em busca de uma identidade que está fraturada entre uma Áustria secular e a religião.

Ganhador do prêmio GWFF para melhor longa de ficção de estreante no Festival de Berlim, o filme tem como protagonista Yesmin (Melina Benli), filha de iraquianos nascida em Viena que, com uma dupla de amigas - Bella (Law Wallner), parte iugoslava, e a austríaca Nati (Maya Wopienka) – brinca no quarto de seus pais fazendo vídeos com seu iphone – todas usando hijabs da mãe da jovem. Uma versão de Losing My Religion, clássico pop dos anos de 1990, da banda americana REM, gravada pelas garotas se torna viral, tornando-as famosas.

Ayub, que também assina o roteiro, evita os caminhos mais óbvios para sua narrativa. A mãe de Yesmin, Awini (Awini Barwari), irrita-se e se sente ofendida – especialmente pelo uso de suas vestes – mas o pai, Omar (Omar Ayub), fica orgulhoso da filha e a incentiva a seguir seus sonhos e até uma carreira artística, apoiando o trio de adolescentes, que começa a se apresentar em eventos para a comunidade muçulmana da cidade.

Curiosamente, a empreitada das meninas é bem vista por todos, e elas se tornam celebridades locais graças ao talento vocal – a versão delas, à capela, é realmente bem bonita – e presença de palco. Sonne foge da obviedade – não menos importante – de mostrar a opressão das mulheres muçulmanas, mas o interesse de Ayub aqui é outro: uma caldeirão multicultural e, a partir disso, o questionamento da protagonista a respeito de sua própria identidade.

É significativo que a música que elas cantam se chame “Perdendo minha religião”. Mais do que a religião e a fé, a busca do trio de personagens – não apenas de Yesmin – é exatamente sobre o seu lugar no mundo, sobre como construir a sua identidade nessa contemporaneidade marcada pelas redes sociais e o multiculturalismo.

O presente da protagonista, no entanto, não pode ser dissociado do seu passado familiar, daquilo que a trouxe até ali. Sua mãe guarda traumas e memórias profundas de opressão, e uma das cenas mais bonitas do filme é com ela se abrindo com a filha, mostrando que é preciso lidar com o passado para poder viver um presente de plenitude e pensar num futuro livre. (Alysson Oliveira)

Cinemateca – Sala Grande Otelo -
20/10/22 - 17:00
Cine Marquise Sala 1 -
22/10/22 - 16:00
Cinesec - 25/10/22 - 19:10

Streaming Spcine Play (gratuito) de 20 de outubro a 02 de novembro (limite de 800 visualizações)


Leonor jamais morrerá

Vencedor do Prêmio Especial do Júri em Sundance por seu “espírito inovador”, Leonor jamais morrerá é uma festa cinematográfica repleta de energia e vivacidade. Escrito e dirigido pela estreante Martika Ramirez Escobar, o filme filipino é uma brincadeira com o cinema e suas possibilidades.

Belamente interpretada por Sheila Francisco, Leonor é uma importante cineasta filipina que há muito não filma, e agora leva uma vida melancólica desde a morte de seu filho favorito, Ronwaldo (Anthony Falcon). Abandonada pelo marido, um ex-astro de seus filmes, e vivendo com o caçula, Rudie (Bong Cabrera), ela passa por dificuldades financeiras. O técnico de energia chega para cortar a luz, três meses atrasada, mas, ao saber que ela é diretora do filme favorito de sua mãe, o rapaz concede um novo prazo. É assim que ela vive, de alguma glória do passado.

É nesse mundo meio lúdico, um tanto melancólico e realista que Ramirez Escobar situa a trama do longa. Leonor fazia filmes de ação, repletos de tiros, pancadas e bombas, mas há anos não chega perto de um set. A única alegria em sua vida é conversar com o fantasma do filho morto. Porém, quando uma televisão cai da janela de um apartamento e a acerta na cabeça, deixando-a comatosa, a cineasta mergulha num mundo de fantasias onde a realidade e um filme seu inacabado se misturam.

O protagonista do filme-dentro-do-filme também se chama Ronwaldo, e é interpretado pelo modelo filipino Rocky Salumbides. O personagem é um típico herói de filmes de ação, um sujeito simples, mas repleto de boas intenções e força física.

Ramirez Escobar começa aí um jogo de metalinguagem que vai se tornando radical na medida em que a narrativa de Leonor jamais morrerá avança, a ponto da dela mesma e do montador Lawrence S. Ang aparecerem em cena, discutindo como terminar o filme que estamos vendo. E o final é o mais aleatório possível.

Mas mais do que uma paródia ou sátira ao gênero da ação, a cineasta discute algo mais complexo e profundo: políticas de gênero e política em si. Qual a dimensão ficcional de homens construídos sempre como heróis e salvadores? Em seu próprio país, Joseph Estrada foi eleito presidente e governou entre 1998 e 2001, graças à sua carreira na televisão, mas acabou sofrendo um impeachment. Nas últimas eleições no país, neste ano, um dos candidatos da extrema-direita era a estrela do boxe Manny Pacquiao, que acabou perdendo a presidência para Bongbong Marcos, filho do ditador Ferdinand Marcos, também de direita.

Por meio dessa comédia meio alucinada, Ramirez Escobar dá destaque a uma personagem feminina de meia-idade, que pode não ser a heroína que a própria Leonor colocaria num filme, mas que se revela cheia de energia e criatividade – tal qual o longa que protagoniza. (Alysson Oliveira)

Cine Satyros Bijou - 20/10/22 - 14:00
Cine Marquise Sala 2 - 23/10/22 - 17:15
Cinemateca – Sala Grande Otelo - 24/10/22 - 21:15