Brasília encerra exibições com a potência do documentário "A Invenção do Outro"
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 20/11/2022
- Tempo de leitura 9 minutos

Brasília - Guardando uma de suas melhores atrações para o fim, o Festival de Brasília do Cinema Brasíleiro exibiu em sua última noite competitiva, neste sábado (19) o potentíssimo documentário A Invenção do Outro, em que o diretor Bruno Jorge acompanha uma expedição da Funai ao território dos Korubo, em 2019, apoiando a retomada de contato entre dois grupos desta etnia que haviam se separado e tem a liderança do indigenista Bruno Pereira -- assassinado em junho de 2022 nessa mesma região do Vale do Javari com o jornalista inglês Dom Phillips.

A emoção que tomou conta da plateia do Cine Brasília foi imensa - ainda mais com a presença da viúva, Bia Matos, e da filha mais velha de Pereira, Maria - e a sessão terminou não só com prolongados aplausos como com gritos de “Justiça”. O que é o mínimo para se exigir com relação à investigação destas mortes absurdas.
O diretor
Bruno Jorge e a viúva do indigenista Bruno Pereira, Bia Matos. Crédito: Neusa Barbosa
Se há um filme capaz de delinear a importância do trabalho dos indigenistas em geral e de Bruno Pereira em particular, é este. A expedição de 2019 foi a maior das últimas décadas e sua complexidade e delicadeza emergem com força destas imagens, pontuando um trabalho de extremo rigor, realizado por uma equipe que inclui ainda outros indigenistas, mateiros, médico, enfermeira e vários indígenas, alguns deles parentes do grupo Korubo que permaneceu isolado.

