Fernando Coimbra despontou no cinema brasileiro com seu primeiro longa O Lobo Atrás da Porta, um suspense repleto de reviravoltas e sem pudor de ir até o fim no retrato da mesquinhez humana. Em Os Enforcados, o cineasta, que também assina o roteiro, é mais ambicioso, mas menos habilidoso na organização formal.
Ao falar das mazelas da elite brasileira, o filme se deita num berço muito conveniente e fácil. Tudo parece já dado, não é preciso se aprofundar, pois a hipocrisia e podridão estão – ou estariam – na superfície. Mas, como se sabe, as coisas são bem mais complicadas do que isso.
É supostamente catártico expor as feridas dos ricos, mas nem por isso Os Enforcados consegue ir além do que está na tela. O final, marcado – ou deveria estar marcado – pela ironia e cinismo deixa claras as limitações do filme quando a reação que conseguimos ter é, basicamente, soltar um “Afe”.
Valério (Irandhir Santos) e Regina (Leandra Leal) são casados e estão quase quebrados. Mas, para que isso não aconteça, resolvem assumir o controle do império criado pela família que envolve jogo do bicho, lavagem de dinheiro e carnaval. O que acontece na sequência é uma espiral de crimes regados a sangue.
Se Coimbra mirou na sátira, e é o que parece, seu filme chega ao grotesco, mas não um grotesco resultado da acumulação de camadas, e sim um grotesco gratuito que resulta em personagens caricatos num Rio de Janeiro pouco real também. Regina é uma Lady Macbeth que manda e Valério executa.
O filme pega pesado em sua simbologia que, novamente, é óbvia. Regina vê manchas na parede, que só ela vê – coisas que estão na cabeça dela. O humor nunca entra de forma orgânica nas personagens que, embora estejam nas mãos de bons atores e boas atrizes, parecem existir única e exclusivamente com propósitos fílmicos. Não há vida quando não estão em cena.
Talvez esteja aí o grande problema do longa de Coimbra. Ele não existe para além da tela. É um filme bem executado mas que chega com suas ideias prontas, e apenas as quer ilustrar. Nesse sentido, Os Enforcados não encontra profundidade. Assume-se que todo mundo pensa como o filme, e, por isso, ele serve apenas como ilustração desses pensamentos, sem abrir espaço para que outros sejam instigados.
