A arte popular enfrenta o fanatismo religioso e mercenário em Brasília
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 16/11/2022
- Tempo de leitura 3 minutos

Brasília - Um mergulho na cultura popular de Caruaru (PE) com um viés de crítica a uma invasão pentecostal espetacularizada atravessa o longa Espumas ao Vento, de Taciano Valério, concorrente exibido na segunda noite do festival.
O sexto longa do diretor paraibano radicado em Pernambuco foi, como ele lembrou no debate do filme hoje (16/11), tumultuado pela pandemia, que vitimou técnico da equipe e acabou também sendo incorporado simbolicamente à ficção, com a morte de dois personagens.
O roteiro, assinado por Valério e Vanderson Santos, focaliza uma trupe de artistas do popular teatro de bonecos caruaruense, liderados por Everaldo Pontes e mestre Sebá - este um artista verdadeiro daquela cidade. Fazem parte da trupe as duas filhas do primeiro, Manu (Rita Carelli)e Aninha (Patrícia Niedermeier), que têm sentimentos divergentes sobre a continuidade desta vida um tanto quanto mambembe.

Mas o que realmente atravessa a sobrevivência da trupe é a intervenção de um pastor pentecostal ambicioso (Tavinho Teixeira), que se vale de performances de possessão para manipular seus fiéis e também da fraqueza de um deles (Odécio Antonio) para, finalmente, provocar uma tragédia na família de artistas.
No debate, o diretor reiterou sua intenção de abordar no filme o que ele chama de “abuso religioso”. Ele se refere a pastores pentecostais mercenários, cujo objetivo seria apenas ganhar dinheiro mediante uma manipulação da fé e que, “comprando os locais onde funcionavam os antigos cinemas, colocaram um espetáculo no lugar de outro espetáculo”. Com isso, ele quer dizer as encenações de possessão que ocorrem em algumas igrejas e são denunciadas por antigos fiéis. Para Valério, “alguns dizem que há exagero no filme, mas não é, isso acontece mesmo”.
Outro aspecto da narrativa é seu caráter de farsa, que se vale das experiências de atores como Odécio Antonio e Rita Carelli como palhaços, valendo-se de uma interpretação física e maquiagens que lembram os bonecos do mamulengo típico do interior pernambucano.

O diretor Taciano Valério,
de "Espumas ao Vento"
Curtas
O curta Nossos Passos Seguirão os Seus, de Uilton Oliveira (RJ), resgata a figura de Domingos Passos, um militante anarquista negro do começo do século XX cuja trajetória é pouco conhecida. O diretor destacou que recorreu a uma linguagem experimental e poética, entre outros motivos, também por não ter sido possível examinar materiais que estariam na Cinemateca Brasileira porque, naquele momento, ela estava fechada.

Basicamente, Oliveira pôde reconstruir parte dos movimentos de Domingos Passos através da imprensa operária de S.Paulo nos anos 1920, acompanhando alguns episódios da vida deste que foi chamado de “Bakunin brasileiro”, foi preso diversas vezes, deportado para Oiapoque, escapando para a Guiana Francesa, mas retornando ao Rio e a São Paulo, desaparecendo depois de mais uma prisão e do abandono na mata, para que morresse. Uma das intenções do diretor com o filme foi enfrentar o apagamento das figuras de anarquistas negros e indígenas, num contexto em que
a atuação dos italianos é bem mais conhecida, sendo objeto de vários livros e de filmes como Libertários, de Lauro Escorel.
Uilton Oliveira, diretor do curta "Nossos passos seguirão os seus"
Anticena, de Marisa Arraes e Tom Motta (DF), por sua vez, envereda pelos caminhos da metalinguagem para construir as experiências de uma jovem documentarista tentando acompanhar o processo artístico de Jonathan, um entregador de aplicativos que faz filmes durante o serviço e cujo caminho se cruza com o de Wesley, um cozinheiro desempregado.
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