O cinema negro ocupa o seu espaço
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 17/11/2022
- Tempo de leitura 3 minutos

Brasília - A terceira noite do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi inteiramente dedicada a várias expressões do cinema negro, no longa Rumo, de Bruno Victor e Marcus Azevedo (DF), e nos dois curtas, o paraibano Calunga Maior, de Thiago Costa, e o pernambucano Sethico, de Wagner Figueiredo. Uma ocupação de espaço que não pede licença e afirma a diversidade nas telas de uma maneira compacta e artisticamente relevante.
Fazendo um balanço da implantação da política de cotas raciais na Universidade de Brasília, o documentário brasiliense Rumo usa de maneira criativa as vivências registradas nos preciosos arquivos filmados pelo coletivo estudantil Enegrecer, que acompanhou as discussões sobre a introdução dessa política desde meados de 2002 e 2003. Arquivos preciosos, realmente, já que, segundo os diretores no debate do filme nesta manhã, não existiam mais registros destas reuniões do Conselho de Ensino e Pesquisa na própria universidade.

Dessas imagens, emergem trechos dos acalorados embates da época, que são confrontados com depoimentos atuais de diversos integrantes do coletivo, alguns deles professores na mesma universidade, permitindo ao filme fornecer um dos retratos mais vívidos dessa política de inclusão social e racial que vem sendo uma das batalhas mais acirradas em torno de políticas públicas adotadas pelos governos petistas.
A partir do documentário, pode-se também avaliar a mudança já observada nestes quase 20 anos, com uma mudança na paisagem humana das universidades, como a UnB, registrando-se um notável aumento na presença de alunos afrodescendentes que não existia de modo algum quando a política começou a ser pensada. Como lembra uma das entrevistadas no filme, Lia Maria, havia pouquíssimos alunos negros naquela universidade, sendo que boa parte deles eram africanos participantes de programas de intercâmbio.
Apesar dos progressos, o diretor Bruno Victor comenta que há muito ainda a ser aperfeiçoado. Ele recorda que a disciplina Cinema Negro foi dada na UnB “de forma voluntária” pela professora Edileusa Penha de Souza, não integrando ainda a grade curricular. Fora isso, ele destaca que o filme O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith (1915), é analisado dentro do curso de História de Cinema apenas pela perspectiva de sua criativa montagem, “deixando-se de problematizar que ali se mostra o nascimento da Ku Klux Kan”.
Curtas
Outras perspectivas de história e memória afrodescendentes percorreram os dois curtas da noite. Sethico, de Wagner Montenegro (PE), procura ressignificar diversos locais da cidade do Recife ligados ao tráfico dos escravos através de uma criativa sobreposição de imagens, que acompanha uma figura mítica, ostentando uma máscara africana, que percorre a cidade num barco, pelo rio Capiberibe, e as ruas.
Essa máscara, segundo explicou o diretor no debate, pertence a uma etnia subsaariana, a Fang, e foi escolhida no acervo de um colecionador de Recife. A ideia do diretor é que essa figura represente Seth, o deus africano do caos, que leva as almas ao paraíso.
O outro curta, Calunga Maior, de Thiago Costa (PB), inspirou-se no cosmograma bantu para criar uma história que acompanha uma jovem escritora, Ana (Mari Miguel), que vai ao encontro de suas origens, retomando uma ligação com a mãe e a avó de uma forma onírica. “Calunga”, como explicou o diretor, é a linha que divide os mundos físico e espiritual e também por onde se acessa o mundo dos mortos.
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