05/06/2026

Brasília dá a largada reafirmando a política


Brasília - Não poderia ser mais animada a noite de abertura do 55o. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que marcou a volta às sessões presenciais no Cine Brasília, depois de dois anos em formato digital, por conta da pandemia, e foi marcada por manifestações políticas - como a do secretário da cultura e economia criativa do DF, Bartolomeu Rodrigues, que defendeu a importância do estado democrático de direito e concluiu: “Ditadura nunca mais”, sendo aplaudidíssimo pela plateia


Além de muitos abraços e das homenagens ao cineasta Jorge Bodanzky, ao curador e pesquisador Hernani Hefner (medalha Paulo Emílio Salles Gomes) e ao técnico Manoel Messias Filho (prêmio ABCV), os filmes da noite inicial da competição sacudiram a tela com sua conexão com as realidades múltiplas de um Brasil que luta para renascer: o longa Mato Seco em Chamas (foto), de Adirley Queirós e Joana Pimenta, e os curtas Big Bang, de Carlos Segundo, e Ave Maria, de Pê Moreira.

Gritos da periferia
Exibido anteriormente nos festivais de Berlim, Cinéma du Réel, Indie Lisboa e outros, Mato Seco em Chamas enfeixa as contradições de um Brasil que vibra nas periferias ao criar a história de um trio de mulheres, Chitara (Joana Darc), Léa (Léa Alves) e Andreia (Andreia Vieira), que comanda um negócio gasolineiro em Sol Nascente, nos arredores de Brasília.

É o grito da periferia que arranca espaço para ser ouvida na marra, criando um modo de economia paralela, que só pode ser implantado à custa de transgressões, inclusive ao aparato legal, que serve ao poder. Tudo isso, filtrado por uma camada de fantasia, de ficção científica, tão cara ao estilo de Adirley Queirós (diretor de Branco Sai, Preto Fica e Era uma Vez Brasília), que só ressalta o absurdo da realidade concreta de que o filme é metáfora poderosa.

Outra marca do cinema de Queirós, aqui dividindo a direção com a portuguesa Joana Pimenta (que assina a fotografia aqui, como há 8 anos atrás, em Era uma vez Brasília), é essa mistura entre ficção e documentário, entrelaçados sem fronteiras, se alimentando um do outro - especialmente, das histórias de vida das protagonistas, sem que com isso deixe de haver recriação, ficcionalização, com uma potência dramática impressionante por parte dessas carismáticas atrizes não profissionais que, na tela, comandam um grupo de motoqueiros, cujas “motociatas” invertem completamente o sentido daquelas realizadas pelo presidente da república, numa afirmação de energia do povo oprimido.

No debate do filme, a diretora Joana Pimenta ressaltou que as filmagens de Mato Seco em Chamas duraram 18 meses - um reflexo de um processo que partiu de “uma linha de roteiro”, como disse Adirley, e foi atravessado por inúmeros percalços do real. Um deles, a pandemia, que foi, de certa forma, antecipada numa primeira versão da história, que incluía um certo vírus presente no petróleo encontrado pelas mulheres.

Joana destaca que essa demora decorre mais do processo de trabalho entre ela e Adirley, de “busca de chegar ao real, deixando o filme aberto ao acaso”, o que inclui inúmeros questionamentos mútuos, com a participação criativa do resto da equipe. Adirley completa que “não havia compromisso com uma estrutura e sim com a liberdade de errar muito”.

Performances verde-amarelas
Uma sequência documental incluída no filme que causa um certo ruído, perto do final, é a filmagem de uma manifestação bolsonarista. Adirley explica que isso não foi planejado, foi outro acaso e que ele teve que mentir para os manifestantes que era uma filmagem de uma emissora alemã para continuar circulando entre eles. No final, ele pensa que foi útil integrar no filme “um outro corpo político”, chamando a atenção para o aspecto de performance dos bolsonaristas: “Pelas conversas que se ouve entre eles, vemos que eles também estão interpretando para a câmera”.

O diretor acrescenta que “o golpe contra a Dilma também ocorreu por causa do petróleo. A gente esqueceu isso”.
A montagem, de Cristina Amaral, por sua vez, foi ditada pela memória do que foi filmado. “Não queríamos um modelo de filmagem que limpe tudo. Queremos mostrar que outro cinema é possível”. Joana, por sua vez, diz: “Queremos desconstruir a performance da técnica”.

Curtas
Premiado anteriormente em Locarno e no Cine Ceará, Big Bang, de Carlos Segundo (MG/RN), discute exclusão social e revolta a partir da história de Chico (Giovanni Venturini), um homem que sofre de nanismo e vive do conserto de fogões. Invisibilizado socialmente e também por conta da deficiência, ele vive uma vida solitária, em que poucos se dispõem a olhá-lo nos olhos e enxergá-lo por inteiro - como acontece num corredor de hospital, em que ele divide uma espera com uma mulher (Aryadne Amâncio), que ali tem uma filha doente.

No debate, Venturi destacou que este é seu primeiro papel como protagonista, numa carreira que já acumula 15 anos, e é também aquele em que conseguiu maior densidade dramática. Antes disso, ele teve uma carreira como palhaço mas, posteriormente, ambicionou “posicionar-se fora desse lugar de humor com algum componente de caricatura” que tantas vezes prejudica pessoas com nanismo.

Venturi conta que o diretor do curta estimulou sua participação na composição do personagem, visando eliminar eventuais elementos agressivos à sua condição. Isso resultou, segundo ele, na retirada de alguns termos equivocados e de alguns diálogos, resultando em mais silêncios - o que, a seu ver, demanda uma maior participação do espectador para decifrar certas situações.

O outro curta da noite foi o concorrente carioca Ave Maria, da estreante Pê Moreira, uma história de afetos confrontados a partir da volta de Maria (Vênus Berliner) à casa de sua família para as festas de final de ano. A intenção, segundo a diretora, era fazer um filme de Natal com um toque sincrético, traduzindo-se na tela a peculiar mistura entre cristianismo e candomblé que é uma das marcas do Brasil. Além disso, o filme examina os sentimentos de Maria, sua mãe (Aisha Jambo) e a avó (Cyda Moreno) diante da morte passada do pai de Maria. Um filme intimista e de muitas camadas, inclusive a racial - trata-se de uma família negra. Embora isso não seja tema do filme, está presente e motivou preocupação da diretora sobre vários aspectos, como a iluminação.