03/06/2026

Paulínia fecha apostas à espera da premiação

Com a exibição do documentário Herbert de Perto, de Roberto Berliner e Pedro Bronz, e da comédia Antes que o Mundo Acabe, de Ana Luiza Azevedo, o II Festival Paulínia de Cinema encerrou suas sessões competitivas na noite de quarta (15). Nesta quinta (16), serão conhecidos os premiados, após a première do novo filme de Daniel Filho, o drama Tempos de Paz.

Um balanço do festival traduz os acertos e erros do cinema brasileiro atual. Por um lado, foi inegavelmente positiva a própria realização do evento, pela qual se chegou a temer com a recente mudança da administração municipal da cidade paulista, polo petroquímico que se tornou polo de produção cinematográfica. Diretores e produtores de todos os estados, alguns que até torciam o nariz para o novíssimo festival, cada vez mais tem-se dirigido a Paulínia em busca de patrocínio e suporte a suas produções – a cidade tem dois editais por ano, além de estúdios e escola de técnicos.

A seleção de ficções e documentários, que sempre traduz o perfil de sua comissão de seleção, trouxe nomes consagrados e novos realizadores com alguma estrada. Entre todos os longas, aquele que encarnou maior busca de renovação de linguagem e maior inquietação na procura de novos rumos na própria arte cinematográfica foi o veterano Eduardo Coutinho em Moscou. Produção que teve sua première no Festival É Tudo Verdade 2009 e, desde então, percorreu alguns festivais seletos mas não recebeu até aqui um prêmio à altura de sua qualidade, o filme acompanha os meandros da criação teatral, a partir do ensaio de uma montagem de As Três Irmãs, de Anton Tchecov, com o Grupo Galpão.

Um frescor semelhante e com frescor de ritmo e linguagem, frequentou a comédia Antes que o Mundo Acabe, em que a gaúcha Ana Luiza Azevedo (curta-metragista premiada da Casa de Cinema de Porto Alegre, com filme no currículo como Três Minutos). Tal como nos filmes do colega Jorge Furtado, Ana Luiza fez um retrato vital e sincero das emoções adolescentes, acompanhando as angústias do crescimento de um garoto de 15 anos, Daniel (Pedro Tergolina), às voltas com decepções amorosas, traições de amigos e a descoberta de um pai que não conhecia. É um filme que faz parceria com o também ótimo Era uma Vez Dois Verões, de Furtado, e como ele procura sintonia com os jovens – que são boa parcela dos frequentadores das salas de cinema e tem poucas opções nacionais com a sua cara.

A música nossa de cada dia
Entre os documentários, viu-se a passagem de vários que retrataram temas musicais. Foi o caso do próprio Herbert de Perto, que focaliza o roqueiro Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso (banda que faz o encerramento do festival, num show para convidados, nesta noite de quinta), entre sua ascensão, passando pelo acidente de ultraleve que quase o matou, em 2001, e sua virtual ressurreição numa nova fase.

Mamonas, o Doc, de Cláudio Khans, igualmente perfilou uma banda pop, os Mamonas Assassinas de Guarulhos (SP), sua explosão no cenário musical brasileiro em 1995 até o desaparecimento súbito, por conta de um acidente de avião que matou todos seus integrantes menos de um ano depois.

Mesmo que a música aproxime os dois documentários, que têm uma tragédia pelo meio, o tom e as intenções os afastam. Mas foram dois filmes que se comunicaram bem com a platéia do Theatro Municipal de Paulínia e apontam para a continuidade de um gênero que tem feito sucesso em DVD no Brasil. Um filão que promete prosseguir dando frutos em tempos de incerteza sobre os gostos dos espectadores.

Outros dois documentários procuraram o perfil de personagens. Só Dez Por Cento é Mentira, de Pedro Cezar, cria uma moldura visual para a colorida poética de Manoel de Barros, o nonagenário poeta do Pantanal, que comparece com toda a sua alegria, pela própria voz, de seus admiradores e do ambiente em que vive. Foi um dos melhores filmes deste festival, embora tivesse, igualmente, sido exibido anteriormente em alguns outros, como a Mostra de SP.

Caro Francis, de Nelson Hoineff, centra-se na figura do jornalista Paulo Francis, recaindo num retrato mais hagiográfico do que outra coisa, de uma pessoa que acumulou polêmicas e deixou duvidosa herança para o jornalismo brasileiro.

Sentidos à Flor da Pele, de Evaldo Mocarzel, ousa pouco na procura de retratar o universo de pessoas com deficiências visuais. Um pouco mais de tempo e pesquisa teria, eventualmente, feito bem para que a produção fosse mais longe.

Ficção em busca de caminhos
Entre os filmes de ficção, assistiu-se a uma busca de novas fórmulas que sintonizem com o gosto do público, em diferentes voltagens. O Contador de Histórias, de Luiz Villaça, procura apoio numa história real, do ex-menino de rua Roberto Carlos Ramos, para recriá-la num conto de superação, que tem apelo e dignidade. O filme é de construção simples e escapa da pieguice. Não é pouco.

Quanto Dura o Amor?, de Roberto Moreira, fecha o foco num microcosmo urbano. É bem-filmado mas padece de uma certa inconsistência dramatúrgica ao procurar traduzir as paixões de um grupo de habitantes desgarrados de um prédio de apartamentos em São Paulo. Seus personagens parecem, às vezes, um tanto artificiais.

No Meu Lugar, primeiro longa do premiado curta-metragista carioca Eduardo Valente, registra uma busca de despojamento na linguagem e na dramaturgia, já vista em seus trabalhos anteriores. Resulta, porém, insatisfatório, distanciado demais no tom e omitindo o destino de alguns personagens cruciais.

Olhos Azuis, de José Joffily, aborda inegavelmente um tema candente e atual ao retratar um incidente de consequências trágicas, envolvendo policiais norte-americanos e imigrantes latino-americanos no aeroporto de Nova York. Mas roteiro e direção erram a mão nos estereótipos e numa caricatura grotesca de alguns personagens e situações. É outro filme que teria se beneficiado se tivesse contado com um maior burilamento dramático.

Destino, de Moacyr Góes, é um desastre tão grande que poucos comentários adicionais merece. Um desastre cinematográfico que inclui interesses que só beneficiam a muito poucos, mas não, certamente, ao cinema brasileiro.

A seleção de curtas deixou bastante a desejar. Viu-se pouca coisa com algum interesse ou criatividade – o que foi o caso de Timing, de Amir Admoni.

Notícias relacionadas