Ao assistir ao filme, temos a sensação de termos voltado atrás no tempo, séculos atrás, só que não numa expedição de conquistadores dispostos a subjugar os povos originais e sim um grupo profundamente preparado e empenhado em contatá-los com todo o respeito aos seus costumes, ao seu tempo. São os indígenas que ditam as regras de aproximação que, quando ocorre, explode em manifestações de afeto que nós, brancos da cidade, não costumamos presenciar. Abraços, lágrimas, cantos, danças se sucedem neste reencontro de parentes, que o cineasta Bruno Jorge observa com o mesmo cuidado que o outro Bruno, o Pereira, esse homem tão importante e essencial arrancado com tanta violência do nosso convívio, um profissional tão raro, com um preparo tão especial nessa função de proteção aos indígenas e de tão difícil substituição.
Por tudo isso, o documentário tem a emoção de uma viagem ao princípio do mundo, de chegada a uma terra quase intocada, onde se refugia um pequeno grupo de homens, mulheres e crianças isolados - apenas 34, ao todo - que se preparam para o grande, talvez inevitável contato com o mundo dos brancos. Mas que ali contaram com uma proteção dessa grandeza, que apenas reforça a imprescindível demarcação de seus territórios.
Balanço de tendências
Encerrada a exibição dos filmes concorrentes aos Candangos - cujo anúncio acontece nesta noite de domingo (20 ) -, portanto, identifica-se, a partir desta amostragem da produção nacional uma crise ainda irresolvida na ficção, paralelamente ao vigor e dinamismo dos documentários - que, incorporando técnicas e recursos ficcionais, deram conta de seus temas com muita potência e propriedade.
Um dos filmes mais instigantes da seleção 2022, Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta, assume com vigor sua indefinição de gênero, equilibrando-se na linha fina entre docudrama, fantasia e quase faroeste urbano. Faltam termos para definir o tipo de cinema feito há muito tempo por Queirós, que aqui ganha a parceria com a portuguesa Joana Pimenta, adensando a dimensão etnográfica que percorre a lendária história de Chitara, Léa e Andréa, as rainhas do petróleo de Sol Nascente, periferia brasiliense. Uma lenda que ganha contornos de realidade na pele destas carismáticas atrizes naturais, que emprestam nacos generosos das próprias histórias de exclusão e perdas para nutrir o tecido ficcional de um filme que, com seus excessos - inclusive de duração - fala do Brasil com uma potência sincera e necessária.
Mais documentário lato sensu, outro filme brasiliense, Rumo, de Bruno Victor e Marcus Azevedo, extrai parte de sua força de materiais de arquivo em VHS, que registraram a discussão da implantação da política de cotas da Universidade de Brasília, há cerca de 20 anos, traçando um paralelo com a realidade atual, filtrada pelos depoimentos de personagens da época, como os integrantes do coletivo estudantil Enegrecer. Porções ficcionais pontuam camadas desse filme que fala do todo pela parte, trazendo uma análise sincera de uma das mais importantes lutas contra o racismo no Brasil, à qual até hoje não faltam opositores mas cuja implantação mudou para sempre a paisagem etnorracial das universidades brasileiras, com inegável impacto no resto da sociedade.
Outro documentário lato sensu, Mandado, dos diretores João Paulo Reys e Brenda Melo (RJ), apesar de sua inegável importância e função de atiçar a memória sobre inúmeros fatos dramáticos recentes - Olimpíadas, operações policiais nas favelas cariocas, autoritarismo judicial, impeachment de Dilma Rousseff, ascensão do bolsonarismo e da extrema-direita - ressente-se dos seis anos consumidos em sua execução. Sem dúvida, um tempo justificado pelas dificuldades tremendas de acesso a recursos nestes últimos tempos, mas sem dúvida diminuindo o alcance do filme, em vista de inúmeros desdobramentos nele não captados. Dentre as antigas imagens inesquecíveis, uma lúcida entrevista com Marielle Franco, então uma ativista em comunidades como a da Maré, local que foi alvo preferencial da medida judicial de exceção que dá nome ao filme - que brevemente poderá ser visto na emissora Cine Brasil TV.
As ficções
Parte mais problemática da seleção competitiva de longas, as duas ficções deixam lacunas a desejar. O caso mais problemático, o representante pernambucano Espumas ao Vento, de Taciano Valério, que mistura um tom realista, outro de farsa e algumas doses de cultura popular regional para contar a história de uma trupe de teatro de bonecos cujo destino é atravessado pelas ambições de um pastor pentecostal inescrupuloso (Tavinho Teixeira).
A oportunidade de abordar a impressionante invasão de seitas pentecostais pelos rincões do Brasil e sua feroz guerra anticultural é indiscutível, mas o fato é que o filme pesa no tom nesta caracterização do conflito e não consegue dar conta do restante da trama, em que há conflitos familiares dentro do clã de artistas, liderado por dois velhos irmãos (Everaldo Pontes e Mestre Sebá), integrado ainda pelas duas filhas do primeiro (Rita Carelli e Patricia Niedermeier).
A outra ficção da seleção, o mineiro Canção ao Longe, de Clarissa Campolina, é mais bem-sucedido, numa composição sutil em torno de Jimena (a estreante Mônica Maria), uma jovem entrando na maturidade, lidando com conflitos de sua dependência emocional da mãe e da avó, com quem vive, e de um pai distante, com quem mantém um relacionamento por cartas. Originalmente montadora e passando à codireção em filmes como Girimunho e Enquanto Estivermos Aqui, Campolina é uma diretora hábil na escolha das imagens - há uma belíssima cena de um homem cantando numa janela - que constroem a ambientação de suas histórias com suavidade. A diretora faz um cinema muito subjetivo, interiorizado, mas ao qual, neste filme em particular, falta um pouco mais de energia, uma centelha para produzir mais encantamento e suscitar o envolvimento do espectador.
Curtas
A seleção de curtas desta edição deixou bastante a desejar, encontrando em Big Bang, o ultrapremiado filme do experiente Carlos Segundo, um exemplar muitas notas acima de todos os demais.
Uma grata surpresa foi Escasso, de Clara Anastácia e Gabriela Gaia (RJ), traduzindo, num tom de mockumentary, várias das contradições sociais e políticas do Brasil através da uma personagem impagável, a passeadora de pets Rose (Clara Anastácia), com tiradas irônicas e provocativas que não deixam ninguém indiferente. Clara, aliás, é uma grande revelação.
Destacaram-se, inclusive em termos de realização estética, Calunga Maior, de Thiago Costa (PB) - que poderia ter facilitado um pouco a vida de espectadores não tão versados na cosmologia bantu com um pouco mais de explicações - e especialmente Sethico, de Wagner Montenegro (PE), compondo com suas sobreposições imagéticas uma belíssima viagem poética pelos locais de Recife ligados ao tráfico escravo.
Outro filme importante sobre a temática da africanidade, Nossos Passos Seguirão os Seus, de Uilton Oliveira (RJ), viu prejudicada sua importante intenção de resgatar a figura do ativista anarquista negro Domingos Passos pela falta de acesso a materiais de época que estariam na Cinemateca Brasileira - aos quais o diretor não conseguiu ter acesso, logo após o incêndio na instituição.
São Marino, de Leide Jacob (SP), teve o mérito de ousar virar do avesso a história de uma santa católica, Santa Marina, reinterpretando sua vivência transmasculine num mosteiro no século VI (ela nasceu mulher mas entrou para o mosteiro sob identidade de homem, para não separar-se do pai e assim morreu, quando isso foi descoberto). A presença do padre Júlio Lancellotti na narração, como um setor progressista da Igreja que se dispõe a abraçar esse tipo de discussão, é uma camada preciosa do filme em tempos em que as religiões têm se mostrado tão dispostas ao imobilismo e a movimentos retrógrados.
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