14/04/2024

Cineastas catarinenses tematizam o extremismo e a intolerância


Recife – A segunda noite do Cine PE trouxe boas novas do cinema catarinense, com a passagem na competição do longa Porto Príncipe, da diretora Maria Emília de Azevedo, retratando o relacionamento amistoso que se forma entre uma senhora de origem alemã, Bertha (Selma Egrei), e um refugiado haitiano, Bastide (o estreante Diderot Senat), no contexto de um ambiente interiorano carregado de preconceitos. Ela acolhe Bastide como empregado, gerando conflitos com seu filho, mas essa aproximação entre realidades muito diferentes abre pontes para descobertas e reflexões que fazem muito sentido no Brasil atual.

Diretora Maria Emília de Azevedo e ator Diderot Senat, do filme "Porto Príncipe" | Foto: Neusa Barbosa

Todo o ambiente conflagrado politicamente, num sul do País frequentemente identificado com a adesão à extrema-direita, perpassa o filme, roteirizado por Marcelo Esteves, mas de maneira sutil, como pano de fundo. Conforme o roteirista e a diretora explicaram na coletiva do filme, o tempo que se passou para o desenvolvimento do projeto, iniciado ainda durante o governo Dilma Rousseff, foi também permitindo incorporar mudanças na narrativa.

Dessa maneira, entram pela história as profundas diferenças na experiência dos dois protagonistas. De um lado, a velha senhora filha de imigrantes alemães que julga poder comparar a experiência de seus ancestrais à do refugiado haitiano – e este reage à altura, num dos diálogos mais fortes do filme. O contexto de origem de Bastide entra também pelas inserções de trechos documentais, mostrando a destruição do Haiti por um terremoto e a miséria que está por trás do êxodo de seus habitantes por países como o Brasil – onde eles se deparam com racismo, intolerância e agressões de cunho nazifascista.

Apesar de tocar nesses temas pesados, o centro de Porto Príncipe está no relacionamento entre esses dois protagonistas, capazes de uma troca humana que tem seus desequilíbrios e incompreensões mas aponta também para uma possibilidade de superação de conflitos – sem, com isso, pretender-se idealista ou ingênuo. Uma cena pós-créditos, aliás, aponta precisamente para a ameaça pendente de extremismo à espreita, ainda que neste momento o País respire um outro ar. Por isso, merece atenção este que é o longa de estréia de Maria Emília de Azevedo, uma experiente curta-metragista e produtora de Santa Catarina.

As filmagens ocorreram na cidade de Antônio Carlos, na região serrana próxima de Florianópolis, durante o governo Bolsonaro, motivo pelo qual alguns cuidados foram tomados. Como lembrou a produtora Simone Bastos, a cidade foi avisada da presença da equipe de filmagem, ainda que os moradores, por precaução, não soubessem exatamente de todos os detalhes da história. Mas a passagem por lá de uma integrante negra da equipe causou alvoroço suficiente para que se tomassem maiores cuidados. Por outro lado, a filmagem ocorreu numa casa de fazenda da região, cujas moradoras a emprestaram generosamente como locação.

Extremistas zumbis
Numa referência mais direta à situação política, mas recorrendo a uma linguagem de ficção científica, um dos curtas da noite foi o também catarinense Eles não são estrangeiros, de Pedro Bughay. O filme retrata o embate entre um exército de zumbis enfurecidos de sobrenomes estrangeiros enfrentados por uma militante vestida de vermelho (Sabrina Vianna) cujo bordão é “Silva” e também por um trio de LGBTs.


Curta-metragista Pedro Bughay, do filme "Eles não são estrangeiros", lê manifesto | Foto: Neusa Barbosa

Bughay também recorre a inserções documentais que não deixam dúvidas a quem se assemelham estes zumbis – como uma célebre passagem em que um grupo de pessoas chamavam extraterrestres com seus celulares na cabeça e cenas das depredações de prédios públicos em Brasília no 8 de janeiro.

Na coletiva do filme, o diretor afirmou que Eles não são estrangeiros ainda não foi exibido em seu estado natal – sua exibição em Recife foi sua première e ele ainda deve percorrer outros festivais nordestinos. Bughay revela o temor de reações exacerbadas ao filme quando esta exibição ocorrer em Santa Catarina, devido à ainda alta adesão local ao bolsonarismo. Ele mesmo, aliás, na apresentação de seu curta, na noite de terça, fez questão de ler o manifesto de um abaixo-assinada em apoio a uma colega cineasta, Faya Kury Cassins, que vem sendo ameaçada por extremistas no estado.


Homenagem
Um dos homenageados desta edição do festival, o ator Caio Blat recebeu seu troféu das mãos do cineasta Cláudio Assis – num momento de grande emoção para ambos. Recentemente, Assis teve problemas de saúde mas se encontra em recuperação. Blat atuou com Assis no filme Baixio das Bestas (2006).

Caio Blat recebe troféu de Cláudio Assis | Foto:
Felipe Souto Maior/Divulgação

Na coletiva de hoje, Caio Blat destacou os trabalhos em que aparecerá em breve. Como ator, ele está no elenco de dois filmes selecionados para o próximo Festival do Rio – On/Off, de Lírio Ferreira, e Grande Sertão Veredas, em que Bia Lessa realiza a versão cinematográfica da obra de Guimarães Rosa que ela já levou ao teatro, também com Blat. Uma outra versão da obra de Rosa será interpretada por Blat, como Riobaldo, ao lado de sua mulher, Luísa Arraes, como Diadorim, esta dirigida pelo pai da atriz, Guel Arraes.

Tendo estreado como diretor em O Debate (2022), Blat pretende também prosseguir nessa função, comandando um projeto sobre a atriz Cacilda Becker, contando sua vida através de seus personagens.